Pesquisa conduzida por cientistas do MD Anderson encontrou efeito preventivo em modelos animais e identificou um mecanismo ligado à preservação da energia das células nervosas; testes em pacientes estão sendo preparados
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma substância psicodélica conhecida principalmente pelos efeitos produzidos no cérebro pode ter uma aplicação inesperada no tratamento do câncer. Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, descobriram que a psilocibina, composto encontrado em determinadas espécies de cogumelos, foi capaz de prevenir danos nos nervos provocados por diferentes tipos de quimioterapia em modelos pré-clínicos. Os resultados, publicados na revista científica Science em 3 de setembro de 2026, indicam que duas doses administradas antes da quimioterapia foram suficientes para proteger nervos periféricos em camundongos, sem reduzir o efeito antitumoral dos medicamentos. O próximo passo será verificar se o mesmo mecanismo pode funcionar em seres humanos.
A descoberta chama atenção porque a chamada neuropatia periférica induzida pela quimioterapia é uma das complicações mais difíceis de controlar durante e depois do tratamento contra o câncer. O problema ocorre quando medicamentos utilizados para combater tumores também provocam lesões nas estruturas nervosas responsáveis por transmitir informações de sensibilidade. Os pacientes podem desenvolver dor, formigamento, dormência, perda de sensibilidade e maior sensibilidade ao frio, principalmente nas mãos e nos pés. Em alguns casos, os sintomas permanecem mesmo depois do término da quimioterapia e podem comprometer atividades cotidianas e a qualidade de vida.
O que os pesquisadores descobriram
O estudo foi liderado por pesquisadores do MD Anderson, entre eles o cirurgião-cientista Moran Amit e o pesquisador de medicina da dor Patrick Dougherty. A equipe utilizou diferentes modelos pré-clínicos para investigar se a psilocibina poderia atuar antes que a quimioterapia provocasse danos permanentes nos nervos.
Os experimentos envolveram medicamentos quimioterápicos conhecidos por causar neuropatia, incluindo cisplatina, paclitaxel e docetaxel. Nos modelos estudados, a administração de psilocibina antes da quimioterapia evitou sinais característicos da lesão nervosa, como hipersensibilidade ao frio, perda de sensibilidade ao toque e deterioração das terminações nervosas presentes na pele.
Um dos aspectos mais relevantes foi a duração do efeito observado. De acordo com os pesquisadores, a proteção permaneceu durante ciclos repetidos de quimioterapia e, nos experimentos acompanhados por até oito meses, os animais tratados mantiveram a função sensorial preservada. O estudo também não identificou redução mensurável da capacidade da quimioterapia de combater os tumores.
Isso é importante porque uma das principais preocupações ao tentar proteger tecidos saudáveis durante o tratamento do câncer é não interferir no efeito que os medicamentos precisam exercer sobre as células tumorais.
Por que a quimioterapia provoca danos nos nervos?
A quimioterapia tem como objetivo destruir ou impedir a multiplicação de células cancerígenas. Entretanto, alguns medicamentos também podem afetar tecidos saudáveis.
Entre os tecidos vulneráveis estão os nervos periféricos, que conectam o sistema nervoso central às diferentes regiões do corpo. Quando essas estruturas são prejudicadas, o paciente pode sentir queimação, choques, formigamento, dormência ou dor, além de apresentar alterações na capacidade de perceber temperatura e toque.
O problema pode ser especialmente relevante durante tratamentos que utilizam determinados medicamentos à base de platina e alguns taxanos. Segundo o MD Anderson, a neuropatia pode persistir depois do fim da quimioterapia e, uma vez estabelecida, muitas vezes é difícil revertê-la completamente.
A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) mantém diretrizes específicas para a prevenção e o controle da neuropatia periférica relacionada à quimioterapia, evidenciando a importância clínica desse efeito adverso. Para pacientes que já desenvolveram neuropatia dolorosa, estudos clínicos anteriores demonstraram benefício com medicamentos como a duloxetina, mas ainda existe uma necessidade importante de estratégias capazes de prevenir o dano antes que ele aconteça.
O papel das mitocôndrias
A pesquisa não se limitou a observar que a psilocibina aparentemente protegia os animais. Os cientistas também investigaram como isso poderia acontecer.
Uma das principais pistas encontradas envolve as mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. Os nervos sensoriais possuem prolongamentos que podem se estender por distâncias consideráveis e precisam transportar energia até suas extremidades para permanecerem funcionais.
Os pesquisadores observaram que a cisplatina, um dos quimioterápicos analisados, prejudicava a quantidade e o deslocamento das mitocôndrias dentro das fibras nervosas. Com menos energia chegando às extremidades dos neurônios, essas estruturas ficavam mais vulneráveis à degeneração.
A psilocibina pareceu interferir justamente nesse processo. Os experimentos indicaram que o composto ativou uma via de sinalização capaz de preservar o transporte das mitocôndrias pelas fibras nervosas, mantendo o fornecimento de energia necessário para as terminações sensoriais.
Em outras palavras, a hipótese levantada pelos cientistas é que a substância não estaria simplesmente mascarando a dor provocada pela quimioterapia. Ela poderia estar ajudando o próprio nervo a resistir ao dano.
A importância do receptor 5-HT2A
Outro componente central da descoberta foi o receptor de serotonina conhecido como 5-HT2A.
A psilocibina é convertida no organismo em psilocina, que interage com receptores de serotonina, incluindo o 5-HT2A. Esses receptores são conhecidos por sua participação nos efeitos psicodélicos da substância, mas o novo estudo aponta que também podem participar de mecanismos de proteção dos nervos periféricos.
Nos experimentos, quando os pesquisadores bloquearam a atividade da via relacionada ao 5-HT2A, o efeito protetor desapareceu. Isso fortaleceu a hipótese de que o receptor participa diretamente do mecanismo observado.
Mais interessante ainda foi o resultado obtido com uma substância que ativa o mesmo receptor sem produzir os efeitos alucinógenos característicos da psilocibina. Segundo os pesquisadores, esse composto também apresentou efeito protetor nos modelos experimentais.
A descoberta abre uma possibilidade adicional: no futuro, talvez seja possível desenvolver medicamentos que reproduzam a ação neuroprotetora da psilocibina sem necessariamente provocar uma experiência psicodélica.
Pesquisadores também analisaram tecidos humanos
Embora a maior parte do trabalho tenha sido realizada em modelos pré-clínicos, os pesquisadores buscaram evidências de que o mecanismo observado também existe em seres humanos.
O estudo analisou neurônios sensoriais humanos obtidos de doadores e amostras de pele de pacientes. Os resultados indicaram que a rede envolvendo o receptor 5-HT2A e o transporte das mitocôndrias também está presente em tecidos humanos.
Esse dado aumenta o interesse pela descoberta, mas não elimina a principal limitação do trabalho: ainda não foi demonstrado que a psilocibina previne neuropatia provocada pela quimioterapia em pacientes.
Uma reação observada em camundongos não pode ser automaticamente considerada uma resposta equivalente em seres humanos. É justamente para responder a essa questão que serão necessários ensaios clínicos controlados.
Testes em pacientes devem avaliar a hipótese
Os resultados obtidos em laboratório serviram de base para o desenvolvimento do estudo clínico NeuroGuard, registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT07227909.
O ensaio de fase 2 pretende avaliar se a psilocibina pode prevenir ou reduzir a gravidade da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia em pacientes com câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço. O estudo está associado ao MD Anderson e foi registrado também pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI).
O desenho do estudo prevê a comparação entre pacientes submetidos à estratégia com psilocibina e grupos de controle, permitindo verificar se o efeito observado nos modelos pré-clínicos realmente se traduz em benefício clínico.
Essa etapa é fundamental. Antes que qualquer substância seja incorporada à rotina médica, os pesquisadores precisam determinar, entre outros pontos, a dose adequada, a segurança, os efeitos adversos, possíveis interações com outros medicamentos e a capacidade real de prevenir a neuropatia.
Descoberta não significa que pacientes devam usar psilocibina
Apesar do potencial, os resultados ainda não autorizam o uso da psilocibina como estratégia para proteger pacientes durante a quimioterapia.
A substância é psicodélica e pode alterar percepção, pensamento, humor e consciência. Além disso, a segurança de seu uso em pessoas submetidas a diferentes tratamentos contra o câncer precisa ser determinada em estudos clínicos específicos.
O próprio MD Anderson classifica os resultados como pré-clínicos e afirma que eles servem de fundamento para a avaliação clínica da hipótese.
Portanto, a descoberta deve ser entendida como uma nova linha de pesquisa, e não como um tratamento já comprovado.
Uma mudança na estratégia contra a neuropatia
Historicamente, boa parte das pesquisas sobre neuropatia relacionada à quimioterapia se concentrou em controlar a dor e outros sintomas depois que o dano já ocorreu. A nova pesquisa aposta em uma estratégia diferente: proteger o nervo antes que a lesão se estabeleça.
Essa diferença pode ser decisiva. Uma vez que as terminações nervosas tenham sido destruídas ou sofrido danos significativos, recuperá-las pode ser difícil. Se for possível preservar sua estrutura durante a quimioterapia, o paciente poderia potencialmente terminar o tratamento contra o câncer com menos dor, dormência e perda de sensibilidade.
O estudo publicado na Science sugere que essa proteção pode ser alcançada por meio da manutenção do transporte de energia dentro das fibras nervosas. A psilocibina, ou eventualmente medicamentos que reproduzam sua ação sobre o receptor 5-HT2A, poderá se tornar uma ferramenta para investigar essa possibilidade.
O que falta descobrir
A próxima etapa será determinar se a proteção observada em animais pode ser reproduzida em pacientes submetidos à quimioterapia.
Também será necessário descobrir se o efeito é semelhante para diferentes tipos de câncer e esquemas quimioterápicos, qual seria o momento ideal para administrar a substância e se os benefícios compensam eventuais riscos.
Outro ponto será entender se uma versão não psicodélica capaz de ativar a mesma via poderia produzir resultados semelhantes. Se isso for possível, a pesquisa poderá deixar de depender dos efeitos alucinógenos da psilocibina e avançar para medicamentos desenvolvidos especificamente para a proteção dos nervos.
Por enquanto, a principal conclusão é mais modesta — e, ao mesmo tempo, promissora: cientistas encontraram uma forma de proteger nervos contra a toxicidade da quimioterapia em modelos pré-clínicos e identificaram um mecanismo biológico que pode ser testado em seres humanos.
Se os próximos ensaios confirmarem esses resultados, a descoberta poderá abrir uma nova frente na oncologia, não para substituir a quimioterapia, mas para torná-la mais tolerável e reduzir uma das complicações que podem acompanhar o paciente durante e depois da luta contra o câncer.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORL
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