“Eu nasci de novo”: sobrevivente de acidente que matou brasileiro em Massachusetts relembra momentos de desespero e faz apelo emocionante

Em entrevista ao repórter investigativo Thathyanno Desa, Clayton Policena relata como conseguiu escapar da morte, relembra os últimos momentos ao lado do amigo Vilmar Dorner e pede respeito diante das especulações sobre a tragédia
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

O sobrevivente do acidente de barco que terminou com a morte do brasileiro Vilmar Dorner, no rio Merrimack, em Massachusetts, compartilhou um relato emocionante sobre a noite da tragédia. Em entrevista ao repórter investigativo Thathyanno Desa, Clayton Policena descreveu os últimos momentos ao lado do amigo, contou como conseguiu escapar da morte e fez um apelo para que as pessoas parem de espalhar informações falsas sobre o caso.

Segundo Clayton, o grupo chegou ao acampamento por volta das 17h para aproveitar o feriado prolongado com as famílias.

“Nós estávamos no acampamento, chegamos por volta de 17h e fomos ajeitar nossas coisas, montar as barracas. Já tinham dois amigos nossos lá. Estávamos todos muito contentes e felizes porque íamos passar o feriado prolongado com nossas famílias, fazer o que a gente gosta, que é pescar.”

Enquanto organizavam o acampamento, Vilmar, a esposa e a filha preparavam uma salada, enquanto outro amigo assava a carne. Mais tarde, por volta das 22h, o grupo decidiu sair para pescar após receber a informação de que os peixes já estavam aparecendo na região.

Ao chegarem ao porto, encontraram outros pescadores retornando da água. Vilmar conversou com um deles para saber onde os peixes estavam sendo encontrados e recebeu a informação de que o melhor ponto ficava próximo à chamada “pedreira”, logo na saída do canal.

Depois que a embarcação foi colocada na água, Edico Ramos de Silveira assumiu o comando do barco, enquanto Vilmar permanecia ao seu lado. Clayton contou que, pouco antes da colisão, os dois conversavam sobre as sinalizações náuticas.

“Ele já era pescador antigo, tinha conhecimento de mar e de água. Era uma pessoa muito experiente e gostava de ensinar os outros.”

Entre brincadeiras e conversas, Clayton se levantou para ouvir as explicações do amigo. Foi então que tudo aconteceu em questão de segundos.

“Na hora que eu virei para a frente do barco, eu só vi aquele paredão de pedra. Eu gritei: ‘Pedra!’. Quando eu gritei, a gente já bateu.”

Na colisão, Clayton acredita que bateu contra a estrutura da embarcação antes de ser lançado na água.

“Eu fiquei enroscado no barco pelo meu short. Fiquei preso nos ganchos usados para amarrar corda. Estava me afogando.”

Ferido na cabeça e na perna, ele disse que acreditou que não conseguiria sobreviver.

“Eu pensei: ‘Meu Deus, eu vou morrer aqui’.”

Foi nesse instante que, segundo ele, viveu a experiência que jamais esquecerá.

“Eu escutei uma voz na minha cabeça, tão serena, tão bonita, me pedindo para ter calma. Eu já tinha bebido água e não tinha como escapar. Quando ouvi essa voz, coloquei as mãos na cintura, senti o laço do meu short, puxei as duas pontas e consegui me soltar.”

Depois de conseguir se libertar, Clayton emergiu e voltou para a embarcação. Ao olhar ao redor, viu Edico sobre uma pedra, mas não encontrou Vilmar.

“Eu peguei meu celular, acendi a lanterna e comecei a gritar pelo nome dele. Chamava pelo apelido dele, ‘Alemão’, mas ele não respondia.”

Poucos instantes depois, moradores que estavam próximos correram para ajudar. Segundo Clayton, em cerca de dois minutos após o acidente, os primeiros pedidos de socorro já haviam sido feitos. Logo chegaram policiais, bombeiros, embarcações de resgate, a Guarda Costeira, helicópteros, drones, mergulhadores e diversas equipes que iniciaram as buscas.

Mesmo ferido, Clayton resistia em deixar o local.

“Eles perguntaram quantas pessoas estavam no barco. Eu falei que éramos três e expliquei que meu amigo tinha desaparecido. Eles queriam me colocar no barco deles, mas eu dizia que primeiro queria encontrar o meu amigo. Eles responderam que iam procurá-lo, mas que precisavam cuidar de mim.”

O brasileiro foi levado ao hospital, onde recebeu pontos nos ferimentos e passou por exames. Ele recebeu alta na manhã seguinte e retornou ao acampamento, enquanto as buscas por Vilmar continuavam.

Ao recordar o amigo, Clayton não conseguiu esconder a emoção.

“Eu e minha família perdemos uma pessoa incrível. Quem conheceu o Vilmar sabe que ele era uma pessoa extraordinária. Vai fazer muita falta para os amigos e para a família.”

Em meio à dor pela perda, ele afirma sentir gratidão por ter sobrevivido.

“Eu nasci de novo. É uma data que eu jamais vou esquecer.”

Clayton também pediu orações pela família de Vilmar, destacando que o amigo era o principal provedor da casa.

“Peço que todos façam uma oração pela família, para Deus dar forças e acalmar o coração deles. Estamos vendo como podemos ajudá-los, tanto financeiramente quanto espiritualmente. Qualquer ajuda será muito bem-vinda.”

Durante a entrevista, ele ainda lamentou os comentários feitos nas redes sociais e negou boatos que surgiram após o acidente.

“Vi pessoas falando coisas que não sabem, julgando, dizendo que não tínhamos licença ou que estávamos bêbados. Nada disso é verdade. Eu já dei quatro depoimentos e tudo foi esclarecido. Foi uma fatalidade. Ninguém sai de casa pensando em fazer mal para alguém. Somos pessoas de bem, temos família. Peço que as pessoas tenham cuidado antes de julgar.”

Ao encerrar o relato, Clayton fez um agradecimento emocionado à esposa e às filhas, que, segundo ele, foram fundamentais para enfrentar os dias mais difíceis após a tragédia.

“Eu agradeço pela esposa que tenho ao meu lado. Eu não suportaria tudo isso se estivesse sozinho. A força que ela me dá e as palavras de consolo significam muito para mim. Amo ela demais. Minha família é o meu maior tesouro. Também agradeço às minhas filhas por todo o carinho que têm comigo.”

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