OMS confirma fim do surto que deixou 20 casos e duas mortes no país, mas alerta para o risco de reintrodução do vírus devido à grave epidemia na República Democrática do Congo
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente nesta quinta-feira (27) o fim do surto de Ebola em Uganda. A decisão foi tomada após o país completar 42 dias consecutivos sem registrar novos casos confirmados, período considerado suficiente para indicar que não existem cadeias de transmissão ativas relacionadas ao último paciente identificado.
O surto, causado pelo vírus Bundibugyo, havia sido declarado em Uganda em 15 de maio. Ao longo da epidemia, foram confirmados 20 casos e duas mortes. De acordo com a OMS, 18 pacientes se recuperaram da doença.
A conclusão do período de monitoramento representa uma importante vitória para as autoridades sanitárias ugandesas, que conseguiram interromper rapidamente a transmissão local. Entretanto, a OMS ressalta que o fim do surto dentro das fronteiras do país não significa que o risco regional tenha desaparecido.
A proximidade com a República Democrática do Congo (RDC), onde o mesmo vírus continua provocando uma epidemia de grandes proporções, mantém Uganda sob vigilância. A intensa circulação de pessoas entre os países, o comércio transfronteiriço e os vínculos sociais entre as comunidades aumentam a possibilidade de novos casos importados.
Período de 42 dias confirma interrupção da transmissão
O período utilizado pela OMS para declarar o fim do surto corresponde a duas vezes o limite máximo de incubação do vírus Bundibugyo.
O último paciente confirmado em Uganda recebeu alta em 16 de julho, depois de apresentar dois testes negativos para o vírus. A partir daquela data, as autoridades iniciaram uma contagem regressiva de 42 dias com vigilância intensificada.
Como nenhum novo caso foi identificado durante esse período, a OMS e o Africa CDC consideraram que não havia evidências de novas cadeias de transmissão associadas ao último caso.
O intervalo de 42 dias é utilizado internacionalmente como uma margem de segurança para verificar se possíveis casos não detectados surgiram após a recuperação do último paciente.
Uganda registrou 20 casos e duas mortes
Segundo a OMS, Uganda confirmou 20 casos de Ebola durante o surto.
A maior parte dos registros esteve relacionada à entrada do vírus a partir da República Democrática do Congo. Dos 20 casos confirmados, 15 foram classificados como importados, enquanto outros cinco ocorreram localmente entre contatos e profissionais de saúde relacionados aos casos importados.
Ao todo, 18 pacientes se recuperaram e duas pessoas morreram.
Mais de 800 contatos foram identificados e acompanhados pelas equipes de saúde durante a resposta à epidemia. O rastreamento de contatos foi uma das principais estratégias utilizadas para impedir que o vírus se espalhasse para outras comunidades.
Resposta rápida ajudou a conter o vírus
Para a OMS e o Africa CDC, a experiência de Uganda demonstra a importância de uma resposta rápida diante de doenças altamente contagiosas.
Entre as medidas adotadas estiveram a identificação e confirmação de casos, rastreamento de pessoas que tiveram contato com infectados, isolamento de pacientes, atendimento clínico, reforço das medidas de prevenção e controle de infecções e ampliação da vigilância epidemiológica.
As autoridades também intensificaram o monitoramento em unidades de saúde e nos pontos de entrada do país, uma estratégia considerada fundamental diante da circulação de pessoas entre Uganda e a República Democrática do Congo.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou que a experiência mostra que surtos de Ebola podem ser controlados rapidamente quando há liderança governamental, vigilância eficiente e participação das comunidades.
República Democrática do Congo continua em situação crítica
Apesar da vitória em Uganda, o cenário na região permanece preocupante.
Na República Democrática do Congo, o surto de Ebola causado pelo vírus Bundibugyo continua ativo e apresenta transmissão intensa. Dados da OMS publicados em agosto apontavam milhares de casos confirmados e mais de 2 mil mortes, com expansão para dezenas de zonas de saúde.
A OMS classificou a epidemia congolesa como a maior já registrada no país em número de casos, superando o grande surto ocorrido entre 2018 e 2020.
A situação também é agravada pela movimentação da população, deslocamentos provocados pela crise humanitária, insegurança e circulação entre diferentes áreas afetadas. Esses fatores tornam mais difícil interromper completamente a transmissão.
Fronteira mantém Uganda em alerta
O fim oficial do surto não encerra as medidas de vigilância em Uganda.
A OMS considera que o país continua exposto ao risco de reintrodução do vírus, justamente por compartilhar uma fronteira e manter intensos fluxos populacionais com a República Democrática do Congo.
Por esse motivo, as autoridades ugandesas devem manter a capacidade de identificar rapidamente possíveis casos, realizar testes, investigar alertas e acompanhar pessoas que possam ter tido contato com pacientes infectados.
A vigilância também é importante nos pontos de entrada do território ugandês, onde equipes de saúde podem identificar pessoas com sintomas compatíveis com a doença e encaminhá-las para avaliação.
OMS não recomenda fechamento de fronteiras
Mesmo diante do risco de importação de novos casos, a OMS não recomenda a adoção de restrições gerais de viagens ou comércio por causa do surto.
A organização afirma que países não devem suspender voos, fechar fronteiras ou impedir automaticamente a entrada de viajantes provenientes de áreas afetadas.
Em vez disso, a orientação é manter medidas proporcionais de saúde pública, com detecção precoce, vigilância epidemiológica, preparação dos sistemas de saúde e cooperação entre países vizinhos.
Para a OMS, a coordenação transfronteiriça é essencial para impedir que novos casos sejam introduzidos em países onde a transmissão já foi interrompida.
O que é o Ebola
A doença causada pelo vírus Ebola é uma enfermidade grave e potencialmente fatal. A transmissão ocorre principalmente por meio do contato direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou de animais contaminados.
O vírus pode provocar febre, fraqueza intensa, dores musculares, vômitos, diarreia e, em casos graves, manifestações hemorrágicas e falência de órgãos.
O diagnóstico precoce e o atendimento adequado são fundamentais para aumentar as chances de sobrevivência e reduzir a transmissão.
No caso do surto atual em Uganda e na República Democrática do Congo, trata-se especificamente da doença provocada pelo vírus Bundibugyo, uma espécie de Ebola identificada originalmente na região de Bundibugyo, em Uganda.
Um avanço importante para a saúde pública
A declaração da OMS representa um marco para Uganda depois de meses de vigilância e resposta à epidemia.
O país conseguiu interromper a transmissão em um período relativamente curto, evitando que o surto alcançasse proporções maiores. Para as autoridades sanitárias internacionais, o resultado demonstra a importância de manter investimentos permanentes em preparação para emergências de saúde.
O Africa CDC afirmou que o caso de Uganda oferece uma importante lição para o continente: liderança, confiança das comunidades e sistemas de saúde capazes de responder rapidamente podem fazer diferença decisiva no controle de epidemias.
Mas a vitória ainda é parcial no contexto regional.
Enquanto Uganda encerra oficialmente seu surto, a República Democrática do Congo continua enfrentando uma epidemia grave. Por isso, a OMS e o Africa CDC defendem a continuidade da cooperação entre os dois países e o fortalecimento das medidas de vigilância nas regiões de fronteira.
A prioridade agora é evitar que o vírus volte a entrar em Uganda e, ao mesmo tempo, ajudar a interromper a transmissão na República Democrática do Congo.
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