Relatório indica que a redução da jornada pode comprometer lucros, pressionar investimentos e elevar os custos das empresas
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
Um estudo divulgado pela agência de classificação de risco Moody’s acendeu um alerta sobre os possíveis impactos econômicos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo a análise, a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, poderá aumentar significativamente os custos das empresas, reduzir a rentabilidade e pressionar setores que dependem fortemente de mão de obra.
A proposta em discussão estabelece uma transição gradual. Dois meses após a promulgação da PEC, a jornada semanal passaria de 44 para 42 horas. Após 14 meses, a carga horária seria reduzida definitivamente para 40 horas, mantendo os salários atuais.
Na avaliação da Moody’s, embora a medida tenha como objetivo reduzir a jornada de trabalho, ela também pode gerar efeitos econômicos relevantes, principalmente para empresas que operam de forma contínua e possuem grande número de funcionários.
Serviços lideram impacto negativo
O setor de serviços é apontado como o mais vulnerável à mudança. De acordo com a agência, caso as empresas não consigam compensar os custos por meio do aumento de preços ou de ganhos de produtividade, o Ebitda, indicador que mede o resultado operacional e a capacidade de geração de caixa de uma empresa, poderá registrar queda de até 12%.
A hotelaria aparece entre os segmentos mais sensíveis. Hotéis funcionam 24 horas por dia e dependem de equipes permanentes para recepção, limpeza, manutenção e atendimento aos hóspedes. Com jornadas menores, muitas empresas poderiam ser obrigadas a contratar novos funcionários para manter o mesmo nível de operação, aumentando significativamente a folha de pagamento.
Logística e varejo também podem sofrer
Nos setores de logística e varejo, a Moody’s estima uma redução de até 10% no Ebitda.
Empresas de transporte, centros de distribuição e grandes redes varejistas trabalham com operações praticamente ininterruptas, exigindo escalas de funcionários durante todos os dias da semana. Com menos horas trabalhadas por empregado e salários mantidos, o custo operacional tende a crescer.
No varejo alimentar, por exemplo, supermercados enfrentariam maior dificuldade para absorver esse aumento, já que operam com margens reduzidas e encontram limitações para repassar integralmente os custos aos consumidores sem comprometer as vendas.
Já o varejo farmacêutico apresenta menor exposição graças ao maior nível de digitalização, automação e eficiência operacional.
Construção e indústria enfrentam impacto moderado
A Moody’s também avaliou que a construção civil e a indústria de transformação sofreriam impacto intermediário.
A expectativa é de pressão entre 5% e 6% sobre o Ebitda, embora a agência ressalte que a elevada informalidade existente na construção civil e em parte do agronegócio reduz, na prática, o alcance imediato da nova regra.
Ainda assim, são setores que concentram grande número de trabalhadores atualmente submetidos a jornadas entre 41 e 44 horas semanais.
Automação reduz os impactos
Empresas que investiram em tecnologia tendem a enfrentar menos dificuldades.
Telecomunicações e saúde aparecem entre os segmentos menos afetados, com impacto inferior a 5%. Isso ocorre porque utilizam sistemas automatizados, modelos de trabalho mais flexíveis e, em muitos casos, jornadas diferenciadas, como a escala 12×36, já prevista na legislação trabalhista.
Segundo a Moody’s, a automação reduz a dependência de mão de obra intensiva e diminui a necessidade de novas contratações.
Agronegócio, óleo e gás e papel e celulose apresentam menor risco
Entre os setores considerados mais resilientes estão:
• Agronegócio;
• Indústria de bebidas;
• Locadoras de veículos;
• Óleo e gás;
• Papel e celulose.
Nesses segmentos, a maior parte dos custos está concentrada em matérias-primas, insumos e equipamentos, além de haver elevado grau de mecanização e automação das operações.
Por isso, a agência estima impacto inferior a 5% sobre os resultados operacionais dessas empresas.
Custos maiores podem refletir no consumidor
Embora o estudo não faça projeções sobre inflação, especialistas costumam apontar que o aumento dos custos trabalhistas pode levar parte das empresas a tentar reajustar preços, reduzir investimentos, automatizar processos ou até rever planos de contratação.
A Moody’s destaca que os efeitos dependerão da capacidade de cada empresa de aumentar sua produtividade, reorganizar escalas de trabalho, investir em tecnologia e repassar parte dos custos ao mercado.
Debate continua no Congresso
A PEC que propõe o fim da escala 6×1 continua em discussão no Congresso Nacional e ainda deverá passar por diversas etapas de tramitação antes de uma eventual aprovação.
O tema divide opiniões entre representantes dos trabalhadores e do setor produtivo. Enquanto defensores da proposta argumentam que a redução da jornada pode melhorar a qualidade de vida dos empregados, entidades empresariais alertam para o aumento dos custos operacionais, a possível redução da competitividade e os impactos sobre investimentos, geração de empregos e crescimento econômico.
O estudo da Moody’s reforça esse debate ao indicar que a redução da jornada sem diminuição proporcional dos salários poderá afetar de maneira mais intensa os setores com maior dependência de mão de obra, exigindo adaptações operacionais e pressionando os resultados financeiros das empresas.
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