Governo federal anuncia R$ 60 milhões para estudos sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual, em tentativa de enfrentar uma condição que leva até sete anos para ser diagnosticada no Brasil
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Apesar de atingir cerca de oito milhões de brasileiras, a endometriose continua sendo uma das doenças mais negligenciadas da saúde feminina no país. Marcada por dores intensas, dificuldades para engravidar e impactos profundos na qualidade de vida, a doença ainda é subdiagnosticada e subtratada, levando, em média, sete anos para receber um diagnóstico definitivo.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou, no último dia 9 de junho, um investimento de R$ 60 milhões em pesquisas científicas e no desenvolvimento de tecnologias voltadas à endometriose, à dor pélvica e à saúde menstrual. O anúncio foi feito na sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em Brasília, e representa o maior aporte financeiro já destinado à área no Brasil.
Do total anunciado, R$ 50 milhões serão destinados, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ao financiamento de projetos selecionados por chamada pública. Outros R$ 10 milhões serão investidos pelo Instituto Alana para a criação de uma rede nacional estruturante de pesquisa em saúde menstrual e endometriose.
Doença invisível para milhões de mulheres
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste internamente o útero — cresce fora da cavidade uterina, atingindo órgãos como ovários, trompas, intestino, bexiga e região pélvica.
Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode provocar dores incapacitantes, cólicas menstruais intensas, alterações intestinais e urinárias, dor durante as relações sexuais e infertilidade. Embora seja considerada uma doença benigna, seus impactos físicos, emocionais e sociais são significativos.
O ginecologista Afrânio Coelho, chefe da Ginecologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), explica que a condição é extremamente heterogênea.
“Trata-se de um tecido uterino que surge em outras partes do corpo, podendo atingir ovários, trompas, pélvis, intestino e até o apêndice. O principal sintoma é a dor pélvica intensa, que geralmente piora durante o período menstrual”, afirma o especialista.
As causas exatas da endometriose ainda não são totalmente conhecidas. Estudos apontam que fatores genéticos, hormonais, imunológicos e inflamatórios podem contribuir para o desenvolvimento da doença, que acomete principalmente mulheres em idade reprodutiva.
Dor menstrual ainda é tratada como algo normal
Especialistas alertam que um dos maiores desafios no combate à endometriose é a naturalização das dores menstruais intensas. Muitas meninas e mulheres convivem durante anos com sintomas incapacitantes sem receber acolhimento ou investigação adequada.
Dados inéditos divulgados pelo Instituto Alana e pelo Instituto Equidade.info mostram que seis em cada dez estudantes do ensino fundamental e médio no Brasil sofrem com dores menstruais moderadas ou fortes. Além disso, quatro em cada dez faltam às aulas mensalmente devido às cólicas.
Mesmo diante desses números, as dores menstruais e pélvicas permanecem praticamente invisíveis nos registros oficiais de saúde.
Uma pesquisa realizada com dados de aproximadamente 469 mil meninas e mulheres do Recife, em Pernambuco, revelou que apenas 0,5% delas possuíam registros formais de dores menstruais ou pélvicas em seus prontuários. Após análise detalhada dos documentos médicos, os pesquisadores identificaram mais de 41 mil casos relacionados aos sintomas, o equivalente a 9% da base analisada.
Segundo Flavia Doria, CEO do Instituto Alana, a banalização da dor feminina contribui diretamente para o atraso no diagnóstico.
“Há muito tempo, a dor menstrual é tratada como algo normal, o que contribui para invisibilizar doenças como a endometriose e retardar o acesso ao diagnóstico e ao cuidado. Quando a ciência olha para esse tema, ela também ajuda a reconhecer experiências que impactam a escola, o trabalho, a saúde mental e o desenvolvimento pleno de milhões de meninas e mulheres”, afirmou.
Investimento é considerado um marco para a saúde feminina
Durante o anúncio do investimento, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que a endometriose constitui um grave problema de saúde pública.
“Esse é um tema muito importante, que afeta pelo menos oito milhões de mulheres no nosso país, especialmente adolescentes. É fundamental que ele tenha sido contemplado em um edital específico com esse volume de recursos”, declarou.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou que o investimento reforça o compromisso do governo com a ciência como instrumento de inclusão e promoção da qualidade de vida das mulheres.
“Quando uma menina falta à escola por causa da dor ou uma mulher leva anos para receber um diagnóstico, estamos diante de um problema de saúde pública que exige uma resposta do Estado”, disse.
Novo olhar para uma antiga realidade
Especialistas consideram que o investimento de R$ 60 milhões representa um marco histórico para a saúde feminina no Brasil, mas alertam que o combate à endometriose exige ações integradas, incluindo capacitação de profissionais, ampliação do acesso a exames especializados, campanhas de conscientização e políticas públicas permanentes.
Embora a ciência ainda busque compreender completamente as causas da doença, uma mensagem já é consenso entre médicos e pesquisadores: cólicas incapacitantes e dores pélvicas persistentes não devem ser consideradas normais.
Para milhões de brasileiras, reconhecer a dor e garantir diagnóstico precoce pode significar não apenas melhor qualidade de vida, mas também o fim de anos de sofrimento silencioso.
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