Cientistas descobrem células que podem explicar por que a próstata aumenta com a idade

Encontradas em maior quantidade na região mais afetada pela hiperplasia prostática benigna, células específicas podem ajudar a esclarecer os mecanismos do crescimento da glândula e abrir caminho para novas pesquisas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O aumento da próstata é uma mudança comum no envelhecimento masculino, mas os mecanismos que fazem determinadas regiões da glândula crescerem ainda não são totalmente compreendidos. Agora, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, identificaram um grupo de células que pode ajudar a explicar esse processo.

Denominadas WIF1+, essas células aparecem em maior concentração na zona de transição da próstata, justamente a região mais frequentemente afetada pela hiperplasia prostática benigna (HPB). A condição provoca o crescimento não canceroso da glândula e pode comprometer a passagem da urina.

O estudo foi publicado em 10 de setembro na revista científica The Journal of Pathology. Os resultados oferecem novas pistas sobre as características celulares associadas ao aumento benigno da próstata, embora ainda não comprovem que as células identificadas sejam responsáveis pelo desenvolvimento da condição.

Por que a próstata aumenta com a idade?

A próstata é uma glândula do sistema reprodutor masculino localizada abaixo da bexiga e ao redor da parte inicial da uretra, canal responsável por transportar a urina para fora do organismo.

Com o avanço da idade, o órgão pode aumentar de volume devido a alterações na quantidade e no comportamento de suas células. Uma das causas mais comuns desse crescimento é a hiperplasia prostática benigna, que não é câncer e não significa, por si só, que o paciente desenvolverá um tumor maligno.

O problema é que a próstata envolve a uretra. Quando o tecido glandular cresce e comprime esse canal, a passagem da urina pode ficar prejudicada.

Entre os sintomas estão dificuldade para começar a urinar, jato urinário fraco, interrupções durante a micção, sensação de que a bexiga não esvaziou completamente e necessidade de urinar com maior frequência, inclusive durante a noite.

A intensidade dos sintomas varia de uma pessoa para outra. Além disso, nem todo homem com próstata aumentada apresenta manifestações importantes.

Um dos aspectos que intrigam os pesquisadores é a concentração do crescimento na chamada zona de transição, região situada ao redor da uretra. Entender por que essa área é especialmente suscetível pode contribuir para esclarecer como a hiperplasia se desenvolve.

O que os cientistas descobriram?

Para investigar as diferenças entre as regiões da próstata, a equipe analisou amostras de tecidos sem câncer retiradas de 10 homens submetidos a cirurgias para tratar tumores na glândula.

Os pesquisadores examinaram as três principais zonas anatômicas da próstata e avaliaram a atividade genética de quase 130 mil células individuais. Essa abordagem permite identificar diferentes populações celulares e observar quais genes estão ativos em cada grupo.

A análise revelou uma concentração maior de células WIF1+ na zona de transição.

Essas células pertencem ao grupo das células basais, que fazem parte da estrutura dos tecidos epiteliais e desempenham funções relacionadas à manutenção e à organização desses tecidos.

A equipe também comparou os resultados com dados de estudos anteriores. Essa avaliação indicou que as células WIF1+ são mais abundantes em tecidos que apresentam hiperplasia prostática benigna.

O conjunto das observações chamou a atenção dos cientistas porque relaciona uma população celular específica à região da próstata mais frequentemente envolvida no crescimento benigno.

Como essas células podem contribuir para o crescimento da próstata?

Além de identificar onde as células WIF1+ estão concentradas, os pesquisadores observaram características relacionadas à multiplicação celular, à resposta hormonal e à reorganização dos tecidos.

Esses processos são importantes para compreender o comportamento da próstata ao longo da vida.

A multiplicação celular, por exemplo, influencia a quantidade de células presentes em um tecido. Já a resposta aos hormônios pode afetar diferentes funções da glândula, enquanto a reorganização dos tecidos envolve mudanças na estrutura e na interação entre as células.

Os resultados levantam a hipótese de que as células WIF1+ participem do ambiente biológico que favorece o crescimento da zona de transição.

Outra possibilidade é que elas influenciem o comportamento das células vizinhas por meio de mecanismos de comunicação celular. Essa interação poderia contribuir para mudanças no tecido prostático associadas à hiperplasia.

Entretanto, os pesquisadores ainda precisam determinar se essas células efetivamente estimulam o crescimento da próstata ou se sua maior presença é uma consequência das alterações que acompanham a doença.

Essa distinção é fundamental: identificar uma associação entre células e uma condição não significa comprovar uma relação direta de causa e efeito.

A descoberta pode levar a novos tratamentos?

O estudo amplia o conhecimento sobre a diversidade celular da próstata e oferece um caminho para futuras investigações sobre a hiperplasia prostática benigna.

Se pesquisas posteriores confirmarem que as células WIF1+ participam ativamente do desenvolvimento da condição, os mecanismos envolvidos poderão ser investigados como possíveis alvos terapêuticos.

Isso poderia ajudar cientistas a compreender melhor quais processos celulares favorecem o crescimento da glândula e, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais direcionados.

Por enquanto, porém, não há evidências suficientes para afirmar que bloquear ou modificar essas células seria uma estratégia eficaz para tratar a próstata aumentada.

O próximo passo é investigar diretamente as funções desse grupo celular e esclarecer como ele interage com outras células e com os sinais hormonais presentes no tecido prostático.

Também será importante ampliar as investigações para determinar se os resultados se repetem em populações maiores e em diferentes estágios da hiperplasia.

Quando procurar avaliação médica?

A hiperplasia prostática benigna é frequente com o envelhecimento, mas alterações urinárias não devem ser consideradas uma consequência inevitável da idade.

Homens que apresentam dificuldade para urinar, jato fraco, aumento da frequência urinária ou despertares noturnos frequentes para ir ao banheiro devem procurar avaliação médica, especialmente quando os sintomas interferem na rotina.

Essas manifestações podem estar relacionadas à próstata aumentada, mas também podem ter outras causas. A avaliação clínica permite investigar a origem dos sintomas e determinar se há necessidade de tratamento.

A incapacidade súbita de urinar exige atendimento médico imediato.

Embora a descoberta das células WIF1+ ainda esteja em uma etapa inicial, ela contribui para uma questão importante da pesquisa urológica: compreender por que a próstata cresce em determinadas regiões e quais mecanismos celulares podem estar envolvidos nesse processo.

Ao investigar essas diferenças, os cientistas buscam construir uma base mais sólida para identificar os fatores que favorecem a hiperplasia e desenvolver, no futuro, novas abordagens para lidar com a condição.

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