Tecnologia usada no rastreamento do câncer de mama agora ajuda médicos a identificar sinais precoces de doenças cardiovasculares, principal causa de morte entre mulheres no mundo
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Um exame já conhecido por salvar vidas no combate ao câncer de mama pode, em breve, ganhar uma nova e poderosa função: detectar sinais silenciosos de doenças cardiovasculares antes mesmo do surgimento dos sintomas. Um estudo publicado no tradicional European Heart Journal revelou que a mamografia associada à inteligência artificial (IA) pode identificar depósitos de cálcio nas artérias mamárias um importante indicativo de aterosclerose, condição ligada ao entupimento dos vasos sanguíneos e ao aumento do risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
A descoberta abre caminho para uma abordagem mais ampla da saúde feminina, integrando prevenção oncológica e cardiovascular em um único exame de rotina. Para especialistas, o avanço pode representar uma mudança significativa na forma como mulheres são monitoradas clinicamente, especialmente após os 40 anos.
A pesquisa analisou dados de 123.762 mulheres sem histórico prévio de doença cardiovascular submetidas à mamografia de rotina nos Estados Unidos. Utilizando algoritmos de IA, os pesquisadores conseguiram medir a presença de calcificações nas artérias mamárias alterações frequentemente associadas ao envelhecimento vascular e ao endurecimento das artérias.
Segundo os cientistas, essas calcificações funcionam como um “alerta silencioso” para o risco cardiovascular. Embora não indiquem diretamente um infarto iminente, refletem um processo sistêmico de aterosclerose que pode comprometer a circulação sanguínea ao longo do tempo.
A cardiologista Sofia Lagudis, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que o estudo chama atenção para uma realidade pouco discutida entre as mulheres: o coração mata mais do que o câncer de mama.
“Pesquisas mostram que as mulheres temem muito o câncer de mama, mas ainda têm pouca consciência sobre o risco cardiovascular, que continua sendo a principal causa de morte feminina. Muitas fazem mamografia regularmente, mas negligenciam exames preventivos cardíacos”, explicou a especialista.
A possibilidade de aproveitar um exame já amplamente realizado para identificar fatores de risco cardíaco é vista por médicos como uma estratégia promissora de prevenção. Isso porque as doenças cardiovasculares costumam evoluir silenciosamente durante anos.
O cardiologista Tito Paladino, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, pondera, no entanto, que a mamografia não substitui exames específicos do coração.
“Não há justificativa para solicitar uma mamografia com o objetivo principal de investigar doença coronária. Existem métodos mais específicos para isso. Porém, quando o exame já é realizado para rastreamento do câncer de mama, essas informações adicionais podem ser extremamente valiosas”, afirmou.
Os especialistas ressaltam que o acúmulo de cálcio nas artérias representa um processo cumulativo e irreversível, reforçando a importância do controle dos fatores de risco ao longo da vida. Entre as principais recomendações médicas estão:
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manter pressão arterial, colesterol e glicemia sob controle;
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evitar cigarro e consumo excessivo de álcool;
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praticar atividade física regularmente;
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manter alimentação equilibrada;
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preservar o peso saudável;
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reduzir o estresse e melhorar a qualidade do sono.
A atenção se torna ainda mais importante durante o climatério e após a menopausa, fases em que a proteção hormonal feminina diminui e o risco cardiovascular aumenta consideravelmente.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que ainda são necessários novos estudos para validar a tecnologia em larga escala e adaptar os sistemas de IA aos diferentes aparelhos de mamografia utilizados ao redor do mundo.
Para os médicos, no entanto, o avanço já representa um importante passo rumo à medicina preventiva personalizada, em que exames de rotina podem oferecer informações muito além de sua finalidade original.
A união entre inteligência artificial e diagnóstico por imagem vem transformando silenciosamente a medicina moderna e, neste caso, pode ajudar milhares de mulheres a descobrir precocemente riscos que antes passavam despercebidos.
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