Novos dados reacendem expectativa sobre terapia experimental contra distrofia muscular de Duchenne

Decisão abre uma nova possibilidade para o deramiocel, medicamento celular da Capricor que busca preservar funções musculares em pacientes com uma doença genética grave e ainda sem cura
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

WASHINGTON — A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos sinalizou que está disposta a analisar novos dados apresentados pela farmacêutica Capricor Therapeutics sobre o deramiocel, uma terapia celular experimental desenvolvida para pacientes com distrofia muscular de Duchenne (DMD). A movimentação representa uma mudança importante no processo regulatório do tratamento, que sofreu um forte revés no mês passado após um comitê consultivo da própria FDA questionar as evidências disponíveis sobre sua eficácia.

A nova etapa ocorre às vésperas da data originalmente prevista para uma decisão da agência. A empresa informou que pretende apresentar uma alteração à solicitação de aprovação contendo novos dados de 24 meses, com foco especialmente na evolução da função dos membros superiores — justamente um dos principais desfechos avaliados no estudo clínico de fase 3 HOPE-3. Segundo a Capricor, a FDA indicou que poderá revisar essas informações e que o prazo regulatório deverá ser postergado depois que os novos dados forem formalmente recebidos.

O medicamento, no entanto, ainda não foi aprovado pela FDA. Trata-se de uma terapia investigacional que permanece sob análise regulatória.

Um novo capítulo após revés na FDA

A decisão ocorre pouco mais de duas semanas depois de uma reunião do Cellular, Tissue, and Gene Therapies Advisory Committee, realizada em 29 de julho.

Na ocasião, os especialistas analisaram o pedido de licença biológica — BLA 125842 — apresentado pela Capricor para o uso do deramiocel no tratamento da cardiomiopatia associada à distrofia muscular de Duchenne. O documento oficial da FDA ressalta que a agência ainda precisa concluir sua própria avaliação e que a manifestação do comitê consultivo não constitui, por si só, a decisão final da agência.

O encontro colocou no centro da discussão os resultados do estudo HOPE-3, ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.

A FDA destacou que o estudo inicialmente foi desenhado para avaliar a mudança na função dos membros superiores medida pelo Performance of the Upper Limb, versão 2.0 (PUL 2.0), além de avaliar como objetivo secundário a função cardíaca por meio da fração de ejeção do ventrículo esquerdo.

Mas a agência levantou questionamentos importantes sobre alterações feitas posteriormente no plano estatístico do estudo.

Segundo o documento regulatório, depois da conclusão da fase randomizada e durante a extensão aberta do HOPE-3, foram feitas mudanças no plano de análise estatística, incluindo alterações nas definições dos principais desfechos, nos métodos analíticos e na estratégia de tratamento de determinados dados ausentes. A FDA classificou essas análises posteriores como realizadas depois da conclusão do estudo.

Comitê consultivo votou contra evidências de eficácia

O episódio mais delicado ocorreu em julho, quando o comitê consultivo da FDA votou 9 a 3 contra a conclusão de que os dados disponíveis demonstravam eficácia suficiente do deramiocel para a indicação analisada.

Entre as preocupações apresentadas estavam justamente as alterações na forma de análise dos resultados e questões relacionadas à população estudada e à avaliação da cardiomiopatia.

O próprio documento da FDA informa que, no estudo HOPE-3, os resultados dos desfechos primário e secundário previamente especificados, avaliados em 12 meses, não mostraram diferença estatisticamente significativa entre deramiocel e placebo.

Isso ajuda a explicar por que a disposição da agência de receber e analisar novos dados ganhou tanta importância no mercado e entre pesquisadores que acompanham a doença.

O que mudou nos novos dados?

A Capricor pretende apresentar à FDA dados adicionais de acompanhamento de 24 meses, concentrados na função dos membros superiores.

A empresa sustenta que esses resultados demonstram um efeito clinicamente relevante do tratamento sobre a progressão da perda funcional. A companhia também afirma que o estudo de fase 3 atingiu seu principal objetivo quando analisado segundo a versão mais recente do plano estatístico utilizado pela empresa.

Os resultados do HOPE-3 foram publicados na revista científica The Lancet em julho. Segundo os dados divulgados pela Capricor, o estudo incluiu 106 participantes e apontou uma redução de aproximadamente 54% na velocidade de perda da função dos membros superiores em comparação com placebo, medida pelo PUL 2.0, com valor de p=0,03.

A publicação em periódico científico submetido a revisão por pares acrescenta uma camada de avaliação independente aos resultados apresentados pela empresa. Ainda assim, publicação científica e aprovação regulatória são processos distintos: cabe à FDA determinar se o conjunto das evidências atende aos padrões exigidos para autorização do tratamento.

O que é o deramiocel?

O deramiocel, anteriormente conhecido como CAP-1002, é uma terapia celular alogênica produzida a partir de células derivadas de tecido cardíaco humano.

De acordo com a documentação apresentada à FDA, o produto utiliza células derivadas de cardiosferas e foi desenvolvido com a hipótese de apresentar efeitos anti-inflamatórios, antifibróticos, imunomoduladores e potencialmente pró-angiogênicos. A proposta é preservar ou retardar a deterioração dos músculos esqueléticos e cardíacos afetados pela doença.

A Capricor explica que essas células podem liberar vesículas extracelulares chamadas exossomos, que atuariam sobre macrófagos e poderiam modificar sua resposta inflamatória. A empresa está desenvolvendo a terapia para manifestações musculares e cardíacas da distrofia de Duchenne.

Por se tratar de uma terapia celular, o deramiocel não deve ser confundido com um medicamento convencional administrado diariamente em comprimidos. O tratamento utiliza células humanas processadas e administradas ao paciente por via intravenosa.

Por que a doença é tão grave?

A distrofia muscular de Duchenne é uma doença genética rara e grave que afeta predominantemente meninos.

A condição está ligada a alterações no gene DMD, responsável pela produção da distrofina, proteína fundamental para a estabilidade e o funcionamento das células musculares. A ausência de distrofina funcional provoca deterioração progressiva dos músculos esqueléticos e cardíacos.

A evolução da doença geralmente começa com fraqueza muscular progressiva nos membros inferiores. Com o passar dos anos, a perda funcional também atinge os braços e as mãos, comprometendo a autonomia dos pacientes.

Para pessoas que deixam de caminhar, a função dos membros superiores torna-se particularmente importante. A capacidade de movimentar braços e mãos pode determinar a possibilidade de utilizar cadeiras de rodas elétricas, equipamentos de comunicação e outras tecnologias assistivas.

A doença também afeta o coração. A deterioração do músculo cardíaco pode provocar cardiomiopatia dilatada, insuficiência cardíaca e alterações do ritmo cardíaco, que estão entre as principais causas de morte relacionadas à Duchenne.

Não existe cura para a Duchenne

Apesar dos avanços no tratamento, a distrofia muscular de Duchenne continua sem cura.

A FDA informa que existem medicamentos aprovados para determinados aspectos da doença, mas ressalta que as terapias atualmente aprovadas não foram sistematicamente estudadas quanto à capacidade de impedir a progressão da cardiomiopatia associada à Duchenne.

Esse cenário ajuda a explicar por que tratamentos capazes de preservar simultaneamente a função muscular e cardíaca são considerados uma importante necessidade médica não atendida.

No próprio documento regulatório, a FDA classifica a necessidade de terapias seguras e eficazes contra a cardiomiopatia associada à Duchenne como elevada.

FDA já havia rejeitado a primeira solicitação

A atual análise não é a primeira vez que o deramiocel passa pelo processo regulatório americano.

A Capricor apresentou originalmente um pedido de licença biológica à FDA no fim de 2024. A agência aceitou o pedido para análise prioritária, mas em julho de 2025 emitiu uma Complete Response Letter (CRL), informando que o pedido, naquela forma, não atendia ao requisito de evidências substanciais de eficácia e solicitando dados clínicos adicionais.

Depois de reuniões com a FDA, a Capricor apresentou uma nova solicitação incorporando dados do estudo HOPE-3.

A FDA classificou essa reapresentação como uma Class 2 resubmission e estabeleceu inicialmente 22 de agosto de 2026 como data-alvo para uma ação regulatória.

Agora, porém, a apresentação dos novos dados de 24 meses poderá modificar esse cronograma.

O que acontece a partir de agora?

O próximo passo será a Capricor formalizar a apresentação dos novos dados à FDA.

A agência deverá então avaliar as informações adicionais dentro do processo regulatório. O prazo de 22 de agosto, portanto, não deve ser tratado como uma data definitiva para uma decisão, já que a própria empresa informou que a FDA pretende postergar o prazo depois de receber os novos dados.

É importante destacar que a disposição da FDA para analisar os novos dados não significa que o deramiocel será aprovado.

A agência ainda terá de determinar se o conjunto das evidências demonstra eficácia e segurança suficientes para justificar a autorização do tratamento. O próprio material oficial da FDA estabelece que uma aprovação depende de evidências substanciais de eficácia e de evidências de segurança para o uso pretendido.

A decisão será particularmente relevante porque o tratamento pretende atuar em uma doença progressiva, grave e sem cura, na qual a perda da função muscular e o comprometimento cardíaco representam desafios importantes ao longo da vida.

Uma possível nova oportunidade para pacientes

Para a comunidade Duchenne, a revisão de novos dados representa uma oportunidade adicional para esclarecer uma disputa científica e regulatória que se intensificou nas últimas semanas.

De um lado, a FDA levantou preocupações sobre a robustez estatística e metodológica das evidências apresentadas. De outro, a Capricor argumenta que os dados mais recentes demonstram benefícios clinicamente relevantes, especialmente na preservação da função dos membros superiores.

A publicação dos resultados do HOPE-3 na The Lancet e a disposição da FDA de receber novos dados colocam novamente o deramiocel no centro das atenções do desenvolvimento de terapias para Duchenne.

Por enquanto, entretanto, o tratamento permanece experimental.

A questão decisiva será saber se os novos dados de 24 meses serão suficientes para convencer a FDA de que o benefício observado supera as incertezas identificadas durante a análise regulatória.

A resposta poderá definir não apenas o futuro do deramiocel, mas também o espaço que terapias celulares poderão ocupar no tratamento das manifestações musculares e cardíacas da distrofia muscular de Duchenne.

  • Leia mais:

Nunes Marques determina retorno de Flávio Bolsonaro ao PL e abre investigação

FDA amplia alerta sobre jalapeños após surto de Salmonella atingir 27 estados nos EUA

Imigração ajuda a conter queda da população jovem na Alemanha

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*