Surto já provocou centenas de mortes e ameaça agravar a crise humanitária no leste da República Democrática do Congo; crianças representam mais de 25% das mortes confirmadas e ONU busca arrecadar US$ 70,7 milhões para conter a doença
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A República Democrática do Congo (RD Congo) enfrenta uma das mais graves emergências sanitárias dos últimos anos. O surto de ebola ultrapassou a marca de mil casos confirmados, desencadeando um alerta internacional diante do risco iminente para cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes que vivem nas áreas afetadas. A informação foi divulgada nesta terça-feira (23) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que também fez um apelo urgente por recursos financeiros para evitar o agravamento da tragédia humanitária.
Segundo dados atualizados das autoridades congolesas e da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país já contabiliza 1.048 casos confirmados de ebola e 267 mortes, tornando este um dos maiores surtos da doença na história recente do continente africano.
As crianças estão entre as principais vítimas da epidemia. O UNICEF alerta que menores de 18 anos representam cerca de 15% dos casos confirmados, mas respondem por mais de 25% das mortes registradas, evidenciando a maior vulnerabilidade desse grupo diante da doença. Estudos indicam que crianças infectadas têm quase o dobro de probabilidade de morrer em comparação aos adultos.
A situação é especialmente preocupante na província de Ituri, considerada o epicentro do surto. Antes mesmo da chegada do ebola, a região já enfrentava uma combinação de fatores que fragilizavam a saúde infantil. Mais da metade das crianças menores de cinco anos sofre de desnutrição crônica e as taxas de vacinação de rotina permanecem abaixo do recomendado pelas autoridades sanitárias.
Especialistas alertam que a desnutrição reduz significativamente a capacidade de resposta imunológica, aumentando o risco de complicações e mortes. Além disso, os sintomas iniciais do ebola, febre, dor de cabeça, fraqueza e dores musculares, são semelhantes aos de doenças comuns na região, como a malária, dificultando o diagnóstico precoce e atrasando o tratamento.
Crianças órfãs e trauma psicológico
O impacto da epidemia vai além das infecções. O UNICEF informou que pelo menos 135 crianças que perderam os pais em decorrência da doença já estão recebendo apoio psicossocial e encaminhamento para serviços de proteção social.
A diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell, destacou que milhares de crianças enfrentam um cenário de perdas, medo e desinformação.
“Além do risco de contrair o vírus, as crianças estão lidando com o trauma de perder familiares e com a disseminação de rumores e informações falsas, que dificultam ainda mais a resposta humanitária”, afirmou Russell.
Crise ultrapassa fronteiras
O surto já apresenta sinais de expansão regional. Em Uganda, país vizinho à RD Congo, foram confirmados 20 casos e duas mortes relacionadas ao ebola. Entre os infectados está uma criança, enquanto outras 19 pessoas permanecem em quarentena sob monitoramento das autoridades sanitárias.
A OMS classifica o risco de propagação regional como alto, especialmente devido à intensa circulação de pessoas nas áreas de fronteira entre os dois países.
As autoridades de saúde também enfrentam enormes desafios para rastrear os contatos dos infectados. Em algumas regiões afetadas por conflitos armados e deslocamentos populacionais, menos de 60% das pessoas expostas ao vírus estão sendo monitoradas adequadamente, aumentando o risco de transmissão comunitária.
Corrida contra o tempo
Em resposta à emergência, o UNICEF atua em conjunto com os governos da República Democrática do Congo e de Uganda, sob coordenação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC).
As ações prioritárias incluem:
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Controle e prevenção de infecções;
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Rastreamento de contatos;
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Sepultamentos seguros e dignos;
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Fortalecimento da vigilância epidemiológica;
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Ampliação dos serviços de saúde, nutrição e saneamento;
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Garantia de acesso à educação e apoio psicossocial às crianças afetadas.
Para manter as operações humanitárias pelos próximos seis meses, o UNICEF estima a necessidade de US$ 70,7 milhões, dos quais cerca de US$ 20 milhões ainda não foram financiados.
A agência das Nações Unidas fez um apelo à comunidade internacional para que governos, organizações e doadores privados ampliem o apoio financeiro e garantam acesso humanitário seguro às comunidades isoladas.
Especialistas alertam que, sem uma resposta global rápida e coordenada, o surto poderá continuar avançando em uma região já marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e sistemas de saúde fragilizados, colocando milhões de crianças em situação de risco extremo.
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