Evento reunirá líderes mundiais, cientistas, organizações da sociedade civil e pessoas que vivem com HIV para discutir estratégias contra a epidemia e reforçar compromisso de eliminar a Aids como problema de saúde pública até 2030
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O Brasil será o centro das discussões mundiais sobre HIV/Aids entre os dias 26 e 31 de julho, quando o Rio de Janeiro sediará, pela primeira vez, a Conferência Internacional de Aids, principal encontro global dedicado ao enfrentamento da epidemia. Também será a primeira edição realizada na América do Sul, reunindo milhares de participantes de diversos países, entre pesquisadores, profissionais de saúde, representantes de governos, organismos internacionais e pessoas que vivem com HIV.
A conferência acontece em um momento considerado decisivo para a resposta global à doença. Organizações internacionais alertam para uma redução significativa dos recursos destinados ao combate ao HIV/Aids, com um déficit superior a US$ 3 bilhões, situação que ameaça programas de prevenção, diagnóstico e tratamento em diversos países.
Além de debater soluções para a crise financeira, o encontro buscará fortalecer os compromissos assumidos recentemente durante a Reunião de Alto Nível sobre HIV/Aids da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova York, reforçando estratégias para atingir a meta de eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030.
Brasil reforça protagonismo internacional
Reconhecido internacionalmente por seu sistema público de acesso gratuito aos medicamentos antirretrovirais e pelas políticas de prevenção implementadas nas últimas décadas, o Brasil chega ao evento acumulando importantes avanços.
Recentemente, o país passou a integrar o grupo de nações reconhecidas por eliminar a transmissão vertical do HIV — aquela que ocorre da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação — resultado atribuído à ampliação do diagnóstico precoce, acompanhamento pré-natal e acesso ao tratamento.
Para especialistas, sediar a conferência representa também o reconhecimento da experiência brasileira na construção de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da epidemia com base em evidências científicas e na garantia dos direitos humanos.
Direitos humanos e desigualdade estarão no centro dos debates
Uma das principais pautas do encontro será a necessidade de fortalecer políticas públicas capazes de enfrentar os determinantes sociais que aumentam a vulnerabilidade ao HIV.
A diretora de Relações Externas para América Latina e Caribe da Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), Alessandra Nilo, destacou que o Brasil possui condições de contribuir significativamente para esse debate justamente por desenvolver estratégias que vão além da assistência médica.
Segundo ela, fatores como desigualdade social, discriminação, violência e exclusão continuam sendo obstáculos importantes para reduzir novas infecções e ampliar o acesso aos serviços de saúde.
Segundo a mesma o avanço de discursos contrários aos direitos humanos em diferentes partes do mundo torna ainda mais importante que as políticas de enfrentamento ao HIV permaneçam fundamentadas em evidências científicas e na proteção das populações mais vulneráveis.
Violência amplia vulnerabilidade ao HIV
Entre os temas que devem ganhar destaque durante a conferência está a violência enfrentada por populações historicamente mais expostas à infecção.
Segundo Alessandra Nilo, pessoas trans, por exemplo, continuam sendo alvo frequente de discriminação e violência no Brasil, situação que dificulta o acesso aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Ela defende que o enfrentamento da epidemia depende de políticas públicas integradas, capazes de garantir proteção jurídica, inclusão social, acesso à educação, geração de renda e combate às diversas formas de discriminação.
Dados nacionais também demonstram que milhares de brasileiros ainda morrem todos os anos em decorrência de complicações relacionadas ao HIV/Aids, com maior impacto entre pessoas negras e de baixa renda, evidenciando que as desigualdades sociais continuam influenciando os indicadores da doença.
Comunidades serão protagonistas
Outro eixo central da conferência será o fortalecimento das respostas lideradas pelas próprias comunidades afetadas pela epidemia.
A IPPF participará do encontro com uma delegação formada por mais de 130 representantes de 35 países, compartilhando experiências desenvolvidas em diferentes regiões do mundo.
Entre os exemplos que serão apresentados estão iniciativas implementadas na Colômbia e no Sudão, onde clínicas administradas por organizações da sociedade civil desempenham papel essencial na oferta de serviços de saúde sexual, reprodutiva e atendimento especializado para pessoas vivendo com HIV.
Especialistas afirmam que modelos comunitários foram decisivos para ampliar o acesso à prevenção e ao tratamento nas últimas décadas e defendem que esse protagonismo seja preservado, mesmo diante da redução dos investimentos internacionais.
Financiamento preocupa especialistas
A queda no financiamento internacional figura entre as maiores preocupações da conferência.
Diversas organizações alertam que cortes em recursos destinados aos programas de combate ao HIV podem comprometer a distribuição de medicamentos, campanhas de prevenção, ações de testagem, assistência às populações vulneráveis e pesquisas científicas.
Os participantes pretendem discutir alternativas para garantir sustentabilidade financeira às políticas públicas e evitar retrocessos em conquistas alcançadas nas últimas décadas.
Lideranças mundiais confirmam presença
A programação contará com a participação de importantes autoridades da saúde global.
Entre os nomes confirmados estão o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, e a diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), Winnie Byanyima.
Também participarão representantes de governos, pesquisadores, profissionais de saúde, financiadores, organizações da sociedade civil, jornalistas e pessoas que vivem com HIV, reforçando o caráter multidisciplinar da conferência.
Meta continua sendo eliminar a Aids até 2030
Ao final do encontro, a expectativa é reforçar o compromisso internacional de acelerar políticas capazes de reduzir novas infecções, ampliar o acesso ao tratamento e combater o estigma relacionado ao HIV.
Os organizadores defendem que somente com investimentos sustentáveis, fortalecimento dos sistemas públicos de saúde, proteção dos direitos humanos e participação ativa das comunidades será possível alcançar a meta estabelecida pelas Nações Unidas de eliminar a Aids como problema de saúde pública até 2030.
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