Declaração ocorre em meio à cobrança de Washington por medidas mais duras contra o crime organizado e à discussão sobre petróleo, minerais críticos e terras raras
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou uma reação direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (18). Em discurso, Lula afirmou que não aceita o enquadramento adotado pelo governo de Donald Trump e passou a tratar o conceito de terrorismo a partir dos acontecimentos relacionados ao 8 de Janeiro.
A posição brasileira contrasta com a adotada por Washington, que colocou as duas facções no centro de sua política de enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em relatório divulgado nesta semana, o governo Trump afirmou que o Brasil não teria enfrentado de forma suficiente as organizações criminosas e cobrou medidas mais agressivas contra grupos considerados ameaças à segurança internacional.
Lula declarou:
“Nós precisamos ganhar do crime organizado. E eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas, como diz o [Donald] Trump. Quando o Trump fala em terrorismo, ele fala em terrorismo de Estado, ele não fala da luta e da briga pelo poder. Quem fazia isso? O Bolsonaro tentando dar o golpe no 8 de Janeiro. Isso é terrorismo, pensando em matar Lula, Alckmin e até o Alexandre de Moraes. Isso é terrorismo de Estado”
A fala coloca 8 de Janeiro e a investigação sobre uma suposta tentativa de ruptura institucional no centro da resposta de Lula, enquanto a decisão americana concentra-se na atuação de organizações criminosas brasileiras com conexões internacionais.
Trump aumenta pressão sobre o combate às facções
O governo americano vem adotando uma postura mais rigorosa em relação ao PCC e ao Comando Vermelho. A classificação como organizações terroristas amplia o alcance das medidas que podem ser utilizadas pelos Estados Unidos contra integrantes, financiadores e estruturas relacionadas às facções.
Em documento encaminhado ao Congresso americano, Trump afirmou que os grupos brasileiros representam uma ameaça crescente à segurança internacional e defendeu uma atuação mais firme para impedir a expansão dessas organizações.
A avaliação de Washington também coloca em questionamento a capacidade brasileira de conter o avanço do crime organizado. O governo brasileiro contestou essa avaliação e afirma que realiza operações contra as facções e mantém cooperação internacional no combate ao tráfico de drogas e armas.
Facções controlam territórios e pressionam moradores
O debate ocorre em meio a uma realidade de violência que afeta diretamente áreas dominadas por organizações criminosas. Facções e milícias exercem controle sobre territórios, interferem na rotina de moradores e desafiam a atuação das forças de segurança.
Durante o evento, Lula afirmou que pretende recuperar áreas ocupadas pelo crime caso seja reeleito. Também mencionou a PEC da Segurança Pública, em discussão no Congresso, e voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública.
A discussão sobre a classificação das facções, portanto, não se limita à terminologia utilizada pelos governos. O ponto central envolve como organizações criminosas com atuação transnacional devem ser enfrentadas e quais instrumentos podem ser utilizados para interromper suas atividades.
Presidente associa pressão americana a recursos brasileiros
Além da segurança, Lula relacionou a atuação de Trump a interesses sobre recursos estratégicos do Brasil. O presidente mencionou petróleo, minerais críticos e terras raras ao defender investimentos na proteção das fronteiras.
Segundo Lula:
“O petróleo [da Margem Equatorial] parece que é de melhor qualidade. Então, nós temos que tomar conta disso […], porque o Trump está aí atrás de minerais críticos, petróleo, terras raras. Não! Isso daqui é nosso. Como vamos controlar 18 mil quilômetros de fronteira sem investimento?”
A declaração acrescenta uma segunda frente de tensão entre Brasília e Washington. De um lado, o governo Trump cobra uma resposta mais dura contra PCC e Comando Vermelho; de outro, Lula rejeita a classificação americana e questiona os interesses dos Estados Unidos sobre recursos estratégicos brasileiros.
O episódio expõe uma divergência cada vez mais direta entre os dois governos sobre segurança, combate ao crime organizado e soberania sobre recursos naturais.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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