Surto de Ebola no Congo registra uma das semanas mais letais desde o início da epidemia

Mais de 300 pessoas morreram em apenas sete dias, segundo dados do governo; doença já ultrapassa 5,5 mil casos e 2,6 mil mortes, enquanto a OMS alerta que a transmissão avança mais rápido do que a resposta consegue conter
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O surto de doença pelo vírus Bundibugyo, uma das formas de Ebola, que atinge a República Democrática do Congo (RDC), alcançou um dos momentos mais graves desde o início da epidemia. Dados do Ministério da Saúde congolês citados pela Associated Press indicam que 5.514 casos e 2.642 mortes haviam sido registrados até sábado, 22 de agosto. Somente nos sete dias anteriores, 317 pessoas morreram em decorrência da doença.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em atualização publicada nesta segunda-feira (24), também classificou o cenário como extremamente preocupante. Segundo a entidade, o país já ultrapassou a marca de 5.200 casos, e a transmissão continua crescendo em ritmo superior ao observado em grandes epidemias anteriores. A OMS afirma que o surto se tornou o mais rapidamente crescente já registrado no país.

A epidemia é provocada pelo vírus Bundibugyo, uma espécie de ortoebolavírus diferente daquela responsável pelo maior surto de Ebola da África Ocidental entre 2014 e 2016. Essa diferença é fundamental porque, apesar de existir uma vacina contra uma das formas de Ebola, não há atualmente vacina licenciada especificamente contra o vírus Bundibugyo, nem tratamento específico aprovado para a doença.

Um surto que cresce em velocidade incomum

O atual surto foi oficialmente declarado pelas autoridades congolesas em 15 de maio de 2026, depois que exames laboratoriais confirmaram a presença do vírus Bundibugyo em amostras de pacientes na província de Ituri.

A OMS havia sido alertada no início de maio sobre um agrupamento de casos de uma doença desconhecida com elevada mortalidade na região de Mongbwalu. Em 15 de maio, o Ministério da Saúde da RDC declarou oficialmente o 17º surto de Ebola no território nacional.

Desde então, a doença avançou rapidamente.

Em seu relatório de 14 de agosto, a OMS registrava 4.665 casos confirmados e 2.184 mortes somente na República Democrática do Congo. Naquele momento, a doença já havia alcançado 54 zonas de saúde em seis províncias: Ituri, North Kivu, South Kivu, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé.

O balanço divulgado pela OMS em 24 de agosto mostra que a situação continuou se deteriorando.

A organização afirma que uma média de aproximadamente 90 novos casos confirmados por dia foi registrada nos primeiros três meses da epidemia. Segundo a entidade, esse ritmo é significativamente superior ao observado no mesmo período dos grandes surtos de Ebola registrados na África Ocidental entre 2014 e 2016 e na própria RDC entre 2018 e 2020.

Ituri continua sendo o epicentro

A província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, permanece como o principal foco da epidemia.

Segundo a OMS, cerca de 85% dos casos e 79% das mortes registrados no país estão concentrados nessa província. A região reúne características que dificultam o controle de doenças infecciosas: grande circulação de pessoas, deslocamentos provocados por conflitos, áreas de difícil acesso e uma infraestrutura de saúde pressionada por necessidades humanitárias.

A cidade e a região de Mongbwalu, importante área de mineração, foram identificadas como o ponto inicial conhecido do surto. No entanto, autoridades e especialistas suspeitam que o vírus possa ter circulado durante semanas antes de a epidemia ser oficialmente reconhecida.

A demora entre os primeiros casos e a confirmação laboratorial é especialmente importante porque aumenta a possibilidade de que pessoas infectadas tenham mantido contato com familiares, profissionais de saúde e integrantes de suas comunidades antes de serem identificadas.

Quase metade dos infectados morreu

A taxa de letalidade do atual surto permanece elevada.

Dados oficiais citados pela AP apontam que aproximadamente 47,9% dos casos registrados terminaram em morte. Em algumas áreas mais remotas, a proporção é ainda maior. Na província de North Kivu, por exemplo, a taxa de letalidade chegou a 68,6%, segundo os dados mencionados pela agência.

A OMS havia calculado uma taxa de letalidade de aproximadamente 47% em seu relatório de avaliação de risco publicado em 20 de agosto, com base nos dados disponíveis até 13 de agosto.

Essa taxa, porém, precisa ser interpretada com cautela. Em epidemias em andamento, o número de casos e mortes pode mudar rapidamente, e mortes ocorridas antes da identificação oficial dos pacientes podem ser incorporadas posteriormente às estatísticas.

Além disso, regiões com acesso limitado aos serviços de saúde podem apresentar subnotificação tanto de casos quanto de óbitos.

O vírus Bundibugyo não é exatamente o mesmo do grande surto de 2014

Embora seja chamado genericamente de Ebola, o agente responsável pelo atual surto pertence a uma espécie diferente: o Bundibugyo virus, causador da doença pelo vírus Bundibugyo.

Existem diferentes ortoebolavírus capazes de provocar doenças em seres humanos. O vírus Ebola propriamente dito — Orthoebolavirus zairense — foi responsável por alguns dos maiores surtos registrados nas últimas décadas. O Bundibugyo é outro membro desse grupo.

O Bundibugyo já havia causado surtos anteriores em Uganda e na própria República Democrática do Congo. Segundo o CDC americano, os dois episódios anteriores apresentaram taxas de mortalidade de aproximadamente 25% e 50%, respectivamente.

O comportamento do atual surto, entretanto, surpreendeu as autoridades devido à velocidade de expansão e ao elevado número de mortes.

Como o Ebola é transmitido?

O vírus não é transmitido simplesmente pelo fato de uma pessoa estar próxima de outra ou passar ao lado dela na rua.

A transmissão ocorre principalmente por contato direto com sangue ou outros fluidos corporais de uma pessoa infectada, incluindo vômito, fezes, urina, saliva, suor e outros materiais biológicos. O risco também aumenta quando há contato com pessoas mortas pela doença, especialmente durante práticas funerárias que envolvam manipulação do corpo.

Profissionais de saúde estão entre os grupos mais vulneráveis quando equipamentos de proteção individual e protocolos de prevenção e controle de infecções não são adequadamente aplicados.

A própria OMS destaca que ataques a unidades de saúde e dificuldades de acesso têm prejudicado o trabalho das equipes responsáveis por identificar casos, rastrear contatos e oferecer atendimento.

Os primeiros sintomas podem parecer outras doenças

O período de incubação da doença varia de 2 a 21 dias. Em média, os sintomas começam entre oito e dez dias depois da exposição ao vírus.

Os primeiros sinais costumam ser inespecíficos e podem ser confundidos com outras infecções. Entre eles estão:

  • febre;

  • cansaço intenso;

  • dores musculares;

  • dor de cabeça;

  • fraqueza;

  • dor de garganta.

À medida que a doença evolui, podem surgir sintomas gastrointestinais, como vômitos, diarreia intensa, náusea e dor abdominal. Sangramentos também podem ocorrer, embora não estejam presentes em todos os pacientes.

Por isso, a confirmação depende de testes laboratoriais, como exames de PCR.

Por que a vacinação é um dos grandes desafios?

Um dos principais problemas enfrentados pelas autoridades é que a vacina mais conhecida contra o Ebola não foi desenvolvida especificamente para o vírus Bundibugyo.

A vacina Ervebo é licenciada e recomendada para prevenção da doença causada pelo vírus Ebola (Orthoebolavirus zairense). Ela foi utilizada com grande importância em surtos anteriores. Entretanto, a OMS afirma que ainda não existem evidências suficientes para determinar se a Ervebo protege contra o Bundibugyo.

A organização recomenda, portanto, que a Ervebo não seja utilizada de maneira rotineira para combater surtos de Bundibugyo fora de ambientes de pesquisa controlados.

Mesmo assim, mais de 16 mil doses de Ervebo chegaram recentemente à RDC, segundo a Associated Press. A OMS e seus parceiros pretendem utilizar a situação também para avançar pesquisas sobre sua possível proteção contra o vírus Bundibugyo.

O objetivo é avaliar cientificamente se a vacina pode oferecer algum nível de proteção, sem apresentar como comprovada uma eficácia que ainda não foi estabelecida.

Não existe tratamento específico aprovado

A situação também é complicada pela ausência de medicamentos aprovados especificamente para a doença causada pelo Bundibugyo.

O tratamento atualmente se concentra principalmente em cuidados de suporte, como hidratação, reposição de eletrólitos, controle dos sintomas e tratamento de complicações. O atendimento precoce pode aumentar as chances de sobrevivência.

Existem medicamentos experimentais sendo estudados, mas eles ainda não possuem aprovação específica para tratar a infecção pelo Bundibugyo.

Isso diferencia o atual surto de alguns episódios provocados pelo vírus Ebola, para os quais existem terapias com anticorpos monoclonais aprovadas.

Conflitos e deslocamentos dificultam o controle

A epidemia acontece em uma região que já enfrenta uma grave crise humanitária.

A insegurança e os conflitos armados dificultam o deslocamento das equipes médicas, a realização de testes, o rastreamento de contatos e o encaminhamento de pacientes para unidades especializadas.

A OMS também registra grandes movimentos populacionais, o que aumenta a possibilidade de pessoas infectadas deixarem uma área antes de serem identificadas.

Outro problema é a desinformação. Mensagens que colocam em dúvida a existência da doença ou questionam as medidas de prevenção podem reduzir a procura por atendimento e dificultar o trabalho das equipes de saúde.

Ataques contra profissionais e estruturas de saúde representam uma ameaça adicional.

Trabalhadores da saúde estão entre os mais expostos

Profissionais que trabalham diretamente na resposta à epidemia enfrentam um risco elevado porque entram em contato com pacientes infectados e materiais potencialmente contaminados.

A avaliação de risco da OMS publicada em 20 de agosto apontou o aumento das infecções entre profissionais de saúde como um dos fatores que demonstram a gravidade do surto. A entidade também classificou o risco como muito alto dentro da República Democrática do Congo, alto para países vizinhos e baixo no âmbito regional e global.

Essa avaliação é importante porque significa que, apesar da gravidade da situação no Congo e do risco de disseminação para países próximos, a OMS não considera que exista atualmente uma transmissão global sustentada.

Casos relacionados ao surto já foram identificados fora da RDC, incluindo Uganda e países europeus, mas não houve estabelecimento de cadeias sustentadas de transmissão fora do Congo.

Por que o surto preocupa o mundo?

O principal motivo de preocupação internacional é a combinação de vários fatores ao mesmo tempo: crescimento acelerado, alta letalidade, deslocamentos populacionais, dificuldade de rastrear contatos, conflito armado, infraestrutura de saúde limitada e ausência de vacina licenciada especificamente contra o Bundibugyo.

Em agosto, a OMS classificou o evento como uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional (PHEIC) devido à gravidade da doença e ao potencial de disseminação internacional.

A localização geográfica também aumenta a preocupação. Ituri fica próxima de áreas de fronteira com países como Uganda e Sudão do Sul, onde existe intensa movimentação de pessoas.

A estratégia de contenção depende, portanto, não apenas das autoridades congolesas, mas também da cooperação entre países vizinhos e organizações internacionais.

O que pode conter a epidemia?

Segundo a OMS, controlar o surto exige uma combinação de medidas. Entre as principais estão:

Identificação rápida dos casos: localizar pessoas com sintomas e confirmar a infecção em laboratório.

Rastreamento de contatos: identificar e acompanhar pessoas que tiveram contato com pacientes infectados.

Isolamento e atendimento: reduzir a possibilidade de novas transmissões e oferecer cuidados médicos rapidamente.

Proteção dos profissionais: utilizar equipamentos de proteção e protocolos rigorosos de controle de infecções.

Sepultamentos seguros: evitar contato com fluidos corporais de pessoas que morreram pela doença.

Comunicação com as comunidades: combater rumores e ampliar a confiança da população nas equipes de saúde.

Cooperação internacional: manter vigilância nas fronteiras e capacidade de detectar rapidamente possíveis casos importados.

A OMS destaca que nenhuma dessas medidas funciona isoladamente. O controle depende da combinação entre vigilância epidemiológica, assistência médica, prevenção de infecções e participação das comunidades.

Um alerta que ainda está em evolução

O cenário no Congo permanece extremamente dinâmico. Os números podem aumentar rapidamente à medida que novas áreas sejam alcançadas pelas equipes de vigilância e casos e mortes ocorridos anteriormente sejam incorporados aos registros oficiais.

O dado mais preocupante neste momento é a velocidade de crescimento. A OMS afirma que, após 100 dias da declaração oficial do surto, a transmissão continua superando a capacidade de controle, exigindo uma ampliação significativa das operações de resposta.

A marca de 317 mortes em apenas uma semana, divulgada pelo governo congolês, representa um dos piores períodos semanais registrados desde o começo da epidemia.

Mais do que o tamanho atual da epidemia, o que preocupa especialistas é a possibilidade de que os números oficiais ainda não representem toda a extensão da transmissão.

A OMS afirma que o surto permanece em uma fase de transmissão intensa e expansão geográfica. Enquanto não houver uma vacina comprovadamente eficaz contra o Bundibugyo e não forem ampliadas as capacidades de diagnóstico, tratamento, vigilância e proteção dos profissionais, o controle da epidemia continuará sendo um enorme desafio para a República Democrática do Congo e para os países da região.

  • Leia mais:

Horário eleitoral começa nesta semana com Lula tendo mais tempo que Flávio Bolsonaro

Trump prepara novas sanções contra o Irã e promete pressão econômica máxima

Governo dos EUA quer regulamentar cobrança de taxa de mais de US$ 100 mil para vistos de alta qualificação

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*