Dez minutos de exercício por dia podem evitar casos de demência, aponta estudo

Pesquisa brasileira estima que uma pequena mudança na rotina de pessoas fisicamente inativas poderia reduzir a incidência da doença e gerar economia de até R$ 16,2 bilhões até 2050
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma mudança de apenas dez minutos na rotina diária pode ter impacto expressivo sobre a saúde cerebral e os gastos relacionados à demência no Brasil, segundo uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros e norte-americanos. O estudo estima que, entre adultos que atualmente não praticam nenhuma atividade física, acrescentar dez minutos diários de exercício de intensidade vigorosa poderia evitar aproximadamente 420 mil casos de demência até 2050 e representar uma economia de R$ 16,2 bilhões. Os números são resultado de uma modelagem baseada em dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, informações sobre custos da demência e projeções do Global Burden of Disease. A pesquisa não demonstra que dez minutos, isoladamente, previnam a doença, mas indica que mesmo pequenas mudanças no nível de atividade física podem produzir efeitos relevantes em escala populacional.

Uma caminhada mais rápida, alguns minutos de bicicleta, uma corrida curta ou outra atividade que eleve significativamente a frequência cardíaca pode representar muito mais do que uma oportunidade de movimentar o corpo. Para a saúde pública, pequenos aumentos na prática de atividade física podem ter potencial para reduzir a carga futura de doenças e os custos associados ao envelhecimento da população.

É essa relação que pesquisadores investigaram em um estudo publicado no Brazilian Journal of Psychiatry. O trabalho, intitulado A small step, giant savings: the impact of physical activity on dementia cases and economic costs in Brazil, foi elaborado por Natan Feter, David Raichlen, Jayne Feter, Eduardo Caputo, Daniel Umpierre e Airton Rombaldi.

A pesquisa analisou o impacto potencial da atividade física sobre o número de casos de demência e sobre os custos econômicos da doença no Brasil até 2050.

O resultado chama atenção: para pessoas que atualmente relatam zero minutos de atividade física, um acréscimo de apenas dez minutos por dia poderia, segundo o modelo, evitar centenas de milhares de casos ao longo das próximas décadas.

O que os pesquisadores descobriram

Os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 para estimar os níveis de atividade física dos adultos brasileiros. Em seguida, combinaram essas informações com dados sobre prevalência e custos relacionados à demência e projeções do Global Burden of Disease.

O estudo estimou que 14,9% dos casos de demência no Brasil são atribuíveis à inatividade física.

Considerando o período entre 2019 e 2050, o modelo calculou que aproximadamente 569,5 mil casos poderiam ser evitados se a inatividade física fosse eliminada.

Nesse cenário, a economia potencial chegaria a aproximadamente R$ 23,1 bilhões, sendo R$ 20,2 bilhões relacionados diretamente aos custos de assistência à saúde.

Mas os pesquisadores foram além.

Eles criaram cenários hipotéticos para avaliar o que aconteceria caso adultos que não praticavam nenhuma atividade física passassem a se exercitar por pequenos períodos.

Dez minutos fazem diferença

Entre os adultos que declararam não praticar atividade física, o modelo estimou dois cenários.

Quando os participantes hipotéticos acrescentavam 10 minutos diários de atividade física moderada, poderiam ser evitados cerca de 219 mil casos de demência até 2050, com uma economia estimada de R$ 8,5 bilhões.

No cenário de 10 minutos diários de atividade vigorosa, a estimativa foi ainda maior: aproximadamente 420.180 casos de demência evitados e R$ 16,2 bilhões em economia até 2050.

É importante, porém, interpretar esses números corretamente.

Eles não significam que uma pessoa que caminhar ou correr por dez minutos diariamente terá sua chance individual de desenvolver demência reduzida exatamente em determinada porcentagem.

O estudo é uma análise de modelagem populacional. Os pesquisadores utilizaram associações conhecidas entre atividade física e risco de demência para projetar o que poderia ocorrer em diferentes cenários de comportamento.

Por isso, os resultados representam uma estimativa do possível impacto em toda a população.

Por que a atividade física está relacionada ao cérebro?

A relação entre atividade física e saúde cerebral não é uma hipótese isolada dessa pesquisa.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a atividade física como uma das estratégias relacionadas à redução do risco de declínio cognitivo e demência. As diretrizes atualizadas pela organização em 2026 reforçam a importância de comportamentos saudáveis e do controle de fatores de risco ao longo da vida.

A atividade física também ajuda a controlar fatores que estão associados ao risco de problemas cardiovasculares e metabólicos, como hipertensão, diabetes e excesso de peso.

Essas condições podem afetar a saúde dos vasos sanguíneos e, consequentemente, o funcionamento cerebral.

Além disso, estudos observacionais de longo prazo associam níveis maiores de atividade física a menor risco de declínio cognitivo e diferentes formas de demência. A própria revisão de evidências utilizada pela OMS aponta possíveis efeitos da atividade física sobre estruturas cerebrais e sobre fatores cardiovasculares que influenciam a saúde do cérebro.

Demência é mais do que perda de memória

A demência não é uma doença única. O termo engloba diferentes condições que comprometem progressivamente funções cognitivas e podem interferir na capacidade de uma pessoa realizar atividades cotidianas.

A doença de Alzheimer é a forma mais comum.

Segundo a OMS, mais de 57 milhões de pessoas vivem atualmente com demência no mundo e quase 10 milhões de novos casos são registrados a cada ano. A organização estima que a doença de Alzheimer represente entre 60% e 70% dos casos.

Os sintomas podem envolver problemas de memória, linguagem, raciocínio, orientação, comportamento e capacidade funcional.

Embora a idade seja o principal fator de risco conhecido, a OMS destaca que parte do risco está relacionada a fatores potencialmente modificáveis.

Entre eles estão a inatividade física, tabagismo, consumo prejudicial de álcool, isolamento social, poluição do ar, hipertensão, diabetes, colesterol elevado e outros fatores de saúde.

O Brasil pode enfrentar uma forte expansão dos casos

A importância do estudo também está relacionada às projeções de envelhecimento da população brasileira.

O modelo utilizado pelos pesquisadores estima que o número total de casos de demência no país poderá chegar a aproximadamente 5,66 milhões em 2050, ante cerca de 1,68 milhão em 2019.

Esse crescimento representa um desafio que vai além dos consultórios e hospitais.

Pessoas com demência podem precisar de acompanhamento médico, medicamentos, cuidados de enfermagem, reabilitação e assistência contínua.

Além dos gastos diretamente relacionados ao sistema de saúde, existem custos sociais e familiares associados ao cuidado.

Por isso, qualquer estratégia capaz de retardar ou reduzir parte dos casos pode produzir impacto econômico significativo.

R$ 23 bilhões em custos associados à inatividade

No cenário em que toda a inatividade física fosse eliminada, os pesquisadores estimaram um custo evitável de R$ 23,1 bilhões entre 2019 e 2050.

Desse total, cerca de R$ 20,2 bilhões corresponderiam a custos diretos de saúde.

O resultado mostra que a atividade física pode ser analisada não apenas como uma recomendação individual, mas também como uma questão de planejamento de saúde pública.

Programas que facilitem o acesso da população a espaços seguros para caminhar, correr, pedalar ou praticar esportes podem contribuir para aumentar os níveis de atividade física.

Não é preciso começar com uma hora de exercício

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é justamente a possibilidade de que pequenas mudanças sejam mais viáveis para quem atualmente não se movimenta.

Uma pessoa completamente sedentária pode considerar difícil começar imediatamente uma rotina de exercícios longos e intensos.

Dez minutos, por outro lado, podem ser incorporados em diferentes momentos do dia.

O Ministério da Saúde orienta que a população comece devagar e aumente progressivamente a duração e a intensidade das atividades. A recomendação geral para adultos é alcançar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa.

Portanto, os dez minutos destacados pelo estudo não devem ser interpretados como a quantidade ideal ou suficiente de exercício para todos.

Eles representam um primeiro passo possível para quem atualmente não pratica nenhuma atividade física.

Dez minutos não substituem a recomendação semanal

Essa distinção é fundamental.

O estudo avaliou o impacto de acrescentar dez minutos por dia entre pessoas que declaravam zero minutos de atividade física. Ele não concluiu que dez minutos diários sejam suficientes para produzir todos os benefícios associados à atividade física.

Pelas recomendações oficiais brasileiras, o objetivo para adultos é acumular pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana ou 75 minutos de atividade vigorosa.

Além disso, o Ministério da Saúde destaca que fazer alguma atividade é melhor do que permanecer completamente inativo e recomenda aumento gradual da prática.

Isso significa que uma pessoa pode começar com períodos curtos e, conforme sua condição física permitir, ampliar gradualmente a duração e a intensidade.

Caminhar também conta

Atividade física não significa necessariamente frequentar uma academia.

Caminhar, dançar, pedalar, nadar, praticar esportes e realizar outras atividades que envolvam movimento podem fazer parte de uma rotina ativa.

O Ministério da Saúde recomenda escolher atividades compatíveis com as preferências e condições individuais e incorporar o movimento ao cotidiano.

Para pessoas idosas, a prática regular também está relacionada à manutenção da autonomia, equilíbrio e independência.

A orientação oficial brasileira ressalta benefícios da atividade física para memória, atenção, concentração e raciocínio, além da redução do risco de demência.

E quem já apresenta comprometimento cognitivo?

A atividade física também pode fazer parte do cuidado de pessoas que já apresentam alterações cognitivas ou vivem com demência, mas a indicação deve ser individualizada.

A OMS recomenda intervenções de atividade física para pessoas que vivem com demência, com evidências de benefícios em determinados aspectos da saúde e do funcionamento.

No Brasil, as linhas de cuidado do Ministério da Saúde recomendam atividade física e apontam que ela pode contribuir para a saúde física e mental. Para pessoas com demência, a orientação geral é de pelo menos 150 minutos semanais, distribuídos preferencialmente em diferentes dias e momentos, respeitando as condições de cada indivíduo.

Isso não significa que o exercício seja um tratamento capaz de reverter a demência.

A atividade física deve ser entendida como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado e redução de riscos.

O cérebro não é o único beneficiado

O possível efeito sobre a demência é apenas uma parte dos benefícios associados à atividade física.

Movimentar-se regularmente ajuda a prevenir e controlar hipertensão e diabetes tipo 2, melhora o condicionamento cardiovascular, contribui para o controle do peso, reduz o risco de quedas em pessoas idosas e favorece a saúde mental.

Esses efeitos são importantes porque vários fatores de risco para demência estão interligados.

Uma pessoa que aumenta sua atividade física pode, por exemplo, melhorar a pressão arterial, o controle glicêmico e a capacidade cardiovascular.

Essas mudanças podem contribuir para uma trajetória de envelhecimento mais saudável.

Uma questão de saúde pública

Os autores do estudo defendem que os resultados podem ajudar a orientar políticas públicas de promoção da atividade física.

A lógica é simples: se uma pequena mudança no comportamento de pessoas completamente inativas pode representar uma redução potencial de centenas de milhares de casos ao longo de décadas, políticas que facilitem o acesso à atividade física podem produzir benefícios que ultrapassam o indivíduo.

Parques, calçadas adequadas, ciclovias, programas comunitários, espaços esportivos e iniciativas públicas de atividade física podem ajudar a transformar a prática de exercícios em uma possibilidade acessível para mais pessoas.

No Brasil, o Programa Academia da Saúde oferece espaços públicos para práticas corporais e atividade física, com profissionais e ações de promoção da saúde.

Um pequeno começo para um problema gigantesco

A principal mensagem do estudo não é que dez minutos de exercício constituam uma fórmula contra a demência.

A conclusão é mais ampla: tirar pessoas completamente inativas da imobilidade pode produzir um impacto populacional muito maior do que parece.

No modelo dos pesquisadores, dez minutos diários de atividade vigorosa entre adultos que atualmente não fazem nenhuma atividade poderiam estar associados à prevenção de aproximadamente 420 mil casos de demência e a uma economia estimada em R$ 16,2 bilhões até 2050.

A OMS, por sua vez, reforça que a prevenção da demência deve ser encarada ao longo de toda a vida e envolver diferentes fatores de risco, não apenas a prática de exercícios. As novas diretrizes publicadas em julho de 2026 estimam que até 45% do risco de demência poderia ser prevenido ou retardado por meio da abordagem de fatores modificáveis.

Para quem atualmente não pratica nenhuma atividade física, portanto, o primeiro passo pode ser pequeno.

Mas, segundo a evidência disponível, ele pode fazer parte de uma mudança muito maior: manter o corpo ativo, proteger a saúde cardiovascular, preservar a autonomia e, potencialmente, reduzir o peso futuro da demência sobre milhões de brasileiros.

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