Medicamento experimental VERVE-102 edita o DNA para desligar gene ligado ao colesterol LDL; efeitos foram mantidos por até 18 meses em estudo clínico
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma única aplicação intravenosa de uma terapia genética experimental foi capaz de reduzir significativamente os níveis de colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”, reacendendo as expectativas de uma nova era no tratamento das doenças cardiovasculares. O medicamento VERVE-102, desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly em parceria com a Verve Therapeutics, demonstrou reduções de até 88% da proteína PCSK9 e de até 62% a 66% do colesterol LDL em participantes de um estudo clínico inicial, cujos resultados foram publicados no renomado New England Journal of Medicine (NEJM).
A descoberta representa um avanço importante na medicina genética porque, diferentemente dos tratamentos atuais que exigem uso contínuo de medicamentos, o VERVE-102 foi projetado para atuar diretamente no DNA das células do fígado, promovendo uma alteração permanente capaz de reduzir a produção da proteína PCSK9, uma das principais responsáveis pela regulação dos níveis de colesterol no organismo.
Como funciona a nova terapia
O VERVE-102 utiliza uma tecnologia chamada edição de base genética (base editing), considerada uma versão mais precisa da edição genética convencional. A terapia é administrada por infusão intravenosa e transporta para o fígado instruções genéticas capazes de desativar permanentemente o gene PCSK9.
Quando esse gene é desligado, o fígado passa a remover o colesterol LDL da corrente sanguínea com muito mais eficiência. O resultado é uma redução duradoura dos níveis de colesterol, potencialmente eliminando a necessidade de tratamentos frequentes ao longo da vida.
Segundo os pesquisadores, a estratégia busca reproduzir um fenômeno observado naturalmente em algumas pessoas que nasceram com variantes genéticas que inativam o PCSK9. Esses indivíduos apresentam níveis muito baixos de colesterol LDL e risco significativamente menor de desenvolver doenças coronarianas.
Resultados animadores
Os dados divulgados referem-se ao estudo clínico Heart-2, de Fase 1b, que avaliou 35 participantes com hipercolesterolemia familiar heterozigótica ou doença arterial coronariana precoce.
Os resultados mostraram que uma única dose do VERVE-102 promoveu reduções progressivas da proteína PCSK9, variando entre 51% e 88%, dependendo da dose administrada. As reduções correspondentes do colesterol LDL chegaram a 62% nos participantes que receberam a maior dose testada.
Além da magnitude da resposta, os cientistas destacaram a durabilidade do efeito. Em alguns participantes acompanhados por até 18 meses, os níveis reduzidos de colesterol permaneceram estáveis durante todo o período de observação.
Outro aspecto considerado positivo foi o perfil de segurança observado até o momento. Os pesquisadores relataram ausência de eventos adversos graves relacionados ao tratamento e não identificaram toxicidades limitantes de dose durante o estudo.
Potencial para transformar o tratamento
Especialistas avaliam que a terapia poderá representar uma mudança de paradigma no combate às doenças cardiovasculares, principal causa de morte no mundo.
Atualmente, pacientes com colesterol elevado dependem principalmente de estatinas, inibidores de PCSK9 ou outras medicações de uso contínuo. Embora eficazes, esses tratamentos exigem adesão permanente e, em muitos casos, não conseguem manter os níveis ideais de colesterol ao longo da vida.
O cardiologista Riyaz Patel, pesquisador envolvido no estudo, afirmou que os resultados fornecem evidências iniciais de que a edição genética do gene PCSK9 pode oferecer uma forma duradoura de controle do colesterol LDL por meio de uma única intervenção terapêutica.
Ainda não disponível para pacientes
Apesar do entusiasmo gerado pelos resultados, os especialistas ressaltam que o VERVE-102 continua sendo um medicamento experimental.
O estudo divulgado corresponde apenas à fase inicial de desenvolvimento clínico, cujo principal objetivo é avaliar segurança e determinar a dose adequada para pesquisas futuras.
Antes de chegar aos consultórios, o tratamento precisará passar por estudos maiores nas fases 2 e 3, envolvendo centenas ou milhares de participantes, para confirmar sua eficácia e segurança em longo prazo.
Somente após a conclusão dessas etapas será possível solicitar aprovação junto a órgãos reguladores como a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil.
A Eli Lilly informou que pretende iniciar os estudos de Fase 2 ainda este ano.
O que dizem os cientistas
No artigo publicado pelo New England Journal of Medicine, os autores concluíram que uma única dose de VERVE-102 produziu reduções substanciais, dependentes da dose e sustentadas ao longo do tempo nos níveis de PCSK9 e colesterol LDL.
Embora os resultados sejam considerados promissores, os pesquisadores enfatizam que será necessário acompanhar os participantes por mais tempo e realizar estudos maiores para confirmar os benefícios clínicos e avaliar eventuais riscos associados à edição permanente do DNA humano.
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