Calor extremo ameaça gestantes e bebês e já preocupa profissionais de saúde no Brasil

Pesquisa internacional revela que 89% dos profissionais brasileiros ouvidos temem os efeitos das altas temperaturas sobre recém-nascidos; estudos também associam exposição ao calor a parto prematuro e outros desfechos adversos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O avanço das temperaturas extremas deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a representar um desafio cada vez mais importante para a saúde materna e infantil. Uma pesquisa internacional encomendada pela organização Wellcome mostra que 89% dos profissionais de saúde brasileiros que atuam com gestantes, parturientes e recém-nascidos estão preocupados com os efeitos das altas temperaturas sobre esse público. Entre eles, 77% acreditam que os riscos para mães e crianças devem aumentar nos próximos cinco anos.

O levantamento ouviu cerca de mil profissionais de saúde em cinco países — Brasil, Reino Unido, Austrália, Índia e Zimbábue — e identificou uma percepção crescente de que o calor extremo já está interferindo na saúde durante a gestação e nos primeiros períodos de vida. No conjunto dos países analisados, 73% dos entrevistados disseram ter observado aumento de casos ou complicações relacionados ao calor entre gestantes nos últimos cinco anos, enquanto 76% perceberam crescimento de problemas envolvendo fetos ou recém-nascidos.

A preocupação encontra respaldo em evidências científicas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a exposição a riscos climáticos, incluindo o calor extremo, está associada a complicações maternas e perinatais, entre elas parto prematuro, baixo peso ao nascer, natimortalidade, hipertensão e diabetes gestacional.

Calor deixa de ser apenas desconforto e passa a ser questão de saúde

Durante a gravidez, o organismo feminino passa por alterações fisiológicas importantes que podem modificar a maneira como o corpo responde ao calor. O aumento da demanda metabólica, as mudanças cardiovasculares e respiratórias e as alterações na capacidade de dissipar calor podem tornar a gestante mais vulnerável a temperaturas elevadas.

A OMS reconhece as gestantes como um dos grupos que apresentam maior risco diante de episódios de calor extremo. A organização destaca que o problema é especialmente relevante quando temperaturas elevadas se prolongam por vários dias ou noites, aumentando o estresse térmico sobre o organismo.

O risco não depende apenas do número mostrado pelo termômetro. Um mesmo valor pode representar níveis diferentes de perigo conforme a região, a umidade, a infraestrutura urbana, a disponibilidade de água, a ventilação das casas e o grau de adaptação da população às temperaturas habituais.

Essa característica é particularmente importante no Brasil, onde as condições climáticas e socioeconômicas variam significativamente entre regiões.

Pesquisa mostra preocupação entre profissionais brasileiros

Os números do levantamento realizado pela Censuswide a pedido da Wellcome chamam atenção para a percepção dos próprios profissionais que acompanham mulheres durante a gravidez e bebês após o nascimento.

No Brasil, 89% dos entrevistados demonstraram preocupação com os impactos das altas temperaturas sobre os recém-nascidos, enquanto 77% avaliaram que os riscos para mães e crianças poderão crescer nos próximos cinco anos.

A preocupação não está restrita à percepção de futuro. O levantamento internacional indica que o fenômeno já estaria sendo percebido na prática profissional. Entre os cinco países pesquisados, quase três quartos dos trabalhadores da saúde disseram ter observado aumento de complicações relacionadas ao calor entre gestantes nos cinco anos anteriores.

A pesquisa foi realizada com profissionais ligados à assistência materna e neonatal, incluindo diferentes categorias que atuam durante a gravidez, o parto, o período pós-parto e os cuidados com recém-nascidos. O estudo reuniu 200 participantes de cada país, segundo as informações apresentadas no material analisado.

Evidências apontam relação entre calor e parto prematuro

Um dos principais pontos de atenção é o possível aumento do risco de parto prematuro associado à exposição a temperaturas extremas.

No Brasil, pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), ligado à Fiocruz Bahia, vêm investigando justamente a relação entre temperaturas elevadas, ondas de calor e desfechos relacionados ao nascimento. O programa Cidacs Clima informa que existem estudos em andamento sobre a influência das temperaturas extremas na ocorrência de partos prematuros, além de pesquisas sobre mortalidade, nutrição infantil e hospitalizações.

A literatura científica internacional também aponta nessa direção. Uma revisão publicada no AJOG Global Reports analisou 158 estudos sobre fatores climáticos e saúde materna e encontrou associação significativa entre fatores climáticos e resultados adversos em 92,4% dos trabalhos avaliados. Entre os estudos que analisaram especificamente o calor, a maioria encontrou relação com parto prematuro, baixo peso ao nascer, restrição do crescimento fetal, aborto espontâneo ou natimortalidade.

Outro trabalho científico destaca que existe um conjunto crescente de evidências ligando a exposição a calor extremo ao aumento do risco de nascimento prematuro.

Isso não significa que uma onda de calor necessariamente provoque um parto prematuro em determinada gestante. A relação é epidemiológica e envolve múltiplos fatores. Condições de saúde, idade gestacional, situação socioeconômica, acesso aos serviços médicos, qualidade da moradia e outras exposições ambientais também interferem nos resultados.

Primeiras e últimas fases da gravidez podem exigir atenção especial

Os pesquisadores brasileiros citados no levantamento analisam justamente em quais períodos da gestação o calor pode representar maior risco.

Segundo o material, os resultados indicam uma associação especialmente relevante entre exposição a temperaturas extremas e parto prematuro no início da gestação e nas últimas semanas antes do nascimento.

A OMS também destaca que gestantes, puérperas, recém-nascidos e crianças pequenas possuem vulnerabilidades específicas diante do calor. A organização aponta fatores fisiológicos, clínicos, sociais e ambientais que podem aumentar ou reduzir o impacto da exposição.

O período da gestação, portanto, é apenas uma das variáveis. O ambiente em que a mulher vive e trabalha também pode determinar o nível de exposição.

Por que a gravidez aumenta a vulnerabilidade ao calor?

Durante a gestação, o corpo passa por profundas modificações para sustentar o crescimento e o desenvolvimento do feto.

Entre as alterações estudadas estão mudanças no sistema cardiovascular, respiratório e metabólico. Em situações de calor intenso, o organismo precisa aumentar seus mecanismos de dissipação de calor, enquanto a gestação já impõe uma demanda fisiológica adicional.

Materiais técnicos da OMS descrevem mecanismos que podem estar envolvidos nessa relação, incluindo aumento da temperatura corporal central, desidratação, alterações no fluxo sanguíneo e possíveis efeitos sobre o desenvolvimento e funcionamento da placenta.

Os pesquisadores ainda investigam como essas alterações podem contribuir para complicações obstétricas. Em alguns casos, o calor pode atuar como um fator adicional sobre uma gravidez que já apresenta outros riscos.

Por isso, calor extremo não deve ser interpretado como uma causa isolada de todas as complicações da gravidez, mas como um fator ambiental capaz de aumentar vulnerabilidades já existentes.

O impacto pode alcançar o bebê antes mesmo do nascimento

O feto não está diretamente exposto à temperatura externa da mesma maneira que a mãe. No entanto, alterações no organismo materno podem repercutir sobre a gestação.

A OMS afirma que os riscos climáticos podem afetar a saúde materna e perinatal e estão associados a resultados como parto prematuro, baixo peso ao nascer e natimortalidade.

Um dos mecanismos estudados envolve a placenta. Alterações na circulação e no equilíbrio fisiológico da gestante podem interferir no ambiente necessário para o desenvolvimento fetal.

Ainda existem lacunas científicas importantes. A própria OMS ressalta que alguns mecanismos precisam ser melhor compreendidos, especialmente em relação aos diferentes tipos de exposição ao calor e às características individuais das gestantes e dos recém-nascidos.

O problema não termina no parto

A preocupação com temperaturas elevadas também continua depois do nascimento.

O material analisado menciona estudos do Cidacs que investigaram aproximadamente 350 mil crianças e encontraram associação entre ondas de calor e redução da amamentação. Outra pesquisa, publicada na revista The Lancet Planetary Health, analisou aproximadamente 6 milhões de crianças registradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e identificou efeitos das temperaturas sobre indicadores relacionados ao crescimento infantil.

Esses dados ampliam a discussão. O calor não representa apenas um possível risco durante o desenvolvimento fetal ou no momento do nascimento. Ele também pode interferir nas condições necessárias para os cuidados com o bebê nos primeiros meses e anos de vida.

Em temperaturas muito elevadas, por exemplo, manter a amamentação pode se tornar mais difícil para algumas mães. O desconforto térmico, a desidratação, a falta de ambientes adequados e as condições de moradia podem dificultar a rotina de alimentação e cuidados.

Crianças de famílias mais vulneráveis podem enfrentar riscos maiores

A exposição ao calor não é distribuída igualmente pela sociedade.

Uma gestante que vive em uma residência bem ventilada, tem acesso contínuo à água, pode permanecer em um ambiente climatizado e possui condições de reduzir sua exposição ao calor enfrenta uma realidade muito diferente daquela de uma mulher que mora em uma casa superaquecida, trabalha em ambiente quente ou não consegue interromper suas atividades durante uma onda de calor.

A OMS destaca que a vulnerabilidade ao calor é influenciada por fatores fisiológicos, mas também por condições socioeconômicas e de exposição, como ocupação, moradia e acesso a ambientes de resfriamento.

O próprio trabalho do Cidacs busca identificar diferenças nos efeitos das mudanças climáticas segundo características sociais e raciais das crianças.

Isso significa que a discussão sobre calor e gravidez também é uma discussão sobre desigualdade social e acesso à proteção.

Ter acesso a um ambiente fresco pode fazer diferença

A proteção contra o calor não depende exclusivamente de atitudes individuais.

A recomendação de beber água, evitar esforço físico nos horários mais quentes e procurar locais frescos é importante. A OMS recomenda que pessoas vulneráveis evitem exposição prolongada ao calor e mantenham hidratação adequada durante episódios de temperaturas extremas.

Mas nem todas as pessoas conseguem seguir essas orientações da mesma maneira.

Uma gestante que trabalha em ambiente sem ventilação, depende de transporte público ou mora em uma residência que acumula calor pode ter poucas alternativas para reduzir a exposição.

Por isso, pesquisadores e organismos internacionais defendem que as políticas de adaptação climática considerem especificamente grupos vulneráveis, incluindo gestantes, bebês e crianças pequenas.

Brasil precisa ampliar preparação para ondas de calor

No país, 79% dos profissionais entrevistados na pesquisa consideraram que a proteção de gestantes e bebês deveria receber mais atenção nas políticas públicas. Outros 80% disseram que evidências científicas mais robustas poderiam ajudar a ampliar as ações de proteção.

A demanda também envolve os próprios profissionais. No conjunto dos cinco países pesquisados, 92% afirmaram precisar de mais treinamento e recursos para lidar com os efeitos do calor sobre gestantes.

A OMS defende justamente a criação e o fortalecimento de planos de ação para o calor, com sistemas de alerta, identificação das populações mais vulneráveis, comunicação de riscos, preparação dos serviços de saúde e monitoramento dos efeitos sobre a população.

Cidades também têm responsabilidade na proteção

A resposta ao calor não precisa ocorrer apenas dentro de hospitais e unidades de saúde.

O planejamento urbano pode ajudar a reduzir a exposição. Arborização, áreas verdes, espaços públicos mais frescos, melhoria das condições de moradia e adequação dos locais de trabalho estão entre as estratégias capazes de diminuir o impacto das altas temperaturas.

A OMS destaca que características das cidades, como perda de áreas verdes e materiais de construção que acumulam calor, podem aumentar a exposição da população. Pessoas de baixa renda também tendem a enfrentar maior dificuldade para acessar formas de resfriamento.

No caso de gestantes, essas condições podem ser especialmente relevantes porque a capacidade de evitar o calor nem sempre depende de uma escolha individual.

O que a ciência brasileira está investigando

O Cidacs mantém uma frente específica de pesquisas sobre clima e saúde. Entre os temas estudados estão os efeitos de ondas de calor e temperaturas extremas sobre mortalidade, crianças menores de cinco anos, nutrição e ocorrência de partos prematuros.

A estrutura de dados utilizada pelos pesquisadores permite acompanhar informações de grandes populações brasileiras. Segundo informações da Fiocruz e da Fapesp, a base atualmente reúne informações de aproximadamente 140 milhões de pessoas provenientes do Cadastro Único e integradas a diferentes bases nacionais de saúde.

Essa capacidade de cruzar informações sociais, de saúde e ambientais permite investigar quais grupos estão mais expostos e quais períodos da gestação podem apresentar maior vulnerabilidade.

Um dos projetos do Cidacs também utiliza a coorte de nascimentos para estudar especificamente os efeitos do calor sobre os desfechos ao nascimento e a nutrição infantil.

Problema pode ser maior do que mostram os registros hospitalares

Outro alerta apresentado pelos pesquisadores é que nem todos os efeitos do calor aparecem imediatamente como doenças relacionadas à temperatura.

Uma onda de calor intensa pode provocar aumento perceptível de atendimentos e internações. Já o aumento gradual das temperaturas médias pode gerar um crescimento silencioso de determinados problemas de saúde, sem que necessariamente sejam registrados como consequência direta do calor.

Esse aspecto dificulta o monitoramento.

Uma gestante que apresenta uma complicação durante um período de temperaturas elevadas pode receber um diagnóstico clínico específico, sem que o calor seja necessariamente registrado como um fator associado. Para os pesquisadores, melhorar a qualidade dos dados é fundamental para compreender a dimensão real do problema.

O que pode ser feito para proteger gestantes e bebês?

A proteção precisa combinar medidas individuais, assistência médica e políticas públicas.

Durante períodos de calor intenso, recomendações gerais de saúde incluem:

  • manter hidratação adequada;

  • evitar exposição prolongada ao sol e aos horários de maior calor;

  • reduzir atividades físicas intensas em ambientes quentes;

  • procurar locais mais frescos;

  • manter os ambientes domésticos ventilados sempre que possível;

  • observar sinais de mal-estar relacionados ao calor;

  • seguir orientações específicas da equipe de pré-natal;

  • procurar atendimento médico diante de sintomas importantes.

A OMS recomenda atenção especial às populações vulneráveis durante episódios de calor e reforça que medidas preventivas e sistemas de alerta podem reduzir impactos evitáveis.

No caso de gestantes, porém, orientações gerais não substituem o acompanhamento pré-natal. Situações como gravidez de alto risco, doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes ou outras condições clínicas podem exigir cuidados individualizados.

Mudança climática transforma a gravidez em uma nova frente de saúde pública

A preocupação com o calor durante a gestação está inserida em um problema climático mais amplo.

A OMS afirma que as mudanças climáticas já estão aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos, incluindo ondas de calor, e que seus efeitos sobre a saúde são distribuídos de maneira desigual.

Em 2023, a organização e outras agências das Nações Unidas já haviam alertado que gestantes, recém-nascidos e crianças estão entre os grupos que podem sofrer consequências graves dos impactos climáticos. O documento internacional cita, entre outros desfechos, parto prematuro, baixo peso ao nascer e natimortalidade.

A discussão ganhou ainda mais relevância diante das negociações internacionais sobre clima e da necessidade de adaptar os sistemas de saúde a temperaturas mais elevadas.

Um alerta que começa antes do nascimento

O que os novos dados mostram é que o calor extremo precisa ser encarado como mais do que um desconforto durante os meses quentes. Para gestantes e recém-nascidos, temperaturas elevadas podem representar um fator adicional de risco em uma fase da vida que já exige acompanhamento cuidadoso.

No Brasil, a preocupação demonstrada por 89% dos profissionais entrevistados reforça a necessidade de ampliar a atenção ao tema.

As evidências disponíveis não permitem afirmar que toda exposição ao calor resultará em uma complicação gestacional. Elas, porém, apontam para associações consistentes entre temperaturas extremas e alguns desfechos adversos, especialmente parto prematuro, baixo peso ao nascer e natimortalidade.

O desafio agora é transformar esse conhecimento em prevenção: preparar profissionais, melhorar sistemas de alerta, adaptar serviços de saúde, proteger mulheres expostas ao calor e garantir que gestantes e crianças estejam entre as prioridades das políticas de adaptação climática.

Porque, à medida que os períodos de calor extremo se tornam mais frequentes, proteger uma gravidez também passa a significar proteger a mulher das condições ambientais em que ela vive, trabalha e espera o nascimento do filho.

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