Pesquisa da Universidade de Queensland mostra que pessoas com transtornos mentais graves continuam morrendo mais cedo que a população geral; desigualdades sociais e problemas de saúde física estão entre os fatores que ajudam a explicar essa diferença
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma nova pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, chama atenção para uma realidade que vai muito além dos sintomas psicológicos e psiquiátricos: pessoas que vivem com transtornos mentais graves apresentam uma expectativa de vida significativamente menor do que a população em geral.
De acordo com o estudo, publicado em 18 de setembro de 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Western Pacific, homens com transtornos mentais graves morrem, em média, cerca de 12 anos mais cedo, enquanto entre as mulheres a diferença chega a aproximadamente 10 anos.
Os pesquisadores analisaram a evolução da mortalidade ao longo de um período de 14 anos e identificaram alguns sinais positivos. A expectativa de vida de pessoas com condições graves de saúde mental apresentou melhora nesse intervalo. Ainda assim, a desigualdade permanece expressiva.
O resultado reforça uma questão importante: cuidar da saúde mental não significa apenas controlar sintomas psiquiátricos. Para aumentar a longevidade e a qualidade de vida desses pacientes, também é necessário olhar de maneira integrada para a saúde física, as condições sociais e o acesso aos serviços de saúde.
Uma diferença que ainda preocupa
Os avanços no diagnóstico, no tratamento e na atenção à saúde mental ajudaram a melhorar alguns indicadores ao longo dos últimos anos. Entretanto, os benefícios não foram distribuídos de maneira uniforme entre todos os grupos.
Segundo os pesquisadores, a mortalidade entre pessoas com condições graves de saúde mental diminuiu em determinados contextos, mas a diferença em relação à população geral continua significativa.
Um dos pontos que mais preocupa a equipe é a situação das pessoas com transtornos psicóticos, como a esquizofrenia. Nesse grupo, a redução da mortalidade apresentou sinais de estagnação.
Para os cientistas, esse cenário pode indicar que justamente as pessoas que apresentam quadros mais complexos continuam enfrentando dificuldades para receber cuidados adequados e abrangentes.
A questão é especialmente relevante porque os transtornos mentais graves frequentemente coexistem com problemas físicos que também afetam a expectativa de vida.
Saúde mental e saúde física não podem ser separadas
Um dos principais alertas levantados pela pesquisa é a necessidade de abandonar uma visão que trata a saúde mental e a saúde física como áreas completamente independentes.
Pessoas com transtornos mentais graves podem apresentar maior risco de desenvolver doenças físicas, enquanto determinadas condições relacionadas ao tratamento ou ao próprio quadro psiquiátrico podem dificultar a adoção de hábitos considerados importantes para a saúde.
Entre os fatores citados pelos pesquisadores está o ganho de peso, que pode ocorrer como consequência de efeitos colaterais de alguns medicamentos utilizados no tratamento de transtornos mentais.
O problema pode ser agravado quando o paciente apresenta baixos níveis de atividade física.
A falta de exercícios, por sua vez, está associada a diversos fatores de risco para doenças cardiovasculares, metabólicas e outras condições que podem comprometer a saúde ao longo dos anos.
Por isso, os pesquisadores defendem que o acompanhamento de pessoas com transtornos mentais graves deve incluir também atenção sistemática à saúde física.
O impacto das condições sociais
A pesquisa também chama atenção para um componente que muitas vezes fica em segundo plano: as condições socioeconômicas.
As desigualdades sociais podem influenciar diretamente a possibilidade de uma pessoa receber diagnóstico, iniciar tratamento e manter acompanhamento médico adequado.
Questões como renda, acesso aos serviços de saúde, condições de moradia, alimentação, oportunidades de praticar atividade física e disponibilidade de profissionais especializados podem interferir na evolução de diferentes doenças.
Nesse sentido, a diferença na expectativa de vida não pode ser explicada apenas pelo diagnóstico psiquiátrico.
O ambiente em que a pessoa vive e as condições que determinam seu acesso à saúde também fazem parte da equação.
Por que a esquizofrenia preocupa especialmente?
Entre os transtornos citados no estudo estão condições como esquizofrenia, depressão e outros transtornos relacionados à saúde mental, além de problemas associados ao uso de álcool e drogas.
A esquizofrenia merece atenção especial porque está entre os quadros psiquiátricos mais graves e pode exigir acompanhamento contínuo durante muitos anos.
Além dos sintomas diretamente relacionados ao transtorno, pessoas diagnosticadas podem enfrentar dificuldades adicionais para manter consultas médicas regulares, acompanhar fatores de risco cardiovasculares e metabólicos ou receber tratamento adequado para outras doenças.
Quando essas dificuldades se somam aos efeitos colaterais de determinados medicamentos e à redução da atividade física, o risco para a saúde física pode aumentar.
Por isso, os pesquisadores consideram preocupante o fato de a mortalidade entre pessoas com psicoses graves, como a esquizofrenia, não ter apresentado a mesma evolução observada em outros grupos.
Exercício físico também faz parte do cuidado
A atividade física aparece como um dos elementos importantes na discussão sobre a saúde integral de pessoas com transtornos mentais.
A prática regular de exercícios pode contribuir para a saúde cardiovascular, ajudar no controle do peso e melhorar diferentes aspectos do bem-estar.
Além dos benefícios físicos, a atividade física também pode contribuir para a saúde mental, embora não substitua o tratamento médico ou psicológico indicado para cada pessoa.
Para pacientes que utilizam medicamentos associados ao ganho de peso, por exemplo, acompanhamento profissional pode ser importante para estabelecer estratégias seguras de alimentação, movimento e controle de fatores metabólicos.
O objetivo, portanto, não é responsabilizar o paciente por sua condição física, mas garantir que ele tenha acesso às ferramentas necessárias para cuidar de sua saúde de maneira completa.
Um alerta para os sistemas de saúde
Os resultados do estudo também representam um alerta para os sistemas de saúde e para as políticas públicas.
Se pessoas com transtornos mentais graves continuam apresentando uma expectativa de vida muito inferior à população geral, o tratamento precisa considerar mais do que os sintomas psiquiátricos.
Isso significa integrar consultas, exames preventivos, acompanhamento de peso, avaliação cardiovascular, orientação sobre atividade física e outros cuidados médicos ao tratamento de saúde mental.
A integração entre profissionais de diferentes áreas pode ser fundamental para identificar problemas físicos precocemente e evitar que condições potencialmente tratáveis evoluam para situações mais graves.
Houve melhora, mas ainda existe uma grande desigualdade
Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é que ela não aponta simplesmente para uma piora generalizada.
Pelo contrário: os pesquisadores identificaram melhorias na expectativa de vida de pessoas com doenças mentais graves ao longo dos 14 anos analisados.
O problema é que a evolução não foi suficiente para eliminar a diferença em relação à população geral.
Isso significa que avanços no tratamento da saúde mental podem estar produzindo resultados, mas ainda existe um grupo de pacientes que não está se beneficiando desses avanços na mesma proporção.
Para os pesquisadores, a prioridade deve ser justamente compreender por que essa parcela da população continua apresentando níveis tão elevados de mortalidade.
Cuidar da mente também é cuidar do corpo
A principal mensagem deixada pelo estudo é que saúde mental e saúde física precisam ser tratadas como partes de um mesmo cuidado.
O diagnóstico de um transtorno mental grave não determina sozinho quanto tempo uma pessoa irá viver. A expectativa de vida é influenciada por diversos fatores, incluindo condições sociais, acesso à saúde, presença de outras doenças, estilo de vida, tratamento recebido e acompanhamento médico.
Por isso, os resultados não devem ser interpretados como uma sentença individual para quem possui um transtorno mental.
Em vez disso, a pesquisa evidencia uma desigualdade que pode e deve ser enfrentada.
Garantir tratamento psiquiátrico adequado, acompanhamento médico contínuo, prevenção de doenças físicas e melhores condições sociais pode representar um passo importante para diminuir a diferença na expectativa de vida.
Mais do que tratar a doença quando ela aparece, o desafio está em construir um modelo de cuidado capaz de acompanhar a pessoa como um todo.
A saúde mental não existe separada do restante do organismo. E reduzir a mortalidade entre pessoas com transtornos mentais graves pode depender justamente de reconhecer que cuidar da mente também significa cuidar do corpo, das condições de vida e do acesso à saúde.
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