Novo programa do governo americano pretende acompanhar pessoas que eram crianças, adolescentes ou estavam no útero durante os atentados e investigar possíveis consequências de longo prazo da exposição aos contaminantes do World Trade Center
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Vinte e cinco anos após os ataques de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos se preparam para ampliar uma das principais investigações sobre as consequências de saúde deixadas pela tragédia: os efeitos da exposição à poeira tóxica sobre as pessoas que eram crianças ou adolescentes na época. Cerca de 25 mil crianças viviam ou estudavam na região de Lower Manhattan naquele dia, incluindo bebês e crianças que ainda estavam no útero. Muitas tiveram contato com a nuvem de poeira e os resíduos liberados após o colapso das torres do World Trade Center, mas essa população não foi acompanhada de forma abrangente pelos primeiros grandes estudos governamentais sobre os efeitos de longo prazo da exposição.
A nova iniciativa será coordenada pelo World Trade Center Health Program, administrado pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), ligado aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). O programa prevê a criação do World Trade Center Youth Research Coordinating Center, destinado a estabelecer e manter uma grande coorte de pessoas que tinham até 21 anos no período da exposição aos efeitos dos atentados. A iniciativa foi determinada por uma alteração na legislação federal aprovada pelo Congresso em dezembro de 2022.
Nova geração será acompanhada décadas depois da tragédia
A proposta surge diante de uma lacuna científica que permaneceu durante anos. Os principais esforços de acompanhamento após o 11 de Setembro concentraram-se em bombeiros, policiais, equipes de resgate, trabalhadores de limpeza e outros adultos diretamente expostos. Embora crianças tenham sido incluídas em algumas pesquisas e no World Trade Center Health Registry, não existia até agora uma coorte nacionalmente estruturada especificamente para permitir estudos futuros de longo prazo sobre essa população.
Segundo o CDC, a nova Youth Research Cohort deverá incluir pessoas que tinham 21 anos ou menos e estavam em áreas determinadas de Nova York durante o período de exposição, incluindo a região de Manhattan ao sul da 14ª Rua e todo o Brooklyn. O grupo também poderá incluir pessoas que estavam no útero durante o período de exposição e populações de comparação consideradas adequadas para as pesquisas.
A intenção é criar uma base suficientemente ampla para permitir estudos futuros sobre os impactos físicos, mentais e educacionais associados à exposição aos contaminantes e a outros riscos relacionados aos ataques de 2001. O objetivo não é apenas identificar doenças que já tenham surgido, mas também acompanhar possíveis consequências que podem aparecer décadas depois.
O que havia na poeira do World Trade Center
O colapso das torres e dos edifícios próximos lançou no ambiente uma enorme quantidade de partículas e materiais provenientes da destruição. Estudos descrevem a presença de poeira de concreto pulverizado, fibras de vidro, amianto e outros poluentes. Crianças que estavam nas proximidades puderam ser expostas diretamente à nuvem de poeira, enquanto outras tiveram contato com resíduos que permaneceram em casas, escolas e outros espaços durante o período posterior aos ataques.
O próprio histórico do World Trade Center Health Registry mostra a dimensão da exposição. Criado em 2002, o registro acompanha mais de 71 mil pessoas e reúne trabalhadores de resgate e recuperação, moradores, trabalhadores da região, estudantes e funcionários de escolas que estavam na área afetada. Entre os participantes, 51% relataram ter ficado dentro da nuvem de poeira.
Pesquisas anteriores já encontraram problemas respiratórios em crianças
Embora o novo estudo represente uma expansão significativa do acompanhamento, pesquisas anteriores já haviam identificado sinais importantes entre crianças expostas ao desastre.
Um estudo publicado com dados do World Trade Center Health Registry avaliou 3.184 crianças. Segundo o trabalho disponibilizado pelo CDC, 45% relataram exposição à nuvem de poeira. Mais da metade informou pelo menos um sintoma respiratório novo ou agravado, e 5,7% relataram diagnóstico de asma após os ataques. Entre as crianças menores de 5 anos, a prevalência de asma ficou acima das estimativas nacionais, e a exposição à nuvem de poeira foi associada a maior probabilidade de novo diagnóstico de asma.
Outro acompanhamento, envolvendo 985 crianças, também encontrou associação entre exposição à nuvem de poeira e maior frequência de sintomas respiratórios. Entre crianças de 5 a 10 anos, os sintomas respiratórios eram mais de duas vezes mais frequentes entre aquelas que haviam sido expostas à nuvem de poeira.
Esses resultados não significam que toda criança exposta desenvolverá uma doença relacionada ao 11 de Setembro. Eles, porém, reforçam a necessidade de acompanhar a população durante um período muito mais longo, especialmente porque os indivíduos que eram crianças em 2001 hoje são adultos.
Câncer, coração e saúde reprodutiva estão entre as questões investigadas
Um dos principais motivos para a criação da nova coorte é justamente permitir que os pesquisadores acompanhem possíveis consequências que podem levar muitos anos para aparecer.
De acordo com informações divulgadas pela Reuters, os pesquisadores pretendem investigar questões relacionadas a doenças crônicas, incluindo câncer, doenças cardiovasculares e resultados relacionados à saúde reprodutiva. A preocupação é particularmente relevante porque muitos dos indivíduos expostos durante a infância atualmente estão chegando aos 30 e 40 anos, fase da vida em que determinadas condições de saúde começam a se tornar mais identificáveis.
O CDC, por sua vez, define oficialmente a coorte como uma estrutura para futuras pesquisas sobre os impactos à saúde e à educação decorrentes da exposição aos acontecimentos de 11 de Setembro. Isso significa que o novo programa funcionará como uma plataforma de pesquisa de longo prazo, permitindo que diferentes estudos sejam realizados posteriormente com os participantes.
Estudo poderá receber até US$ 50 milhões
A dimensão do projeto também chama atenção. O CDC publicou em julho de 2026 uma previsão oficial de financiamento para a criação do World Trade Center Youth Research Coordinating Center. O programa prevê até US$ 50 milhões em financiamento e a expectativa é de concessão de um acordo cooperativo para a instituição selecionada.
Em agosto, o próprio World Trade Center Health Program confirmou que havia publicado a previsão da oportunidade de financiamento e orientou possíveis candidatos a se prepararem para a futura abertura oficial do processo.
Segundo a previsão atualmente disponível, o projeto deverá avançar em 2027, com início estimado para julho daquele ano. A programação ainda está sujeita aos procedimentos oficiais de financiamento e seleção.
Por que o estudo acontece somente agora?
A demora está relacionada, em grande parte, à forma como os primeiros esforços de pesquisa e monitoramento foram estruturados depois dos atentados. Os programas de saúde foram inicialmente direcionados sobretudo às pessoas que participaram diretamente do resgate, recuperação e limpeza do local, além de trabalhadores e outros adultos expostos.
Ao longo dos anos, entretanto, pesquisadores passaram a identificar a necessidade de compreender melhor o impacto do desastre sobre crianças e jovens. Em 2022, o Congresso americano alterou a legislação para determinar a criação de uma coorte de pesquisa voltada às pessoas que tinham até 21 anos no momento da exposição.
O CDC iniciou posteriormente o planejamento da nova coorte, envolvendo pesquisadores, profissionais de saúde, sobreviventes e integrantes da comunidade afetada. Em dezembro de 2025, o órgão informou que continuava avançando na estruturação do projeto.
Uma investigação que pode acompanhar os efeitos por toda a vida
A expectativa é que a nova estrutura permita acompanhar uma geração inteira que foi exposta aos efeitos do 11 de Setembro em uma fase particularmente vulnerável do desenvolvimento.
O projeto também poderá ajudar os pesquisadores a compreender melhor os efeitos de exposições tóxicas durante a infância e até mesmo durante a gestação. Além das consequências físicas, a legislação prevê pesquisas sobre impactos educacionais, enquanto o planejamento do CDC contempla os efeitos físicos e mentais relacionados à exposição.
A iniciativa ganha importância adicional no momento em que os Estados Unidos chegam ao 25º aniversário dos atentados. Segundo o Departamento de Saúde de Nova York, o World Trade Center Health Registry continua acompanhando cerca de 71 mil pessoas e, ao longo de mais de duas décadas, tem contribuído para identificar condições de saúde de longo prazo entre indivíduos expostos ao desastre.
O novo estudo, portanto, não representa apenas uma investigação sobre o passado. Ele pretende responder uma pergunta que permanece aberta um quarto de século depois: quais foram e quais ainda poderão ser as consequências de uma exposição tóxica sofrida durante a infância ou antes mesmo do nascimento?
A resposta poderá ajudar não apenas as pessoas afetadas pelo 11 de Setembro, mas também orientar autoridades e profissionais de saúde diante de futuras situações de grandes desastres ambientais e exposições tóxicas envolvendo crianças.
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