Após ser impedido de distribuir alimentos pela polícia, Julio Ritta emociona ao revelar que jamais abandonaria centenas de pessoas que esperavam por um prato de comida. Há quase 11 anos, seu projeto vai muito além da alimentação: devolve dignidade, esperança e acolhimento a quem mais precisa
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Há histórias que não cabem apenas em números ou manchetes. Elas se escrevem nos gestos silenciosos de quem escolhe servir ao próximo, mesmo quando isso significa enfrentar obstáculos, críticas e até riscos à própria vida. Assim é a trajetória de Julio Ritta, que há quase 11 anos transforma o Viaduto da Conceição, em Porto Alegre, em um lugar onde a fome encontra solidariedade e a desesperança dá espaço ao acolhimento.
Nos últimos dias, um vídeo mostrando Julio sendo impedido de distribuir alimentos pela polícia repercutiu nas redes sociais e provocou indignação em milhares de pessoas. Mas, por trás das imagens que viralizaram, existe uma história muito maior: a de um homem que decidiu fazer da compaixão a missão de sua vida.

Tudo começou em setembro de 2015. Na época, Julio havia sido convidado para participar de um reality show. Em vez de usar a visibilidade para benefício próprio, decidiu transformá-la em um chamado à consciência coletiva.
“Comecei as ações em setembro de 2015, quando fui convidado para participar de um reality show. Foi então que decidi usar da visibilidade do momento para chamar atenção sobre os números da fome e da população em situação de rua em Porto Alegre fazendo uma ação. Depois da primeira ação e do que senti ali fazendo aquilo, foi impossível voltar atrás.”
O que nasceu como uma iniciativa pontual tornou-se um compromisso diário com pessoas que, muitas vezes, foram esquecidas pela sociedade.
“Naquele momento eu sabia que corria risco de vida”
Ao recordar o episódio que ganhou repercussão nacional, Julio não esconde a emoção. O sentimento, segundo ele, foi uma mistura de impotência e revolta. Ainda assim, escolheu manter a serenidade.
“Foi um sentimento de impotência somado à revolta. Felizmente mantive a calma para reverter a situação. Naquele momento eu sabia que corria risco de vida, mas não teria como virar as costas para a causa e desapontar aquelas centenas de pessoas que me aguardavam por um prato de comida.”
Em seguida, faz uma declaração que revela a dimensão do compromisso que assumiu.
“Foi quando eu decidi que, se fosse o preço, ser preso ou até mesmo ser alvejado, eu estava disposto a pagar.”
São palavras fortes, que não falam de heroísmo, mas da convicção de quem acredita que nenhuma barreira pode ser maior do que a necessidade de quem sente fome.

Um lugar que se tornou referência de acolhimento
Questionado sobre o motivo de insistir na distribuição das refeições no Viaduto da Conceição, Julio faz uma reflexão que muda completamente a perspectiva da pergunta.
“Não é uma questão nem de ser o lugar mais adequado. Adequado seria essas pessoas terem casa e alimento.”
Ele lembra que muitas das pessoas atendidas sequer vivem nas ruas.
“Há pessoas que têm casa, mas, muitas vezes, não têm dinheiro nem para comprar um botijão de gás. Estar ali há 11 anos é a referência de acolhimento que criamos, e não haveria possibilidade de mudarmos.”
Mais do que um ponto de distribuição de alimentos, o viaduto tornou-se um símbolo de segurança para quem vive em situação de extrema vulnerabilidade.
“Entrou na fila, comeu”
Enquanto muitos perguntam quem merece ou não receber ajuda, Julio responde com uma simplicidade que desarma qualquer julgamento.
“Entrou na fila, comeu. Simples.”
Ele explica que nunca questionou a história de quem procura o projeto.
“Eu não questiono por que cada um está ali. Penso que quem se dispõe a esperar numa fila por um prato de comida busca dignidade e acolhimento.”
Essa visão rompe preconceitos e lembra que a fome não escolhe idade, profissão ou endereço.

A comida é apenas o começo
Para Julio, o prato servido não representa o fim da missão, mas o início de algo muito maior.
“A comida é só a ponte.”
Ele lamenta o desperdício de alimentos enquanto milhões ainda passam necessidade.
“É impressionante que com um quarto da comida que vai para o lixo daria para acabar com a fome do planeta. Fome e miséria são produtos. Quem entende isso já está uma casa à frente para solucionar essa mazela.”
A frase convida à reflexão sobre um problema que vai muito além da escassez de alimentos: trata-se também de escolhas, prioridades e responsabilidade coletiva.
Vidas que recomeçaram
Ao longo desses 11 anos, mais de cem pessoas conseguiram deixar as ruas com apoio direto do projeto.
Para Julio, entretanto, os números não são o mais importante.
“Foram mais de 100 pessoas que diretamente tiramos das ruas nesse período. Se fosse uma só, já teria valido a pena.”
Ele também conta que muitos idosos passaram a conseguir comprar seus medicamentos porque deixaram de gastar com alimentação.
“Acho que a maior história de superação é saber que muitos conseguem pagar remédios por não se preocupar com a alimentação que damos. Outros contam diariamente que mudaram a forma de entender muitas situações através do diálogo e do carinho que é despretensioso ali.”
Uma missão que nasce da fé
Perguntado sobre o que o mantém firme após tantos anos, Julio responde sem hesitar.
“Vejo como missão da minha vida. Esse é o meu legado.”
Todas as noites, antes de dormir, ele faz a mesma oração.
“Todos os dias, quando deito minha cabeça no travesseiro, oro por aqueles que estão naquele mesmo momento deitados nas calçadas. Isso é o combustível para seguir.”
Seu desejo é simples.
“Que nenhuma pessoa nas nossas ações precise meter a mão numa lata de lixo para comer enquanto estivermos lá.”

A solidariedade aumentou. As doações, ainda não.
A repercussão do vídeo fez crescer o interesse pelo voluntariado, mas trouxe também uma preocupação.
“A procura para participar como voluntário aumentou muito, mas infelizmente as doações ainda não.”
Segundo ele, no último fim de semana o número de pessoas atendidas foi ainda maior.
“Precisamos aumentar o número de doações. Espero que toda essa revolta seja revertida em doações. Vamos torcer.”
Um apelo que ultrapassa Porto Alegre
Mesmo enfrentando dificuldades e buscando que o caso seja resolvido pela Justiça, Julio prefere transformar a indignação em esperança.
Sua mensagem final resume o espírito de uma trajetória construída sobre empatia.
“Que nossa revolta seja semente para que mais pessoas pelo mundo façam o mesmo. E que nunca mais nenhuma pessoa ou projeto neste país passe por uma truculência ignorante que impeça quem sofre com a fome de ter seu direito garantido por quem deveria servir a população que tanto sofre.”
Quando a fome encontra a solidariedade
A história de Julio Ritta não é apenas sobre a distribuição de refeições. É sobre enxergar o ser humano antes da condição em que ele vive. É sobre compreender que um prato de comida pode alimentar o corpo, mas o respeito, o diálogo e o acolhimento alimentam a esperança.
Em um tempo marcado por divisões e julgamentos, talvez a maior lição deixada por essa trajetória seja a mais simples de todas: ninguém deveria precisar enfrentar uma fila para matar a fome. Mas, enquanto essa realidade existir, sempre haverá pessoas dispostas a lembrar que a solidariedade continua sendo uma das mais poderosas expressões de humanidade.
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