Surto cresce nos Estados Unidos, Canadá e México às vésperas do maior evento esportivo do planeta; autoridades sanitárias intensificam medidas para evitar disseminação internacional da doença
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, autoridades de saúde das Américas estão em estado de alerta diante do avanço expressivo dos casos de sarampo nos países que sediarão o torneio. Com milhões de turistas previstos para circular entre Estados Unidos, Canadá e México durante a competição, especialistas temem que a intensa movimentação internacional favoreça a propagação de uma das doenças mais contagiosas conhecidas pela medicina. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) já emitiu recomendações aos países da região para reforçar a vigilância epidemiológica, ampliar a cobertura vacinal e intensificar campanhas preventivas.
O alerta surge em um momento delicado para a saúde pública mundial. Após décadas de esforços para controlar a doença por meio da vacinação, o sarampo voltou a registrar surtos em diferentes partes do planeta, impulsionado principalmente pela queda nas taxas de imunização observada nos últimos anos.
Segundo a OPAS, grandes eventos internacionais representam um risco adicional porque reúnem pessoas de diversas origens geográficas em ambientes com alta concentração populacional, facilitando a circulação do vírus entre indivíduos suscetíveis.
Uma das doenças mais contagiosas do mundo
O sarampo é causado por um vírus transmitido pelo ar por meio de gotículas liberadas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala. A doença é considerada extremamente contagiosa.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 18 indivíduos não imunizados em ambientes fechados. Essa capacidade de disseminação é superior à observada em muitas outras doenças infecciosas.
Os sintomas iniciais incluem febre alta, tosse persistente, coriza e irritação ocular. Dias depois surgem manchas vermelhas características na pele. Embora muitos pacientes se recuperem sem sequelas, a doença pode evoluir para complicações graves, como pneumonia, encefalite, cegueira permanente e até morte.
Crianças pequenas, gestantes, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido estão entre os grupos mais vulneráveis.
Países-sede enfrentam aumento expressivo de casos
Os três países que receberão os jogos da Copa do Mundo estão entre os mais afetados pelo avanço recente do sarampo nas Américas.
Dados divulgados pela OPAS apontam que o México lidera o número de registros em 2026, ultrapassando 10 mil casos confirmados e contabilizando 13 mortes relacionadas à doença.
Nos Estados Unidos, as autoridades de saúde já registraram quase 2 mil infecções neste ano, enquanto o Canadá ultrapassou a marca de mil casos confirmados.
A situação preocupa epidemiologistas porque o torneio deverá reunir milhões de torcedores em aeroportos, hotéis, centros turísticos e estádios espalhados pelos três países, aumentando significativamente as oportunidades de transmissão.
Além dos países-sede, a Guatemala também enfrenta um cenário preocupante, com mais de 6 mil casos registrados e 12 mortes confirmadas. O Peru contabilizou mais de 300 infecções, enquanto outros países das Américas seguem monitorando casos importados.
Brasil mantém certificado, mas segue vigilante
Embora tenha recuperado em 2024 o certificado de eliminação do sarampo concedido pela Organização Mundial da Saúde, o Brasil continua acompanhando atentamente o cenário internacional.
O reconhecimento significa que o vírus não apresenta circulação sustentada no território nacional. No entanto, especialistas ressaltam que a certificação não impede a entrada de casos vindos do exterior.
Segundo o Ministério da Saúde, os casos confirmados recentemente no país tiveram relação com viagens internacionais e envolveram pessoas sem vacinação completa.
Atualmente, centenas de notificações seguem sob investigação pelas autoridades sanitárias.
A experiência recente serve como alerta. Em 2019, o Brasil perdeu o certificado de eliminação após enfrentar um período prolongado de transmissão comunitária associado à queda da cobertura vacinal e à importação de casos provenientes de outros países.
Para especialistas, o maior risco está nos chamados “bolsões de não vacinados”, regiões onde a cobertura vacinal permanece abaixo do nível considerado seguro para impedir a circulação do vírus.
Copa do Mundo coloca vigilância epidemiológica à prova
No final de maio, a OPAS publicou um alerta epidemiológico destacando que grandes eventos internacionais podem ampliar significativamente o risco de propagação do sarampo.
A organização orientou os países a reforçarem sistemas de vigilância, ampliarem campanhas de vacinação e garantirem resposta rápida diante da identificação de casos suspeitos.
A entidade também recomenda atenção especial aos viajantes internacionais, sobretudo aqueles que participarão de eventos de massa ligados à Copa do Mundo.
Especialistas destacam que o desafio não está apenas em evitar infecções durante o torneio, mas também em impedir que visitantes retornem aos seus países levando o vírus e provocando novos surtos.
Ministério da Saúde orienta viajantes brasileiros
Como medida preventiva, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional voltada aos brasileiros que pretendem viajar para acompanhar a Copa do Mundo presencialmente.
A principal recomendação é verificar a situação vacinal antes do embarque.
Conforme o Programa Nacional de Imunizações (PNI), crianças entre seis e onze meses devem receber a chamada “dose zero” da vacina. Crianças maiores, adolescentes e adultos devem seguir o esquema vacinal adequado à faixa etária.
A vacina utilizada é a tríplice viral, que protege simultaneamente contra sarampo, caxumba e rubéola. O imunizante está disponível gratuitamente em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país.
Vacinação continua sendo a principal proteção
Especialistas são unânimes ao afirmar que a vacinação permanece sendo a estratégia mais eficaz para prevenir o sarampo e evitar novos surtos.
Além de proteger o indivíduo vacinado, a imunização em larga escala reduz a circulação do vírus e protege pessoas que não podem receber a vacina por razões médicas.
À medida que a contagem regressiva para a Copa do Mundo avança, autoridades sanitárias reforçam que manter a caderneta de vacinação atualizada é uma medida essencial não apenas para quem viajará ao torneio, mas para toda a população.
Mais do que um desafio esportivo e logístico, a Copa de 2026 também será um importante teste para os sistemas de vigilância epidemiológica das Américas, que precisarão demonstrar capacidade de prevenir a reintrodução e a disseminação de uma doença que o continente passou décadas tentando controlar.
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