Surto de Cyclospora pode estar perdendo força em Michigan, mas EUA ainda enfrentam mais de 18 mil casos sob investigação

Autoridades de saúde apontam sinais de desaceleração após o recall de alface iceberg contaminada, mas especialistas alertam que a origem do surto ainda não foi totalmente identificada e novos casos continuam sendo registrados em diferentes estados
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Os Estados Unidos seguem enfrentando um dos maiores surtos recentes de ciclosporíase, doença intestinal causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis. Segundo atualização divulgada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), mais de 18 mil casos confirmados ou suspeitos foram registrados em todo o país. Embora Michigan — estado mais afetado pelo surto — apresente indícios de estabilização após o recolhimento de lotes de alface iceberg potencialmente contaminados, especialistas afirmam que ainda é cedo para declarar o fim da emergência sanitária, já que novas infecções continuam surgindo e outras possíveis fontes de contaminação permanecem sob investigação.

Michigan continua sendo o epicentro do surto

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos de Michigan informou que mais de 9.500 pessoas adoeceram em decorrência da infecção pelo parasita nos últimos dois meses. Desse total, aproximadamente 160 pacientes precisaram ser hospitalizados, refletindo a magnitude do surto no estado.

Apesar dos números elevados, autoridades estaduais observam sinais positivos.

A diretora médica executiva do estado, Dra. Natasha Bagdasarian, informou que os registros mais recentes indicam uma redução na velocidade de novos casos. Segundo ela, cerca de 475 notificações divulgadas após 24 de julho correspondiam, na verdade, a exames represados em um sistema de saúde e não necessariamente a novas infecções.

Outro indicador considerado favorável é a diminuição das visitas aos prontos-socorros por pacientes com diarreia, um dos principais sintomas da doença.

Entretanto, a especialista ressalta que o cenário ainda exige cautela.

Segundo Bagdasarian, diversos laboratórios enfrentam limitações de insumos e acúmulo de exames, priorizando atualmente pacientes gravemente enfermos ou imunossuprimidos. Isso significa que muitos casos leves podem sequer estar sendo diagnosticados, dificultando a avaliação real da evolução do surto.

Recall da alface pode não explicar todos os casos

A investigação conduzida pelas autoridades federais identificou uma ligação importante entre parte das infecções e a alface iceberg triturada fornecida pela Taylor Farms México, utilizada por restaurantes, supermercados e distribuidores de alimentos.

Após essa identificação, a empresa realizou um recall voluntário dos produtos potencialmente contaminados.

Ainda assim, especialistas afirmam que o recolhimento da alface não explica completamente o comportamento do surto.

Bagdasarian destaca que muitos pacientes entrevistados afirmaram não ter consumido alface ou sequer frequentado estabelecimentos que receberam os lotes recolhidos.

Isso levanta a hipótese de que outros alimentos possam estar envolvidos na transmissão da doença.

Além disso, medidas adotadas pelas autoridades sanitárias — como recomendações para remover camadas externas de vegetais, higienizar adequadamente os alimentos e cozinhar quando possível — também podem ter contribuído para a redução do número de casos observada nas últimas semanas.

Outros alimentos continuam sob investigação

Embora a alface seja atualmente o principal alimento associado ao maior surto, outras investigações estaduais apontam possíveis fontes adicionais.

Em Nova York, autoridades investigaram um grupo anterior de casos e identificaram forte associação com coentro servido em um restaurante do Brooklyn, embora a origem não tenha sido confirmada definitivamente.

Já na Carolina do Norte, onde mais de 560 casos foram registrados, investigadores acreditam que coentro e salsa possam estar relacionados às infecções locais.

Até o momento, porém, esses surtos não foram vinculados aos produtos recolhidos da Taylor Farms.

Especialistas acreditam que diferentes alimentos possam ter sido contaminados simultaneamente, especialmente se compartilharem uma mesma fonte de irrigação ou processamento.

Água contaminada pode ser a chave da investigação

Para pesquisadores da área de segurança alimentar, uma das hipóteses mais consistentes envolve a contaminação da água utilizada na irrigação das lavouras.

A professora Barbara Kowalcyk, diretora do Instituto de Segurança Alimentar e Segurança Nutricional da Universidade George Washington, explica que uma fonte de água contaminada pode atingir diferentes plantações e vários lotes de alimentos ao mesmo tempo.

Segundo ela, isso ajudaria a explicar por que diferentes produtos hortifrutigranjeiros aparecem em investigações paralelas.

A pesquisadora ressalta que ainda existem muitas perguntas sem resposta e defende maior investimento em métodos laboratoriais capazes de detectar o parasita diretamente no ambiente de produção agrícola.

Cadeia de distribuição dificulta rastreamento

Outro desafio enfrentado pelas autoridades sanitárias é a complexidade da cadeia de distribuição dos alimentos frescos.

A consultora em segurança alimentar Jennifer McEntire, fundadora da Food Safety Strategy, explica que vegetais passam por diversos centros de distribuição, empresas intermediárias e sistemas logísticos antes de chegarem ao consumidor.

Esse percurso torna extremamente difícil identificar exatamente onde ocorreu a contaminação.

Além disso, atualmente os Estados Unidos ainda não dispõem de ferramentas de sequenciamento genético em tempo real capazes de relacionar rapidamente um alimento contaminado aos casos clínicos registrados.

Especialistas acreditam que existem múltiplas fontes

Para o ex-comissário interino da Food and Drug Administration (FDA), Dr. Stephen Ostroff, é possível que outras alfaces produzidas na mesma região agrícola da Taylor Farms, no México, também tenham sido contaminadas.

O ex-vice-comissário de Política Alimentar e Resposta da FDA, Frank Yiannas, vai além.

Segundo ele, as evidências indicam que mais de um alimento pode estar contribuindo para o aumento dos casos, razão pela qual novos registros continuam surgindo mesmo após o recall da alface iceberg.

Essa hipótese reforça a necessidade de ampliar as investigações epidemiológicas antes de se concluir definitivamente a origem do surto.

O que é a ciclosporíase?

A ciclosporíase é uma infecção intestinal causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis, um parasita que pode contaminar alimentos e água por meio de fezes humanas.

A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de frutas, verduras e vegetais crus contaminados.

Entre os sintomas mais frequentes estão:

  • diarreia intensa e prolongada;

  • dor abdominal;

  • náuseas;

  • vômitos;

  • perda de apetite;

  • fadiga;

  • perda de peso;

  • febre baixa.

Os sintomas costumam surgir entre 2 e 14 dias após a ingestão do alimento contaminado e podem persistir por semanas se não houver tratamento adequado.

A doença tende a ser mais grave em crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com o sistema imunológico comprometido.

Investigação continua

Apesar dos sinais de desaceleração observados em Michigan, autoridades de saúde enfatizam que o surto ainda está em andamento.

Os próximos passos incluem ampliar entrevistas com pacientes, rastrear novas cadeias de distribuição de alimentos e identificar definitivamente todas as possíveis fontes de contaminação.

Especialistas também defendem investimentos em pesquisa, infraestrutura laboratorial e sistemas de vigilância epidemiológica para permitir respostas mais rápidas diante de surtos alimentares futuros.

Enquanto isso, o CDC orienta consumidores a manter rigorosos cuidados na higienização de frutas, verduras e legumes, além de acompanhar os comunicados oficiais sobre recalls de alimentos potencialmente contaminados.

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