Produção nacional da cladribina oral pela Fiocruz promete reduzir custos, fortalecer a autonomia farmacêutica do país e facilitar o acesso a uma terapia que pode controlar a doença por anos com apenas alguns dias de tratamento
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma nova etapa no tratamento da esclerose múltipla começa a ser desenhada no Brasil. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a farmacêutica Merck e a Nortec Química, anunciou a produção nacional da cladribina oral, medicamento de alta tecnologia utilizado no combate à esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR), a forma mais comum da doença. A iniciativa representa um avanço significativo para milhares de brasileiros que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), ao ampliar o acesso a uma terapia inovadora, reduzir a dependência de importações e fortalecer a capacidade produtiva da indústria farmacêutica nacional.
A esclerose múltipla é uma doença neurológica, crônica e autoimune, na qual o sistema imunológico ataca a mielina, estrutura que protege as fibras nervosas responsáveis pela transmissão dos impulsos elétricos entre cérebro, medula espinhal e outras partes do corpo. A condição pode provocar sintomas variados, como perda de força muscular, alterações de equilíbrio, visão embaçada, fadiga intensa e dificuldades motoras, afetando diretamente a qualidade de vida dos pacientes.
Segundo dados da Fiocruz e entidades da área de saúde, cerca de 40 mil brasileiros convivem atualmente com a doença, que atinge principalmente mulheres jovens entre 20 e 40 anos.
Uma terapia que muda o conceito de tratamento contínuo
Comercializada internacionalmente sob o nome Mavenclad, a cladribina oral é considerada um dos tratamentos mais inovadores disponíveis para a esclerose múltipla remitente-recorrente altamente ativa.
Diferentemente de muitas terapias convencionais, que exigem aplicações frequentes, infusões hospitalares ou uso diário de medicamentos, a cladribina é administrada em ciclos curtos. O protocolo terapêutico prevê apenas 20 dias de tratamento distribuídos ao longo de dois anos, podendo proporcionar benefícios clínicos sustentados por até quatro anos após a conclusão do esquema medicamentoso.
Na prática, o paciente realiza cinco dias de tratamento em um mês e outros cinco dias no mês seguinte. O mesmo procedimento é repetido no segundo ano. Após esse período, muitos pacientes permanecem sem necessidade de novas medicações, mantendo apenas o acompanhamento médico especializado.
Especialistas destacam que essa característica reduz significativamente a carga física e emocional associada aos tratamentos contínuos, permitindo maior autonomia e melhor qualidade de vida.
Reconhecimento internacional
A relevância da cladribina ultrapassa as fronteiras brasileiras. O medicamento é atualmente o único tratamento para esclerose múltipla incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconhecimento concedido a terapias consideradas fundamentais para os sistemas públicos de saúde em todo o mundo.
Resultados apresentados durante o Congresso Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) demonstraram redução das lesões neuronais após dois anos de tratamento com a medicação. Além disso, estudos de acompanhamento de longo prazo envolvendo centenas de pacientes apontaram que a maioria conseguiu preservar a mobilidade e manter independência funcional ao longo dos anos.
Produção nacional deve ampliar acesso e reduzir custos
A fabricação da cladribina em território brasileiro será realizada por Farmanguinhos, unidade produtiva da Fiocruz, por meio de um acordo de transferência de tecnologia com a Merck, detentora da patente do medicamento, e a Nortec Química, responsável pela produção do insumo farmacêutico ativo (IFA).
Além de fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), a iniciativa deverá reduzir os custos de aquisição da medicação pelo governo federal, permitindo a ampliação do número de pacientes atendidos pelo SUS. Atualmente, estimativas apontam que o tratamento pode alcançar valores próximos de R$ 140 mil por paciente ao longo de cinco anos.
A produção nacional também diminui a vulnerabilidade do país diante de oscilações no mercado internacional e garante maior segurança no abastecimento de medicamentos estratégicos para a população.
Impacto direto na vida dos pacientes
Para quem convive diariamente com a esclerose múltipla, o benefício da nova terapia vai além dos resultados clínicos. A possibilidade de passar anos sem tratamentos contínuos representa uma mudança profunda na relação dos pacientes com a doença.
Especialistas ressaltam ainda que a redução da necessidade de visitas frequentes a hospitais e centros de infusão pode favorecer a adesão ao tratamento e proporcionar mais liberdade para atividades profissionais, familiares e sociais.
Outro aspecto considerado importante pelos neurologistas é o planejamento familiar. Após o período recomendado de acompanhamento médico, muitas mulheres tratadas com a cladribina podem planejar gravidez e amamentação com maior segurança, ampliando perspectivas de vida para pacientes em idade fértil.
Avanço estratégico para a saúde pública brasileira
A produção nacional da cladribina oral marca um passo importante para a política de fortalecimento da indústria farmacêutica brasileira e para a sustentabilidade do SUS. Mais do que a fabricação de um medicamento de alta complexidade, a iniciativa representa um investimento em autonomia tecnológica, inovação e acesso à saúde.
Para milhares de brasileiros que enfrentam diariamente os desafios da esclerose múltipla, a novidade simboliza não apenas um avanço terapêutico, mas também uma nova perspectiva de qualidade de vida, independência e esperança para o futuro.
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