Aumento de exposições a animais potencialmente infectados levou o CDC a emitir alerta nacional. Na Califórnia, morcegos estão entre os principais responsáveis pelos casos de raiva em animais
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Uma doença conhecida há séculos voltou a chamar a atenção das autoridades de saúde dos Estados Unidos. A raiva, infecção viral que afeta o sistema nervoso central e pode provocar a morte depois do início dos sintomas, está no centro de um novo alerta emitido pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC).
O alerta não significa que os Estados Unidos estejam enfrentando uma epidemia de raiva em humanos. Na realidade, a doença continua sendo rara entre a população americana. O que aumentou durante o verão de 2026 foi o número de relatos relacionados a possíveis exposições ao vírus, além da utilização da chamada profilaxia pós-exposição (PEP), tratamento preventivo aplicado depois de uma situação de risco.
Entre julho e agosto de 2026, o CDC recebeu 17% mais consultas relacionadas à raiva do que no mesmo período do ano anterior. O órgão também recebeu notificações de pelo menos oito departamentos estaduais de saúde sobre aumento na utilização da PEP, erros na administração do tratamento ou ambos.
O cenário chamou atenção porque a raiva possui uma característica particularmente perigosa: quando os sinais clínicos começam, a doença é quase sempre fatal. Por outro lado, existe uma diferença fundamental em relação a muitas outras doenças infecciosas: quando a exposição é identificada rapidamente, a infecção pode ser evitada por meio do tratamento adequado.
O que está acontecendo nos Estados Unidos?
O CDC informou, em setembro de 2026, que diferentes regiões americanas registraram aumentos locais de exposições humanas a animais com raiva ou potencialmente infectados.
Alguns episódios recentes envolveram situações incomuns e chamaram a atenção do público. Em Maryland, por exemplo, um adolescente foi atacado por um castor que posteriormente estava associado à preocupação com raiva. Na Carolina do Norte, centenas de pessoas foram avaliadas depois de terem contato com cabras que posteriormente apresentaram infecção pelo vírus.
Esses acontecimentos, entretanto, não permitem concluir que exista atualmente uma disseminação generalizada da raiva entre seres humanos. Especialistas ouvidos pelo The Guardian destacaram que parte do aumento observado pode estar relacionada a eventos excepcionais, maior atenção da população e ao crescimento das avaliações médicas após possíveis exposições.
O próprio CDC faz uma distinção importante: o aumento registrado recentemente envolve exposições e medidas preventivas, e não necessariamente um aumento proporcional de pessoas efetivamente infectadas.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas procuram atendimento médico todos os anos depois de algum tipo de contato com animais, segundo o CDC. Cerca de 100 mil recebem profilaxia pós-exposição contra a raiva.
Por que a raiva é tão perigosa?
A raiva é provocada pelo vírus da raiva, que pertence ao gênero Lyssavirus. O vírus normalmente chega ao organismo por meio da saliva de um animal infectado, principalmente através de mordidas.
Também pode ocorrer transmissão por arranhões ou quando saliva contaminada entra em contato com mucosas ou uma ferida.
Depois de entrar no organismo, o vírus pode permanecer sem provocar sintomas por semanas ou meses. Durante esse período, ele avança em direção ao sistema nervoso e, posteriormente, ao cérebro.
É justamente essa característica que torna a prevenção após uma exposição tão importante.
Quando os sintomas aparecem, a situação muda drasticamente. O CDC afirma que a doença é quase sempre fatal depois do surgimento dos sinais clínicos.
Os primeiros sintomas podem se parecer com os de uma infecção comum, incluindo:
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febre;
-
dor de cabeça;
-
fraqueza;
-
mal-estar;
-
desconforto ou formigamento no local da mordida.
Com a progressão da doença, podem surgir sintomas neurológicos graves, como confusão mental, agitação, alucinações, dificuldade para engolir, paralisia e alterações comportamentais.
Em estágios avançados, a doença pode provocar encefalite, coma e morte.
Morcegos representam um dos maiores riscos
Embora muitas pessoas associem a raiva a cães, a realidade nos Estados Unidos é diferente.
Os morcegos são atualmente a principal fonte de casos de raiva humana adquiridos dentro do país. Entre os 42 casos humanos adquiridos nos Estados Unidos registrados entre 2000 e 2024, 35 estavam relacionados a contato com morcegos — o equivalente a cerca de 83%.
O problema é que uma mordida de morcego pode ser extremamente pequena.
Em determinadas situações, a pessoa pode nem perceber que foi mordida ou arranhada. Por isso, autoridades americanas recomendam atenção especial quando alguém entra em contato direto com um morcego, mesmo que não consiga identificar uma lesão na pele.
Esse aspecto é especialmente importante para crianças, que podem tocar em um morcego sem compreender o risco ou não conseguir explicar posteriormente se houve contato com uma mordida.
A situação na Califórnia
A Califórnia está entre os estados onde a presença do vírus é monitorada de maneira sistemática.
Dados do California Department of Public Health mostram que 254 animais testaram positivo para raiva no estado em 2024. Desse total, 229 eram morcegos.
O número de morcegos infectados naquele ano ficou 18% acima da média anual de 194 casos registrada entre 2014 e 2023, segundo o relatório de vigilância epidemiológica da Califórnia.
Isso não significa que os moradores estejam diante de uma epidemia entre humanos. A própria estrutura de vigilância mostra que a grande maioria das detecções ocorre entre animais silvestres.
Ainda assim, a presença do vírus na fauna exige cuidado, principalmente porque morcegos podem entrar em residências, escolas, áreas de lazer e outros locais frequentados pela população.
Em setembro de 2026, por exemplo, autoridades de saúde do condado de Humboldt informaram que três crianças do norte da Califórnia receberam tratamento contra a raiva após contato com morcegos infectados em dois episódios distintos. Os animais foram posteriormente testados e apresentaram resultado positivo.
O caso reforçou uma recomendação fundamental: não tocar em morcegos, estejam eles vivos, mortos, aparentemente saudáveis ou apresentando comportamento estranho.
Até um morcego aparentemente inofensivo pode representar risco
Outro episódio recente ocorreu no Yosemite National Park.
Um morcego encontrado morto próximo ao Curry Village testou positivo para raiva. Não houve registro de contato humano com o animal, mas as autoridades recomendaram que qualquer pessoa que pudesse ter tido contato direto procurasse avaliação médica.
O episódio serve para mostrar uma das dificuldades da prevenção: o contato nem sempre acontece de maneira óbvia.
Um morcego pode pousar sobre uma pessoa, tocar sua pele ou entrar em um quarto durante a noite. Uma mordida pequena pode passar despercebida.
Por isso, o CDC considera que qualquer possível exposição a um morcego deve ser avaliada por profissionais de saúde ou autoridades de saúde pública, mesmo quando não há uma marca evidente de mordida.
Como a raiva é transmitida?
A principal forma de transmissão ocorre quando a saliva de um animal infectado entra no organismo.
Isso pode acontecer por:
Mordidas: é a forma clássica de transmissão.
Arranhões: podem representar risco quando há contaminação por saliva infectada.
Contato da saliva com mucosas ou ferimentos: também pode ser considerado exposição.
Entre os animais que podem transmitir raiva estão morcegos, gambás, guaxinins, raposas, cães, gatos e outros mamíferos.
Entretanto, nem todo contato com um animal significa exposição à raiva. A avaliação depende do animal envolvido, do comportamento apresentado, da existência de mordida ou arranhão, da presença de saliva e de outras circunstâncias.
Na Califórnia, mordidas provocadas por mamíferos considerados suscetíveis à raiva devem ser comunicadas às autoridades locais de saúde, conforme as regras estaduais.
O que fazer depois de uma mordida?
A orientação mais importante é não esperar pelo aparecimento de sintomas.
Depois de uma possível exposição, a pessoa deve:
- Lavar imediatamente o ferimento com água corrente e sabão.
- Procurar atendimento médico ou entrar em contato com o departamento de saúde.
- Informar qual animal esteve envolvido.
- Explicar quando e onde ocorreu o contato.
- Não tentar capturar ou manipular um animal potencialmente infectado por conta própria.
O profissional de saúde, em conjunto com as autoridades de saúde pública, avaliará se é necessário iniciar a profilaxia pós-exposição.
Segundo o CDC, a PEP pode incluir lavagem da ferida, imunoglobulina humana contra a raiva e uma série de doses da vacina, de acordo com as circunstâncias da exposição e o histórico de vacinação da pessoa.
A rapidez é essencial porque o objetivo é impedir que o vírus alcance o sistema nervoso antes do início dos sintomas.
E se o animal for um cachorro ou gato?
A situação precisa ser avaliada individualmente.
Animais domésticos também podem contrair raiva, especialmente quando têm contato com animais silvestres.
Por isso, uma das principais medidas preventivas recomendadas pelas autoridades é manter cães e gatos com a vacinação antirrábica em dia. A vacinação dos animais reduz o risco de transmissão para seres humanos e também ajuda a proteger os próprios pets.
Na Califórnia, as autoridades também recomendam evitar contato com animais silvestres ou desconhecidos e comunicar mordidas às autoridades competentes.
A raiva está realmente “crescendo” nos EUA?
Essa é uma das principais questões que precisam ser esclarecidas.
Há sinais de aumento nas exposições e na procura por profilaxia, mas não há evidência suficiente para afirmar que a raiva humana esteja passando por uma grande expansão no país.
O alerta do CDC de setembro de 2026 foi motivado por um conjunto de eventos envolvendo animais infectados, exposições humanas e aumento da utilização da PEP. Entre julho e agosto, o CDC registrou aumento de 17% nas consultas relacionadas à doença, enquanto dados de farmácias indicaram crescimento estimado de 33% na utilização das vacinas contra raiva e de 76% na utilização das imunoglobulinas, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Esses números são relevantes, mas precisam ser interpretados corretamente.
Mais pessoas recebendo tratamento preventivo não significa necessariamente que mais pessoas estejam contraindo raiva. Na verdade, o aumento da PEP pode significar que mais exposições estão sendo identificadas e tratadas antes que a doença se desenvolva.
Dois casos fatais em 2024 mostram a importância da prevenção
Apesar de a raiva humana ser rara nos Estados Unidos, casos recentes demonstram que o risco não é apenas teórico.
Em 2024, o CDC identificou duas mortes por raiva associadas a contato com morcegos, uma em Minnesota e outra na Califórnia.
Nos dois episódios, as pessoas haviam tido contato com morcegos, mas não procuraram atendimento médico ou autoridades de saúde antes do surgimento dos sintomas e, consequentemente, não receberam a profilaxia necessária a tempo.
O caso da Califórnia ganhou repercussão porque uma professora morreu depois de ter sido mordida por um morcego encontrado dentro de uma sala de aula. Ela apresentou sintomas apenas semanas depois, quando a doença já havia avançado.
Esses episódios ajudam a explicar por que autoridades insistem tanto em uma mensagem simples: uma possível exposição à raiva deve ser avaliada imediatamente, mesmo quando a pessoa se sente completamente saudável.
Existe vacina contra a raiva?
Sim.
A vacinação pode ser utilizada tanto antes quanto depois de uma possível exposição, dependendo do nível de risco.
Para a população em geral, a vacinação preventiva antes da exposição é indicada principalmente para pessoas com maior risco ocupacional ou epidemiológico, enquanto a vacinação pós-exposição é utilizada quando uma pessoa teve contato que possa ter transmitido o vírus.
O mais importante é que a vacinação pós-exposição precisa ser iniciada antes que os sintomas apareçam. Uma vez instalada a doença clínica, as possibilidades de tratamento são extremamente limitadas e o prognóstico é muito grave.
O risco para a população continua baixo?
Sim, segundo os dados disponíveis.
A raiva permanece rara entre seres humanos nos Estados Unidos. O problema é que a gravidade da doença é desproporcional à sua frequência.
Em outras palavras: a maioria das pessoas nos Estados Unidos não terá contato com o vírus durante a vida. Mas, quando existe uma exposição verdadeira, ignorá-la pode ter consequências fatais.
Essa combinação — doença rara, mas quase sempre fatal depois dos sintomas e prevenível quando a intervenção acontece antes deles — explica a atenção das autoridades.
Como reduzir o risco no dia a dia
Algumas medidas simples podem reduzir significativamente a possibilidade de exposição:
-
não toque em morcegos ou outros animais silvestres;
-
nunca tente capturar um animal que esteja agindo de maneira anormal;
-
mantenha cães e gatos vacinados;
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ensine crianças a não se aproximarem de animais desconhecidos;
-
mantenha animais domésticos afastados da fauna silvestre;
-
procure orientação médica imediatamente após uma mordida ou arranhão;
-
se houver possível contato com morcego, não descarte o episódio apenas porque não existe uma marca visível na pele;
-
comunique possíveis exposições às autoridades locais de saúde.
O CDC ressalta que evitar o contato com animais que estejam doentes ou apresentando comportamento incomum e procurar atendimento rapidamente depois de uma possível mordida ou arranhão são medidas fundamentais para evitar a doença.
O que os números realmente mostram
O alerta atual não deve provocar pânico, mas serve como um lembrete importante.
A raiva não está se transformando em uma epidemia humana nos Estados Unidos. O que as autoridades estão observando é um aumento recente nas exposições, nos episódios envolvendo animais infectados e na utilização de medidas preventivas.
Na Califórnia, os morcegos continuam sendo um dos principais pontos de atenção: em 2024, eles representaram 229 dos 254 animais diagnosticados com raiva no estado.
Para a população, a principal mensagem não é evitar parques, lagos ou áreas naturais, mas saber reconhecer uma situação de risco e agir rapidamente.
A raiva é uma das doenças infecciosas mais letais conhecidas quando os sintomas aparecem. Mas também é uma das doenças em que a prevenção após a exposição pode fazer uma diferença decisiva.
Por isso, diante de uma mordida, arranhão ou contato suspeito com um animal potencialmente infectado, não é recomendável esperar para ver se algum sintoma aparecerá. A orientação médica deve ser procurada o quanto antes.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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