Missão brasileira leva cirurgias reconstrutivas a crianças com sequelas de queimaduras em Angola

Foto: Divulgação
Profissionais de saúde do Brasil atuam em casos graves e treinam equipes locais para reduzir as consequências de acidentes domésticos que atingem principalmente crianças
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Em Angola, acidentes domésticos envolvendo fogo e líquidos quentes podem deixar crianças com sequelas permanentes. Em comunidades onde algumas famílias cozinham em fogareiros instalados no chão ou utilizam fogo dentro de casa, a proximidade das crianças com as chamas aumenta o risco de queimaduras. Quando o atendimento especializado demora ou não está disponível, ferimentos que poderiam ser tratados podem evoluir para cicatrizes que comprometem movimentos e funções básicas do corpo.

É nesse cenário que uma equipe de profissionais brasileiros realiza missões humanitárias em Angola. Médicos, enfermeiros, anestesistas, dentistas e outros especialistas participam de atendimentos e cirurgias reconstrutivas, principalmente de pacientes com sequelas provocadas por queimaduras. O trabalho da Kids Salvation, organização sem fins lucrativos fundada para levar assistência médica especializada ao país, também inclui a capacitação de profissionais angolanos para que o atendimento continue depois da saída das equipes estrangeiras.

Crianças estão entre as principais vítimas

O problema não é exclusivo de Angola. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 180 mil pessoas morram todos os anos no mundo em consequência de queimaduras, sendo que a maioria das mortes ocorre em países de baixa e média renda. A organização também aponta que a mortalidade infantil provocada por queimaduras é mais de sete vezes maior nesses países do que nos de alta renda.

Na região africana da OMS, o risco é especialmente elevado entre crianças pequenas. A incidência de mortes por queimaduras entre menores de 5 anos é mais de duas vezes superior à registrada mundialmente para essa faixa etária. Além disso, queimaduras estão entre as principais causas de lesões não fatais na infância e podem provocar hospitalizações prolongadas, deformidades e deficiências.

Um estudo publicado em 2025 com pacientes de até 5 anos atendidos no Hospital Especializado Neves Bendinha, em Angola, encontrou uma concentração expressiva de casos nessa faixa etária. As crianças de 0 a 5 anos representaram 64% dos pacientes analisados, enquanto os casos de crianças de 1 ano corresponderam a 26% do total. O levantamento também apontou predominância de queimaduras térmicas e de segundo grau.

Sequelas podem comprometer movimentos

Quando uma queimadura profunda não recebe tratamento adequado, o processo de cicatrização pode provocar retrações da pele, conhecidas como contraturas. Dependendo da região atingida, essas alterações podem dificultar movimentos do pescoço, braços, pernas e mãos, além de comprometer a abertura da boca.

Durante as missões em Angola, os profissionais brasileiros encontram pacientes que convivem há meses ou até anos com essas limitações. Em alguns casos, a cicatriz impede atividades simples do cotidiano, como levantar os braços ou movimentar normalmente o pescoço. Quando a sequela é muito antiga, parte da perda funcional pode ser permanente.

Um dos objetivos das cirurgias é justamente liberar essas retrações e reconstruir as áreas afetadas. Dependendo de cada caso, os especialistas podem utilizar técnicas de reconstrução com enxertos ou retalhos de pele. O tratamento precoce, porém, continua sendo fundamental para reduzir o risco de complicações e limitações futuras.

Uma menina de 3 anos entre os casos mais graves

Entre os pacientes atendidos recentemente estava uma menina de 3 anos que sofreu uma queimadura grave no rosto depois de se aproximar do fogo enquanto a mãe estava fora. Segundo o relato da equipe médica, o acidente provocou lesões profundas e comprometeu partes do nariz, do lábio e de um dos olhos.

A criança permaneceu internada por cerca de dois meses antes da chegada da equipe brasileira. A reconstrução exigiu uma cirurgia complexa, com enxertos de pele e mais de 200 pontos, em um procedimento que durou aproximadamente 11 horas.

Casos como esse mostram que o trabalho da missão não se limita à realização de procedimentos cirúrgicos. A equipe também busca fortalecer a capacidade dos profissionais locais para que crianças e adultos possam receber atendimento adequado desde os primeiros momentos após uma queimadura.

Capacitação é parte da missão

A Kids Salvation informa que sua atuação em Angola combina cirurgias reparadoras, atendimento multidisciplinar e treinamento de profissionais de saúde. A organização afirma que a capacitação é uma estratégia para criar uma estrutura de atendimento que permaneça no país mesmo quando os voluntários brasileiros retornam ao Brasil.

A iniciativa já vinha sendo desenvolvida antes da missão de 2026. Em 2024, a Sociedade Brasileira de Queimaduras relatou uma ação de profissionais brasileiros em Angola e destacou a dificuldade de acesso ao tratamento especializado no país, além da necessidade de capacitar equipes locais para o atendimento de pacientes queimados.

Em setembro de 2026, uma nova missão da organização foi realizada no Hospital Central do Lubango, com previsão de mais de 500 atendimentos e entre 30 e 35 cirurgias de alta complexidade. A ação envolveu 27 voluntários, incluindo 20 médicos cirurgiões, e contemplou casos de queimaduras, cirurgias bucomaxilofaciais, tumores de pele e outras condições que exigem atendimento especializado.

Um problema que ultrapassa as fronteiras de Angola

A realidade encontrada pelos voluntários brasileiros expõe uma questão mais ampla de saúde pública: sobreviver a uma queimadura grave nem sempre significa recuperar a qualidade de vida. Sem tratamento adequado, a cicatrização pode resultar em dor, deformidades, perda de mobilidade e limitações que acompanham o paciente durante anos.

Para a OMS, queimaduras são um problema global e, em grande parte dos casos, podem ser prevenidas. Os acidentes acontecem principalmente em ambientes domésticos e afetam de maneira desproporcional populações vulneráveis, especialmente em locais onde existem condições precárias de moradia, acesso limitado a equipamentos seguros para cozinhar e dificuldades para obter atendimento médico especializado.

Em Angola, a missão brasileira tenta atuar em duas frentes: reconstruir o que os acidentes deixaram como sequela e, ao mesmo tempo, ampliar o conhecimento das equipes locais para que futuros pacientes tenham maiores chances de receber atendimento adequado. O objetivo, segundo a organização, é fazer com que cada cirurgia represente não apenas uma intervenção individual, mas também um passo para fortalecer a assistência médica no país.

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