Facção reúne entre 30 mil e 40 mil integrantes e mantém presença na América do Sul, Europa e África
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
O Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa criada na década de 1990 dentro do sistema prisional de São Paulo, aparece no topo de um ranking que reúne as organizações criminosas com maior presença e capacidade de ameaça nas Américas. O levantamento foi elaborado pelo Instituto Igarapé e analisou grupos que atuam no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, extorsão e outros mercados ilícitos.
O estudo, intitulado “From Narco Cartels to Criminal Networks: The Structural Transformation of Organized Crime in Latin America and the Caribbean” (“De Cartéis de Narcotráfico a Redes Criminosas: A Transformação Estrutural do Crime Organizado na América Latina e no Caribe”), destaca que o PCC passou a ocupar uma posição de destaque pelo alcance territorial, estrutura organizacional e capacidade de manter operações mesmo após prisões ou mortes de lideranças.
Segundo os pesquisadores, a facção brasileira possui uma estimativa entre 30 mil e 40 mil integrantes e tem presença documentada em países da América do Sul, além de conexões internacionais na Europa e na África.
Facção brasileira supera grupos tradicionais do crime organizado
O ranking aponta que o PCC superou organizações conhecidas mundialmente, como o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e cartéis mexicanos como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
Apesar disso, os responsáveis pelo levantamento ressaltam que a lista não representa uma classificação definitiva das organizações criminosas, mas uma análise comparativa baseada no nível de ameaça apresentado por cada grupo.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores avaliaram critérios como número estimado de integrantes, presença territorial, fontes de financiamento, capacidade de coordenação criminosa e resistência diante das ações das forças de segurança.
“O ranking deve ser compreendido como uma avaliação comparativa de ameaças, e não como uma tabela de classificação precisa”, afirmou Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé e coordenador do estudo.
Modelo de atuação dificulta combate ao grupo
De acordo com o especialista, um dos principais diferenciais do PCC é a capacidade de atuar em diferentes mercados criminosos ao mesmo tempo, mantendo uma estrutura descentralizada.
Segundo Muggah, essa característica reduz a dependência da organização em relação a uma única liderança e torna mais difícil a interrupção das atividades.
“O PCC se destaca por sua escala e capacidade de operar simultaneamente em diversos setores da economia criminosa. Essa combinação torna seu desmantelamento particularmente difícil”, explicou o pesquisador.
Além do tráfico internacional de cocaína, o estudo aponta que a facção expandiu sua atuação para atividades como mineração ilegal, extorsão, lavagem de dinheiro e possíveis infiltrações em setores econômicos formais.
Investigações recentes também indicam que integrantes do grupo teriam utilizado empresas legais para movimentar recursos obtidos por meio de atividades criminosas.
Comando Vermelho aparece na segunda posição
Na segunda colocação do levantamento aparece o Comando Vermelho (CV), facção originada no Rio de Janeiro. O grupo teria entre 20 mil e 30 mil integrantes, segundo estimativa apresentada no estudo.
A lista também inclui organizações como Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), Mara Salvatrucha (MS-13), Barrio 18, Los Choneros, Cartel de Sinaloa, Clan del Golfo e Tren de Aragua.
O levantamento aponta que o crime organizado na América Latina passou por uma transformação nos últimos anos. As facções deixaram de depender exclusivamente do tráfico de drogas e passaram a diversificar suas fontes de renda, ampliando sua atuação para diferentes países.
Facções utilizam rotas internacionais e portos estratégicos
O estudo destaca que redes criminosas latino-americanas mantêm conexões com importantes portos europeus, incluindo Roterdã, Hamburgo, Le Havre e Valência, utilizados como pontos estratégicos para o envio de cocaína para diferentes regiões do mundo.
A expansão internacional das organizações criminosas aumentou a preocupação de autoridades de segurança de diversos países, que passaram a tratar essas facções como ameaças transnacionais.
EUA classificam PCC e CV como organizações terroristas
No mês passado, o governo dos Estados Unidos classificou o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT).
Segundo o Departamento de Estado americano, as duas facções representam uma ameaça criminosa que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Após o anúncio, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos também aplicou sanções contra pessoas e empresas relacionadas às organizações criminosas e afirmou que o PCC é uma das maiores estruturas criminosas transnacionais do Hemisfério Ocidental.
O avanço das facções brasileiras no cenário internacional reforça o desafio das autoridades de segurança pública no combate ao crime organizado, especialmente diante da capacidade desses grupos de expandir negócios ilegais, criar redes internacionais e utilizar estruturas financeiras para ocultar seus lucros.
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