Músculos fortes podem ajudar a proteger o cérebro contra o Parkinson, aponta revisão científica

Estudos indicam que o exercício ativa uma comunicação entre músculos e cérebro por meio das chamadas exercinas, moléculas que podem reduzir processos inflamatórios e favorecer a sobrevivência de neurônios envolvidos na doença
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Manter os músculos ativos pode fazer mais pelo cérebro do que simplesmente melhorar a força e a mobilidade. Uma revisão científica publicada em 2026 aponta que o exercício físico e a preservação da massa e da força muscular podem participar de mecanismos capazes de favorecer a saúde cerebral em pessoas com doença de Parkinson. A hipótese envolve uma espécie de comunicação entre músculos e cérebro, mediada por moléculas liberadas durante a atividade física, conhecidas como exercinas.

A descoberta amplia a compreensão sobre os efeitos do exercício na doença de Parkinson e reforça uma ideia que vem ganhando espaço na neurologia: os músculos não devem ser vistos apenas como estruturas responsáveis pelo movimento. Eles também funcionam como um tecido metabolicamente ativo, capaz de produzir sinais químicos que circulam pelo organismo e podem influenciar diferentes órgãos, inclusive o cérebro.

A revisão, publicada em 25 de fevereiro de 2026 na revista científica Neuroprotection, reuniu 129 estudos sobre a relação entre exercício, condição muscular e comunicação entre músculos e cérebro na doença de Parkinson. O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados à Pontificia Universidad Javeriana, na Colômbia, e à Clínica Universidad de Navarra, na Espanha, entre outras instituições.

O que são as exercinas?

Durante a contração muscular provocada pelo exercício, o organismo libera uma série de moléculas sinalizadoras. O conjunto dessas substâncias é frequentemente chamado de exercinas — termo utilizado para descrever moléculas produzidas ou moduladas pelo exercício que participam da comunicação entre tecidos.

Entre os mecanismos estudados estão moléculas como BDNF, IGF-1 e irisina, além de outras substâncias relacionadas à resposta do organismo à atividade física.

O interesse dos pesquisadores está justamente nessa comunicação. Em vez de o cérebro ser visto apenas como o órgão que comanda os músculos, o modelo proposto considera que a atividade muscular também envia sinais de volta ao sistema nervoso.

Segundo a revisão publicada na Neuroprotection, essas vias podem estar relacionadas a processos como controle da inflamação, resposta ao estresse oxidativo, funcionamento das mitocôndrias e manutenção da função neuronal.

Por que isso é importante no Parkinson?

A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa progressiva caracterizada, entre outros mecanismos, pela perda de neurônios produtores de dopamina e pelo acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína.

A redução da dopamina em determinadas regiões do cérebro está diretamente relacionada a sintomas motores característicos da doença, como lentidão dos movimentos, rigidez e tremor.

Por isso, qualquer mecanismo capaz de favorecer a sobrevivência e o funcionamento dos neurônios dopaminérgicos desperta interesse científico.

Uma das substâncias mais estudadas nesse contexto é o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro). Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Neurology encontrou evidências de que o exercício pode influenciar os níveis de BDNF em pessoas com Parkinson. O BDNF participa da manutenção e da plasticidade dos neurônios e está relacionado à sobrevivência celular.

Isso, porém, não significa que uma pessoa fisicamente ativa esteja imune ao Parkinson. A evidência disponível aponta para mecanismos potencialmente neuroprotetores, mas ainda não demonstra que o aumento de massa muscular, isoladamente, seja capaz de impedir o surgimento da doença.

A sarcopenia entra nessa história

Outro ponto importante levantado pelos pesquisadores é a sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa, força e desempenho muscular, principalmente associada ao envelhecimento.

Em pessoas com Parkinson, a perda de força e a fragilidade podem agravar problemas de mobilidade e aumentar o risco de quedas. A revisão publicada em 2026 destaca que sarcopenia e fragilidade estão associadas a maior incapacidade, maior risco de quedas e pior qualidade de vida entre pessoas com a doença.

Existe ainda uma relação potencialmente bidirecional. Os sintomas do Parkinson podem dificultar a prática de atividade física, enquanto a redução da atividade pode favorecer perda de condicionamento e massa muscular. Isso cria um ciclo que pode comprometer progressivamente a capacidade funcional.

Por esse motivo, preservar a força muscular não é apenas uma questão estética. Para pessoas mais velhas e, especialmente, para quem vive com Parkinson, manter capacidade física pode significar maior autonomia para caminhar, levantar-se, realizar tarefas cotidianas e reduzir o risco de quedas.

Exercício não é apenas tratamento para os músculos

As evidências disponíveis atualmente apontam que os benefícios da atividade física no Parkinson vão além da força.

A Parkinson’s Foundation, em colaboração com o American College of Sports Medicine (ACSM), atualizou em 2026 suas recomendações de exercícios para pessoas com a doença. As orientações contemplam quatro grandes áreas: atividade aeróbica, treinamento de força, flexibilidade e equilíbrio/agilidade/multitarefa.

A entidade destaca que a prática regular de exercícios pode contribuir para aspectos como mobilidade, equilíbrio, flexibilidade, coordenação e qualidade de vida. Também há evidências de benefícios para alguns sintomas não motores, incluindo alterações cognitivas, sono e humor.

Um dos pontos ressaltados pelas recomendações é a importância de começar a atividade física precocemente e manter uma rotina adaptada à evolução da doença.

Qual exercício pode ajudar?

Não existe um único exercício considerado ideal para todas as pessoas com Parkinson. A recomendação depende da idade, condição física, sintomas, estágio da doença e presença de outras limitações.

De maneira geral, as recomendações atuais combinam diferentes modalidades:

  • Exercícios aeróbicos: caminhada, bicicleta e outras atividades que elevem a capacidade cardiorrespiratória;

  • Treinamento de força: exercícios destinados a preservar ou melhorar a força muscular;

  • Equilíbrio e agilidade: atividades voltadas à coordenação e à redução do risco de quedas;

  • Flexibilidade: exercícios que ajudam a preservar a amplitude dos movimentos.

As recomendações atualizadas da Parkinson’s Foundation e do ACSM indicam, de forma geral, 150 minutos semanais de atividade física moderada a vigorosa, distribuídos conforme as condições e necessidades individuais. Para pessoas com Parkinson, a orientação deve ser adaptada e pode envolver profissionais especializados em fisioterapia e exercício.

Ainda faltam respostas

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores da revisão fazem uma ressalva importante: ainda não está estabelecido exatamente qual tipo de exercício, qual intensidade e qual quantidade de atividade física produzem os maiores efeitos sobre as vias de comunicação entre músculo e cérebro.

Também são necessários estudos que consigam determinar se as alterações provocadas pelo exercício nas exercinas realmente conseguem modificar, de maneira significativa e duradoura, a evolução da doença de Parkinson.

Por enquanto, portanto, a ciência permite uma conclusão mais cuidadosa: o exercício e a preservação da força muscular são componentes importantes do cuidado com a doença de Parkinson e podem atuar por mecanismos que favorecem a saúde cerebral, mas não devem ser apresentados como uma cura ou como uma garantia de prevenção da doença.

A principal mensagem da pesquisa é que músculo e cérebro estão mais conectados do que se imaginava. Fortalecer o corpo pode significar, além de melhorar a capacidade de movimento, estimular uma complexa rede de sinais biológicos que ajuda o organismo a responder melhor aos desafios do envelhecimento e das doenças neurodegenerativas.

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