Decisão de aproximadamente 4 mil profissionais do Brigham and Women’s Hospital prolonga impasse trabalhista em Massachusetts; divergências sobre reajustes salariais mantêm possibilidade de nova greve
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA
Enfermeiros do Brigham and Women’s Hospital, um dos principais hospitais de Boston, nos Estados Unidos, rejeitaram a proposta final de contrato apresentada pela administração da instituição. O resultado da votação, divulgado na sexta-feira (23), prolonga uma disputa trabalhista que se arrasta há meses e mantém aberta a possibilidade de uma nova greve.
Representados pela Associação de Enfermeiros de Massachusetts (Massachusetts Nurses Association — MNA), os profissionais decidiram não aprovar o acordo após dois dias de votação. O sindicato informou que a maioria dos participantes votou contra a proposta, mas não divulgou o número exato de votos favoráveis e contrários.
Com a rejeição, a comissão de negociação dos enfermeiros pretende solicitar à administração do Mass General Brigham, sistema de saúde ao qual o hospital pertence, a retomada das conversas nos próximos dias. O objetivo é buscar um acordo que atenda às reivindicações dos trabalhadores sem comprometer a segurança dos pacientes e o funcionamento dos serviços hospitalares.
Reajustes salariais estão entre os principais pontos de divergência
A remuneração foi um dos principais obstáculos para a aprovação do contrato. Os enfermeiros reivindicam aumentos salariais gerais que ajudem a compensar a inflação e o elevado custo de vida na região de Boston.
A proposta apresentada pelo hospital previa dois reajustes de 2,5% para os profissionais que já se encontram no nível mais alto da tabela salarial: um após a aprovação do contrato e outro em setembro de 2027. O acordo teria validade até setembro de 2028.
A oferta também previa aumentos básicos para os profissionais abrangidos pelas diferentes faixas salariais e mudanças relacionadas aos benefícios. Entretanto, não incluía o reajuste geral adicional reivindicado pelo sindicato.
Atualmente, os enfermeiros do Brigham recebem aumentos de aproximadamente 5% a cada aniversário de contratação durante os primeiros 20 anos de serviço, conforme a estrutura salarial da instituição. Depois de atingirem o nível máximo, os profissionais deixam de receber esses aumentos progressivos por tempo de serviço.
Segundo informações divulgadas pelo sistema hospitalar, os salários iniciais dos enfermeiros são de aproximadamente US$ 86,7 mil por ano, enquanto profissionais com duas décadas de experiência podem receber US$ 220 mil anuais ou mais.
Apesar desses valores, o sindicato argumenta que os aumentos previstos na proposta não atendem às necessidades dos trabalhadores, especialmente diante do custo de vida e da ausência de reajustes gerais adicionais.
Sindicato cobra retomada das negociações
Após a divulgação do resultado, representantes dos enfermeiros defenderam que a administração volte à mesa de negociação para construir uma proposta que contemple as reivindicações da categoria.
Kelly Morgan, enfermeira e presidente da comissão de negociação do sindicato no hospital, afirmou que a votação demonstra a disposição dos profissionais de continuar lutando por segurança dos pacientes e reconhecimento profissional.
O sindicato também criticou a postura da administração durante as negociações e defendeu condições contratuais que valorizem a experiência dos enfermeiros e o trabalho realizado no atendimento de pacientes com necessidades médicas complexas.
A direção do hospital, por sua vez, manifestou decepção com a rejeição. Em comunicado, afirmou que a proposta buscava investir nos profissionais, oferecer remuneração e benefícios competitivos e preservar a sustentabilidade financeira da instituição.
A administração também declarou que sua prioridade continua sendo garantir atendimento seguro e de qualidade e que o hospital está preparado para manter os serviços funcionando diante de eventuais medidas futuras do sindicato.
Disputa já provocou paralisação neste ano
O conflito trabalhista ganhou força ao longo de 2026. Em julho, aproximadamente 4 mil enfermeiros participaram de uma greve de um dia. Depois da paralisação, o hospital impediu temporariamente o retorno dos profissionais por mais quatro dias, alegando obrigações contratuais relacionadas aos trabalhadores temporários contratados para manter os atendimentos.
Em setembro, os enfermeiros também autorizaram uma possível greve por tempo indeterminado. Segundo o sindicato, 2.986 profissionais votaram a favor da autorização, enquanto 215 votaram contra.
Uma nova paralisação chegou a ser programada para 14 de outubro, mas foi suspensa após a apresentação da proposta final do hospital. A suspensão permitiu que os cerca de 4 mil enfermeiros avaliassem os termos do acordo antes de decidir sobre os próximos passos.
A rejeição da proposta, porém, reabriu a possibilidade de uma greve. A autorização sindical continua válida, mas uma nova paralisação exigiria aviso prévio de pelo menos dez dias ao hospital. Até a divulgação das informações mais recentes, não havia sido anunciada uma nova data para o início de uma greve.
Pacientes acompanham os desdobramentos
O impasse preocupa também pacientes que dependem dos serviços do Brigham and Women’s Hospital, uma das principais instituições médicas da região metropolitana de Boston.
Uma paralisação prolongada poderia exigir medidas extraordinárias para manter consultas, cirurgias e outros atendimentos. Durante a preparação para a greve prevista para outubro, a instituição havia se organizado para recorrer a profissionais temporários, mas suspendeu esses preparativos após o adiamento da paralisação.
Por enquanto, não há confirmação de uma nova greve nem de interrupção dos atendimentos em decorrência da votação. O próximo passo dependerá da retomada das negociações e da capacidade das partes de chegar a um entendimento sobre salários, benefícios e condições de trabalho.
A rejeição do contrato evidencia a distância entre as exigências dos enfermeiros e a proposta apresentada pela administração. Enquanto o sindicato busca novas conversas, o hospital afirma que pretende preservar a qualidade dos serviços e a continuidade da assistência aos pacientes.
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