Anvisa suspende testes de terapia celular para doenças autoimunes após três mortes

Decisão interrompe três estudos de fase 2 no Brasil e impede novos recrutamentos enquanto autoridades e especialistas avaliam os riscos do tratamento experimental
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão dos ensaios clínicos realizados no Brasil com uma terapia celular experimental desenvolvida pela farmacêutica Novartis para o tratamento de doenças autoimunes graves. A decisão ocorreu depois que três pacientes morreram durante estudos internacionais após apresentarem uma reação imunológica grave e potencialmente fatal.

A medida foi adotada como precaução e acompanha a interrupção global do programa de desenvolvimento do tratamento para doenças autoimunes. Segundo a Anvisa, nenhum dos três óbitos ocorreu entre participantes brasileiros. A agência informou ainda que a retomada das pesquisas no país não será automática e dependerá da conclusão das investigações sobre os eventos adversos e da apresentação de informações capazes de demonstrar que os benefícios do tratamento continuam superiores aos riscos.

A suspensão foi publicada oficialmente e interrompe imediatamente a realização de novos procedimentos relacionados aos estudos, além de impedir a inclusão de novos voluntários no país.

Tratamento utiliza células do próprio paciente

O tratamento investigado é o rapcabtagene autoleucel, conhecido como rap-cel ou YTB323, uma terapia celular do tipo CAR-T. A técnica utiliza células de defesa do próprio paciente, que são retiradas do organismo e modificadas em laboratório para reconhecer determinadas células ou alvos relacionados à doença. Depois dessa preparação, as células são reinfundidas no paciente para atuar sobre o sistema imunológico. A Novartis classifica o YTB323 como uma terapia CAR-T direcionada ao CD19 e atualmente em investigação para diferentes doenças autoimunes.

A tecnologia CAR-T já possui aplicações estabelecidas no tratamento de alguns tipos de câncer, principalmente doenças hematológicas. A expansão dessa estratégia para doenças autoimunes representa uma frente de pesquisa que busca modificar de maneira profunda o funcionamento do sistema imunológico.

Nas doenças autoimunes, as próprias defesas do organismo passam a atacar tecidos e órgãos saudáveis. A proposta das terapias celulares é utilizar células modificadas para interferir nesse processo e tentar reprogramar a resposta imunológica.

Três estudos foram atingidos no Brasil

No Brasil, a suspensão alcança três protocolos de pesquisa de fase 2. Os estudos avaliavam o tratamento em pacientes com diferentes doenças autoimunes, incluindo granulomatose com poliangeíte, poliangeíte microscópica, lúpus eritematoso sistêmico, nefrite lúpica e esclerose sistêmica cutânea difusa.

Os estudos de fase 2 têm como uma de suas principais finalidades ampliar a avaliação da segurança e também obter informações sobre a eficácia de uma terapia experimental em um grupo maior de participantes do que nas etapas iniciais de pesquisa.

A previsão era de que 19 pessoas participassem dos estudos no Brasil. Com a decisão da Anvisa, novos voluntários não poderão ser incluídos enquanto a suspensão estiver em vigor.

Para aqueles que já receberam o tratamento dentro dos protocolos, a interrupção não significa o fim do acompanhamento médico. Os participantes devem continuar sendo monitorados pelas equipes responsáveis pelas pesquisas, justamente para que eventuais alterações no estado de saúde sejam identificadas e registradas.

Mortes levaram à pausa internacional

O principal motivo da suspensão foi a ocorrência de três casos graves durante os estudos realizados fora do Brasil. Os pacientes desenvolveram uma reação imunológica severa associada ao tratamento e morreram.

Eventos inflamatórios e alterações importantes da resposta imunológica já são riscos conhecidos das terapias CAR-T. No caso dos estudos com rap-cel, entretanto, a ocorrência dos episódios fatais levou a farmacêutica a interromper temporariamente o desenvolvimento da terapia para doenças autoimunes.

A empresa passou a revisar os casos com o auxílio de comitês independentes de segurança. O objetivo é compreender as circunstâncias que levaram às complicações, verificar se existe algum fator comum entre os pacientes afetados e identificar possíveis medidas capazes de reduzir o risco em futuras aplicações.

Até o momento, a investigação não estabeleceu uma causa única que explique todos os eventos graves. Por esse motivo, a suspensão foi ampliada como medida de segurança para o programa de desenvolvimento do tratamento em doenças autoimunes.

Por que a reação imunológica preocupa?

As terapias CAR-T atuam diretamente sobre o sistema imunológico e podem provocar respostas inflamatórias intensas. Em determinadas situações, a ativação exagerada das células de defesa pode desencadear uma reação sistêmica grave, comprometendo o funcionamento de diferentes órgãos.

Esse tipo de complicação exige identificação e tratamento rápidos. Por isso, além de avaliar se o tratamento é eficaz contra a doença que pretende combater, os estudos clínicos precisam acompanhar cuidadosamente os possíveis efeitos adversos.

No caso do rap-cel, a ocorrência de três mortes em diferentes estudos fez com que a análise de segurança ganhasse prioridade. A investigação deverá ajudar a determinar se os eventos estão relacionados diretamente ao tratamento, se existem características específicas dos pacientes envolvidos ou se outros fatores podem ter contribuído para os desfechos.

Estudos contra câncer continuam

A suspensão não significa que todos os estudos envolvendo o rap-cel foram interrompidos. Os programas que investigam a terapia em doenças oncológicas não foram incluídos na pausa relacionada às doenças autoimunes.

A diferença está no contexto de utilização da tecnologia. O rap-cel também é estudado como terapia CAR-T contra determinados tipos de câncer, enquanto os estudos agora suspensos buscam explorar sua aplicação para doenças nas quais o próprio sistema imunológico provoca danos ao organismo.

A Novartis mantém o YTB323 em seu portfólio de pesquisa para diferentes indicações, incluindo lúpus, nefrite lúpica e esclerose sistêmica.

Retomada dependerá de novas evidências

A suspensão determinada pela Anvisa não representa necessariamente o encerramento definitivo dos estudos no Brasil. A continuidade poderá ser analisada futuramente, mas dependerá da apresentação de novas evidências de segurança.

Antes de permitir a retomada, será necessário esclarecer os eventos que provocaram as mortes, avaliar os riscos identificados e verificar se foram estabelecidas medidas capazes de proteger os participantes.

A decisão reforça o papel da vigilância sanitária durante o desenvolvimento de terapias experimentais. Mesmo quando uma tecnologia apresenta resultados promissores, a identificação de eventos graves pode levar os órgãos reguladores a interromper temporariamente as pesquisas para preservar a segurança dos voluntários.

Enquanto as investigações avançam, os participantes que já receberam o tratamento permanecem sob acompanhamento clínico. A prioridade passa a ser compreender os riscos envolvidos e determinar, com base em evidências, se a terapia poderá continuar sendo estudada para doenças autoimunes.

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