Picada de carrapato pode provocar alergia permanente à carne vermelha, aponta estudo

Nova pesquisa indica que quase um em cada quatro adultos em áreas com alta presença do carrapato-estrela-solitária apresenta anticorpos relacionados à síndrome alfa-gal, condição que pode provocar reações alérgicas graves horas após o consumo de carne vermelha
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma nova pesquisa divulgada essa semana pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) acendeu um alerta para uma doença ainda pouco conhecida, mas considerada cada vez mais preocupante pelas autoridades de saúde. O estudo indica que o número de pessoas expostas ao agente causador da síndrome alfa-gal, uma alergia desencadeada por picadas de carrapatos e associada ao consumo de carne vermelha, pode ser muito maior do que as estimativas anteriores.

Os pesquisadores descobriram que quase 24% dos adultos que vivem em estados com grande incidência do carrapato-estrela-solitária apresentam anticorpos contra a molécula alfa-gal, um indicativo de que já foram expostos ao agente transmitido pelo parasita. O resultado não significa que todos desenvolverão a doença, mas reforça a necessidade de ampliar a vigilância e os estudos sobre essa condição.

O que é a síndrome alfa-gal?

A síndrome alfa-gal (AGS, na sigla em inglês) é uma reação alérgica desencadeada após a picada de determinados carrapatos. O principal transmissor nos Estados Unidos é o carrapato-estrela-solitária (Amblyomma americanum).

Antes de picar seres humanos, esse carrapato costuma se alimentar de mamíferos como:

  • vacas;

  • cervos;

  • cabras;

  • porcos.

Esses animais possuem em seus tecidos uma molécula de açúcar conhecida como alfa-gal (galactose-α-1,3-galactose). Quando o carrapato pica uma pessoa após ter se alimentado desses mamíferos, pode transferir essa molécula para o organismo humano.

Em algumas pessoas, o sistema imunológico passa a reconhecer a alfa-gal como uma ameaça, produzindo anticorpos que desencadeiam uma reação alérgica sempre que a pessoa consome carne vermelha ou produtos derivados de mamíferos.

Estudo analisou milhares de doadores de sangue

A pesquisa analisou aproximadamente 3 mil amostras de sangue coletadas entre novembro de 2024 e abril de 2025 em dez estados norte-americanos.

Os resultados mostraram uma diferença significativa entre regiões com maior e menor presença do carrapato.

Nos estados onde o carrapato-estrela-solitária é mais comum — Arkansas, Kentucky, Missouri, Tennessee e Virgínia — cerca de 24% dos participantes apresentaram anticorpos contra a alfa-gal, indicando exposição prévia.

Segundo a principal autora do estudo, a infectologista Dra. Eleanor Saunders, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, a presença desses anticorpos não significa automaticamente que a pessoa tenha desenvolvido a síndrome alfa-gal.

O achado apenas demonstra que houve contato com a molécula transmitida pelo carrapato e que são necessários novos estudos para entender quantas dessas pessoas poderão desenvolver a doença futuramente.

O que mais preocupa os especialistas

O estudo reforça que a síndrome alfa-gal pode estar sendo subdiagnosticada nos Estados Unidos.

O CDC estimava anteriormente que aproximadamente 450 mil pessoas poderiam conviver com a doença, mas admite que esse número pode estar abaixo da realidade.

Isso ocorre porque:

  • poucos estados exigem notificação obrigatória dos casos;

  • a síndrome ainda não integra o sistema nacional de doenças de notificação obrigatória dos Estados Unidos;

  • muitos pacientes demoram anos para receber o diagnóstico correto.

Para especialistas, a ausência de dados oficiais dificulta o planejamento de políticas públicas e impede uma estimativa precisa da dimensão do problema.

Sintomas podem aparecer horas depois da refeição

Diferentemente de outras alergias alimentares, como a alergia ao amendoim, a síndrome alfa-gal costuma provocar sintomas entre duas e seis horas após o consumo da carne, o que dificulta identificar a verdadeira causa da reação.

Segundo o CDC, os principais sintomas incluem:

  • urticária e coceira intensa;

  • náuseas;

  • vômitos;

  • diarreia;

  • fortes dores abdominais;

  • azia e indigestão;

  • tosse;

  • falta de ar;

  • dificuldade para respirar;

  • tontura;

  • queda da pressão arterial;

  • inchaço dos lábios, língua, garganta ou pálpebras.

Nos casos mais graves, a pessoa pode desenvolver anafilaxia, uma reação alérgica potencialmente fatal que exige atendimento médico imediato.

A doença pode durar a vida inteira

Atualmente, não existe cura para a síndrome alfa-gal.

O tratamento consiste principalmente em evitar alimentos que contenham carne de mamíferos ou derivados, como:

  • carne bovina;

  • carne suína;

  • cordeiro;

  • gelatina;

  • alguns medicamentos produzidos com ingredientes de origem animal.

Em muitos pacientes, a restrição alimentar passa a ser permanente, embora alguns estudos indiquem que pessoas que conseguem evitar novas picadas de carrapatos podem apresentar redução gradual da sensibilidade ao longo dos anos.

Casos podem aumentar nos próximos anos

Pesquisadores alertam que a expansão geográfica dos carrapatos pode fazer com que a síndrome alfa-gal seja diagnosticada em regiões onde antes era considerada rara.

Segundo o alergista e imunologista Dr. Scott Commins, também autor do estudo, já há aumento de casos em áreas como Oklahoma e na região dos Grandes Lagos.

Os cientistas associam essa expansão principalmente a:

  • invernos mais amenos;

  • alterações climáticas;

  • deslocamento das populações de cervos para novas regiões;

  • expansão do habitat dos carrapatos.

Além do carrapato-estrela-solitária, outras espécies também podem estar relacionadas à transmissão da molécula alfa-gal, incluindo o carrapato-de-pernas-pretas, o carrapato conhecido como “pimenta-caiena” e o carrapato asiático-de-chifres-longos.

Como reduzir o risco de picadas

Especialistas recomendam algumas medidas simples para diminuir a exposição aos carrapatos:

  • usar roupas compridas ao caminhar em áreas de mata ou vegetação alta;

  • aplicar repelentes recomendados contra carrapatos;

  • examinar cuidadosamente o corpo após atividades ao ar livre;

  • retirar carrapatos imediatamente com uma pinça adequada;

  • manter gramados e jardins limpos para reduzir a presença desses parasitas.

Embora nem toda picada resulte na síndrome alfa-gal, os pesquisadores destacam que a prevenção continua sendo a melhor estratégia, especialmente em regiões onde esses carrapatos são abundantes.

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