Controle do HIV sofre retrocessos e ONU alerta para risco de nova crise global

Cortes no financiamento internacional, queda na prevenção e aumento da criminalização de grupos vulneráveis ameaçam décadas de avanços no combate ao HIV, alerta relatório da ONU
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Após décadas de avanços considerados um dos maiores sucessos da saúde pública mundial, o combate ao HIV enfrenta um momento crítico. Um novo relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) alerta que a redução de investimentos em prevenção, tratamento e pesquisa pode provocar um aumento significativo de novas infecções e mortes relacionadas à AIDS nos próximos anos.

O documento, intitulado “United to End AIDS”, divulgado em 12 de junho de 2026, descreve o atual cenário como um “momento perigoso” para a resposta global à epidemia. Segundo a diretora-executiva da UNAIDS, Winnie Byanyima, o mundo enfrenta “a maior tempestade já vista na resposta ao HIV”.

“O corte de financiamentos, combinado com a redução do espaço cívico e a crescente criminalização das populações marginalizadas criou a maior crise enfrentada pelo combate ao HIV desde o início da epidemia”, afirmou Byanyima.

Avanços históricos ameaçados

Desde o início da epidemia, nos anos 1980, a mobilização internacional permitiu avanços extraordinários. As mortes relacionadas à AIDS caíram drasticamente, passando de aproximadamente 1,3 milhão em 2010 para cerca de 570 mil em 2025. Milhões de pessoas tiveram acesso aos medicamentos antirretrovirais, transformando o HIV de uma sentença de morte em uma condição crônica controlável.

Apesar desse progresso, os números atuais demonstram fragilidade. Cerca de 40,9 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, e aproximadamente nove milhões ainda não recebem tratamento adequado. A ONU alerta que o enfraquecimento dos programas de prevenção pode comprometer décadas de conquistas na saúde global.

Queda expressiva na prevenção

Um dos dados mais preocupantes apresentados pelo relatório refere-se à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), medicamento utilizado para prevenir a infecção pelo HIV. Em 62 países analisados, o número de pessoas utilizando a PrEP caiu 38% entre 2024 e 2025, passando de cerca de 3,3 milhões para 2,1 milhões de usuários.

Além disso, programas de distribuição de preservativos sofreram cortes superiores a 90% em determinadas regiões. A testagem para HIV também apresentou retração significativa, com queda de 22% em países de alta incidência da doença.

Especialistas alertam que menos testes significam mais pessoas vivendo com o vírus sem diagnóstico, favorecendo a transmissão silenciosa e atrasando o início do tratamento.

Mulheres e jovens estão entre os mais vulneráveis

Na África Subsaariana, região mais afetada pela epidemia, cerca de três mil adolescentes e jovens mulheres contraem o HIV semanalmente. A ONU destaca que a desigualdade de gênero, a pobreza e a falta de acesso aos serviços de saúde ampliam a vulnerabilidade dessa população.

Profissionais do sexo, homens que mantêm relações sexuais com outros homens e pessoas em situação de marginalização social também apresentam aumento do risco de infecção, especialmente em países onde legislações restritivas dificultam o acesso aos serviços de prevenção e tratamento.

Aumento da criminalização preocupa a ONU

Pela primeira vez, a UNAIDS registrou um crescimento no número de países que adotaram medidas de criminalização contra grupos vulneráveis ao HIV. Segundo o relatório, leis que restringem direitos de minorias e organizações da sociedade civil dificultam o acesso aos serviços de saúde, aumentam o estigma e reduzem a eficácia das políticas de prevenção.

A agência das Nações Unidas considera que a discriminação e a exclusão social podem ser tão prejudiciais quanto a falta de recursos financeiros, pois afastam milhões de pessoas dos serviços de diagnóstico e tratamento.

Risco de retrocesso global

Modelos apresentados pela ONU indicam que, se a atual crise de financiamento persistir, o mundo poderá registrar milhões de novas infecções e mortes relacionadas à AIDS até o final da década, colocando em risco a meta internacional de acabar com a doença como ameaça à saúde pública até 2030.

Apesar do cenário preocupante, especialistas ressaltam que ainda há possibilidade de reverter a situação. Entre as metas globais estão:

• Garantir tratamento antirretroviral para 40 milhões de pessoas até 2030;
• Expandir o acesso aos medicamentos preventivos para pelo menos 20 milhões de pessoas;
• Oferecer serviços de saúde livres de estigma e discriminação;
• Reforçar os investimentos em prevenção, pesquisa e atendimento comunitário.

Para Winnie Byanyima, o sucesso depende de um compromisso político renovado.

“Se seguirmos a Estratégia Global de Combate à AIDS e os Estados-Membros da ONU assumirem compromissos concretos nos próximos cinco anos, ainda poderemos acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030”, concluiu.

Enquanto a ciência continua avançando e novas tecnologias de prevenção surgem, a ONU adverte que o maior desafio permanece sendo garantir financiamento sustentável, equidade e acesso universal aos cuidados de saúde. Sem essas medidas, o mundo corre o risco de assistir ao retorno de uma epidemia que parecia estar sob controle.

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