Surto de ciclosporíase nos EUA continua sob investigação apesar de governo afirmar que situação está sob controle

Secretário de Saúde dos Estados Unidos diz que origem do surto foi identificada, mas FDA, autoridades mexicanas e especialistas ainda divergem sobre a fonte da contaminação
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

As autoridades de saúde dos Estados Unidos seguem investigando um dos maiores surtos recentes de ciclosporíase no país. Embora o secretário de Saúde e Serviços Humanos (HHS), Robert F. Kennedy Jr., tenha afirmado nesta terça-feira (22) que a situação está “sob controle” e que a origem do surto foi identificada, a investigação ainda apresenta pontos de divergência entre órgãos reguladores, especialistas e autoridades mexicanas.

A doença, causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis, provoca principalmente diarreia intensa e prolongada, além de cólicas, náuseas, perda de apetite, fadiga e perda de peso. A transmissão ocorre pela ingestão de alimentos ou água contaminados, sendo frutas e hortaliças frescas os principais veículos da infecção.

Segundo a Food and Drug Administration (FDA), as evidências epidemiológicas apontam para alface iceberg desfiada processada em uma unidade da empresa Taylor Farms, localizada no centro do México, como provável origem do surto. Entretanto, até o momento, nenhum teste laboratorial realizado diretamente nas instalações da empresa confirmou a presença do parasita.

Governo mexicano contesta conclusão

A hipótese levantada pelas autoridades norte-americanas foi contestada pelo secretário de Saúde do México, David Kershenobich, que informou que a investigação conduzida pelo governo mexicano não encontrou evidências que comprovem que a contaminação tenha ocorrido na planta de processamento da Taylor Farms.

A divergência evidencia a complexidade das investigações envolvendo a Cyclospora cayetanensis, considerada um dos parasitas mais difíceis de rastrear em surtos alimentares.

Parasita é difícil de identificar

Especialistas explicam que detectar a cyclospora em alimentos exige métodos laboratoriais altamente sensíveis. Além disso, os sintomas podem surgir vários dias ou até semanas após o consumo do alimento contaminado.

Quando os órgãos de vigilância iniciam as investigações, muitas vezes os alimentos suspeitos já foram consumidos ou descartados, tornando impossível realizar análises laboratoriais diretas.

Por esse motivo, as autoridades utilizam principalmente estudos epidemiológicos, cruzando informações sobre os alimentos consumidos pelas pessoas infectadas para identificar um padrão comum entre os casos.

Durante entrevista coletiva, Robert F. Kennedy Jr. afirmou que o governo realizou uma ampla investigação.

“Fizemos extensas análises forenses e epidemiológicas e identificamos a origem do surto”, declarou o secretário.

Apesar da afirmação, o comissário da FDA, Kyle Diamantas, adotou um discurso mais cauteloso, dizendo que os dados apenas “apoiam fortemente” a hipótese envolvendo a Taylor Farms, sem afirmar categoricamente que a empresa seja a responsável pela contaminação.

Recall voluntário foi realizado

Na última sexta-feira, a Taylor Farms anunciou um recall voluntário de toda a alface iceberg cultivada e processada em sua unidade localizada no centro do México, classificando a medida como um “excesso de cautela”.

A empresa também informou que interrompeu o fornecimento desse produto durante o restante da atual temporada de cultivo.

Os lotes recolhidos haviam sido distribuídos para restaurantes da rede Taco Bell nos estados de Indiana, Kentucky, Michigan, Ohio e West Virginia, além de unidades selecionadas do Walmart sob a marca Marketside.

Mesmo após o recall, a FDA informou que continua investigando se outros alimentos também podem estar envolvidos no surto.

Falso positivo aumentou dúvidas

Nos últimos dias, a investigação ganhou um novo capítulo após a FDA divulgar que uma amostra coletada havia apresentado resultado positivo para cyclospora.

Posteriormente, a agência reconheceu que o exame tratava-se de um falso positivo, identificado durante o processo de controle de qualidade do laboratório.

Segundo a FDA, a divulgação rápida ocorreu porque a amostra analisada não fazia parte do recall voluntário, o que poderia representar um risco imediato à saúde pública caso o resultado fosse confirmado.

Michigan concentra milhares de casos

Enquanto as investigações prosseguem, o Departamento de Saúde de Michigan informou que milhares de casos foram registrados no estado. As autoridades locais ressaltam, porém, que ainda não é possível descartar outras fontes de contaminação.

Em comunicado oficial, o órgão afirmou que nenhum produtor, fornecedor ou tipo específico de alimento foi definitivamente identificado como origem única do surto.

Especialistas defendem investigação mais ampla

Para pesquisadores da área de segurança alimentar, a análise não deve se limitar apenas às hortaliças.

O professor Keith Schneider, da Universidade da Flórida, afirmou que as equipes também devem examinar água de irrigação, amostras de solo e até possíveis fontes de contaminação envolvendo trabalhadores rurais.

Já Barbara Kowalcyk, diretora do Instituto de Segurança Alimentar e Segurança Nutricional da George Washington University, demonstrou preocupação com mudanças recentes no programa federal de vigilância FoodNet.

Segundo ela, a redução do monitoramento ativo pode dificultar a identificação de surtos futuros e comprometer a capacidade das autoridades de detectar padrões nacionais de doenças transmitidas por alimentos.

Kennedy rebateu as críticas afirmando que não houve redução na vigilância sanitária do país, mas apenas eliminação de atividades consideradas redundantes, garantindo que todos os estados continuam notificando casos ao Centers for Disease Control and Prevention (CDC).

O que é a ciclosporíase?

A ciclosporíase é uma infecção intestinal causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis. A doença é adquirida principalmente pelo consumo de alimentos frescos ou água contaminados com fezes humanas.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • Diarreia intensa e prolongada;

  • Cólicas abdominais;

  • Náuseas;

  • Perda de apetite;

  • Fadiga;

  • Perda de peso;

  • Febre baixa em alguns casos.

O tratamento geralmente é realizado com antibióticos específicos, prescritos por profissionais de saúde.

  • Leia mais:

Presidente Marcelo Rebelo de Sousa analisa veto a mudanças na legislação migratória portuguesa

Mercados europeus avançam com expectativa de trégua entre EUA e Irã

Justiça dos EUA suspende temporariamente fusão bilionária entre Paramount e Warner

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*