Pesquisa internacional publicada na revista Nature Medicine identifica maior prevalência de dor relatada por mulheres em 11 regiões do corpo; diferenças podem envolver hormônios, mecanismos biológicos, condições de saúde e fatores sociais, reforçando a necessidade de melhorar o diagnóstico e o tratamento da dor feminina
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Mulheres relatam sentir dor com maior frequência do que homens, e essa diferença aparece em diferentes regiões do corpo e ao longo de diversas fases da vida. A conclusão é de um amplo estudo internacional publicado em 5 de outubro de 2026 na revista científica Nature Medicine, que analisou dados de 6.125.459 pessoas, provenientes de 118 países e territórios. Os pesquisadores reuniram informações de 902 fontes de dados populacionais e identificaram uma prevalência maior de dor autorrelatada entre mulheres em todas as 11 regiões corporais investigadas. As diferenças mais expressivas foram observadas na dor facial, na dor de cabeça e na dor abdominal. Os resultados ajudam a dimensionar a distribuição da dor na população mundial e reforçam a importância de compreender os fatores biológicos, clínicos e sociais associados a essas diferenças.
Estudo reúne dados de milhões de pessoas
A pesquisa representa uma das maiores análises internacionais sobre a prevalência de dor autorrelatada em diferentes idades e regiões do mundo.
O trabalho reuniu informações de participantes com idades entre 5 anos e mais de 100 anos. Os dados vieram de estudos e levantamentos populacionais realizados entre 1990 e 2025, abrangendo diferentes contextos sociais, econômicos e geográficos.
Os pesquisadores avaliaram a frequência com que as pessoas relataram dor em 11 regiões do corpo: cabeça, face, pescoço ou ombros, costas, mãos ou punhos, cotovelos, tórax, abdômen, quadris, joelhos e pés ou tornozelos.
O resultado mostrou uma tendência consistente: em todas as regiões analisadas, as mulheres apresentaram maior prevalência de dor relatada do que os homens.
As diferenças, porém, variaram conforme a região corporal. Os contrastes mais expressivos apareceram na dor facial, na dor de cabeça e na dor abdominal.
O estudo também investigou como a prevalência da dor se modifica ao longo da vida. Os resultados indicaram que os padrões não são iguais para todas as regiões do corpo: enquanto algumas formas de dor atingem seu pico em idades mais jovens ou na meia-idade, determinadas dores musculoesqueléticas tendem a aumentar ao longo da vida adulta.
É importante destacar que a pesquisa compara grupos populacionais. Isso não significa que todas as mulheres sintam mais dor do que todos os homens, mas que, na população estudada, a proporção de mulheres que relatou dor foi maior.
Onde a diferença entre mulheres e homens é maior?
A pesquisa identificou diferenças expressivas na prevalência de dor relatada em três regiões do corpo: face, cabeça e abdômen. Os números a seguir representam razões de prevalência entre mulheres e homens, conforme os resultados publicados na Nature Medicine.
Dor facial — 1,83 vez maior
A prevalência de dor facial relatada pelas mulheres foi 83% superior à registrada entre os homens.
Dor de cabeça — 1,74 vez maior
No caso da dor de cabeça, a prevalência entre as mulheres foi 74% superior à observada entre os homens.
Dor abdominal — 1,60 vez maior
Para a dor abdominal, a prevalência relatada pelas mulheres foi 60% superior à registrada entre os homens.
Fonte: estudo publicado na Nature Medicine, em outubro de 2026. Consultar o estudo original.
Uma razão de prevalência de 1,83 significa que a prevalência observada de dor facial entre mulheres foi 1,83 vez a registrada entre homens, ou seja, 83% maior. Isso não significa que 83% das mulheres apresentem dor facial.
O mesmo raciocínio se aplica aos outros resultados: a prevalência de dor de cabeça foi 74% maior entre mulheres, enquanto a de dor abdominal foi 60% maior.
Também é necessário distinguir frequência de intensidade. Os números apresentados comparam a prevalência da dor relatada, e não demonstram que a dor sentida por cada mulher seja necessariamente mais intensa do que a sentida por cada homem.
A pesquisa também analisou medidas adicionais, incluindo dor de alta intensidade e dor generalizada. Nessas categorias, as mulheres igualmente apresentaram prevalências superiores às dos homens.
Por que as mulheres podem apresentar maior prevalência de dor?
Os resultados mostram uma diferença populacional consistente, mas não estabelecem uma causa única para esse padrão.
A experiência da dor é complexa e envolve a interação entre o sistema nervoso, os tecidos do corpo, os mecanismos inflamatórios, as condições de saúde e fatores psicológicos e sociais.
1. Influência dos hormônios
Os hormônios sexuais podem influenciar mecanismos relacionados à percepção e à regulação da dor.
O estrogênio e a progesterona, por exemplo, participam de processos fisiológicos que podem modificar a atividade do sistema nervoso e a resposta inflamatória. Suas concentrações mudam ao longo do ciclo menstrual e em fases como gravidez, pós-parto e menopausa.
Essas oscilações podem estar relacionadas à variação dos sintomas de determinadas condições dolorosas. No entanto, os efeitos dependem do quadro clínico, das características individuais e de outros fatores.
É importante não atribuir toda a diferença observada no estudo aos hormônios. A pesquisa epidemiológica identificou padrões de prevalência, mas não foi desenhada para determinar quanto cada mecanismo biológico contribui para esses resultados.
2. Diferenças no processamento da dor
A dor não depende exclusivamente da existência de uma lesão ou inflamação. Ela envolve um sistema de processamento que inclui receptores sensoriais, nervos periféricos, medula espinhal e cérebro.
Estudos experimentais já investigaram diferenças médias entre mulheres e homens em medidas como limiar e tolerância à dor. Os resultados variam de acordo com o tipo de estímulo, a população estudada e as condições avaliadas.
Essas diferenças não significam que todas as mulheres tenham maior sensibilidade à dor em qualquer circunstância. A experiência dolorosa é individual e pode ser influenciada por fatores biológicos, emocionais, ambientais e sociais.
3. Frequência de condições associadas à dor
Outra hipótese envolve a distribuição de determinadas doenças entre os sexos.
Condições como endometriose e enxaqueca são mais frequentes em mulheres. A fibromialgia também é diagnosticada mais frequentemente nesse grupo, embora possa afetar pessoas de diferentes sexos.
A endometriose, por exemplo, pode provocar dor pélvica persistente, cólicas intensas e desconforto durante as relações sexuais. A enxaqueca pode causar crises incapacitantes, afetando o trabalho, o sono e a qualidade de vida.
A maior frequência de determinadas condições dolorosas pode contribuir para as diferenças observadas na população. Entretanto, não explica necessariamente todos os resultados do estudo, que avaliou diversas regiões corporais e diferentes faixas etárias.
A dor feminina pode ser subestimada no atendimento?
Além dos fatores biológicos, a maneira como as queixas são reconhecidas nos serviços de saúde também merece atenção.
Estereótipos de gênero podem influenciar a comunicação entre pacientes e profissionais, a investigação diagnóstica e as decisões sobre tratamento. A desvalorização de uma queixa dolorosa pode atrasar a identificação de condições que precisam de acompanhamento.
A dor é uma experiência subjetiva, e sua avaliação depende do relato do paciente, do histórico de saúde, do exame clínico e, quando necessário, de exames complementares.
Por isso, uma queixa não deve ser descartada simplesmente porque não há uma alteração imediatamente visível em exames ou porque a intensidade relatada parece diferente da esperada.
Entretanto, é importante fazer uma distinção: o estudo publicado na Nature Medicine demonstra diferenças na prevalência de dor relatada, mas não mede diretamente a qualidade do atendimento recebido por mulheres e homens. Portanto, seus resultados não comprovam, isoladamente, que as mulheres sejam sistematicamente menos bem atendidas.
A investigação de possíveis desigualdades no diagnóstico e no tratamento exige estudos específicos sobre consultas, encaminhamentos, tempo até o diagnóstico e acesso a terapias.
O que a pesquisa revela sobre a dor ao longo da vida?
A análise identificou que a prevalência da dor não aumenta da mesma maneira em todas as regiões do corpo.
Em sete das 11 regiões corporais analisadas, os pesquisadores observaram padrões em que a prevalência aumentava e depois diminuía em determinadas fases da vida. A dor de cabeça e a dor abdominal, por exemplo, apresentaram picos estimados em idades mais jovens do que algumas formas de dor musculoesquelética.
Já dores nas costas, nos quadris e nos joelhos mostraram aumento progressivo ao longo da vida adulta, com elevação importante até a meia-idade e prevalências mais altas em idades avançadas.
Esses padrões são relevantes porque ajudam a compreender que a dor não é um fenômeno único. Diferentes regiões corporais podem apresentar trajetórias distintas, relacionadas a condições clínicas, exposições e mecanismos variados.
Os pesquisadores também observaram diferenças relacionadas ao nível de desenvolvimento dos países. Em determinados indicadores, populações de países com menor Índice de Desenvolvimento Humano apresentaram prevalência de dor corporal mais elevada em idades avançadas.
O resultado aponta para a necessidade de investigar fatores como condições de trabalho, renda, acesso à reabilitação e disponibilidade de serviços de saúde. Entretanto, esses fatores não podem ser considerados causas definitivas sem análises específicas que demonstrem as relações envolvidas.
Dor crônica: por que o acompanhamento é importante?
A dor crônica persiste ou se repete durante um período prolongado e pode afetar o sono, a mobilidade, o humor e a capacidade de realizar atividades cotidianas.
Ela pode estar associada a doenças específicas, lesões ou alterações no processamento da dor. Em alguns casos, diferentes fatores contribuem simultaneamente para a manutenção dos sintomas.
A avaliação médica ajuda a investigar a causa provável e a definir o tratamento adequado. Dependendo do quadro, a abordagem pode envolver medicamentos, fisioterapia, mudanças na rotina ou acompanhamento por diferentes especialidades.
É importante não considerar uma dor persistente como normal apenas porque ela é frequente em determinada população. Dores recorrentes, sintomas que pioram ou desconfortos que prejudicam as atividades diárias merecem avaliação profissional.
Dores súbitas e muito intensas, especialmente quando acompanhadas de falta de ar, desmaio, fraqueza repentina ou outros sintomas graves, podem exigir atendimento de urgência.
O que os resultados mudam para o diagnóstico e o tratamento?
Uma das contribuições do estudo é fornecer uma referência internacional para comparar a prevalência de dor em diferentes populações, idades e regiões do corpo.
Esses dados podem ajudar pesquisadores a identificar grupos com maior frequência de sintomas, investigar fatores associados e avaliar se as estratégias de prevenção e cuidado estão respondendo adequadamente às necessidades da população.
Os resultados também reforçam a importância de incluir mulheres e homens nas pesquisas clínicas e de analisar possíveis diferenças na eficácia e na segurança dos tratamentos.
No atendimento individual, porém, a escolha da abordagem terapêutica deve considerar a causa provável da dor, o histórico clínico, os sintomas associados e as necessidades de cada paciente.
Uma dor de cabeça recorrente, uma dor abdominal persistente ou uma dor musculoesquelética que interfere na rotina não deve ser ignorada. A avaliação profissional pode ajudar a identificar condições tratáveis e orientar os próximos passos.
Os limites da pesquisa
Apesar da dimensão da análise, os resultados precisam ser interpretados considerando o desenho metodológico do estudo.
Os pesquisadores reuniram informações de levantamentos populacionais realizados ao longo de décadas, em diferentes países e com métodos variados de coleta. Embora os dados tenham sido harmonizados para permitir comparações, podem existir diferenças na formulação das perguntas, nos períodos considerados e na forma como a dor foi registrada.
A análise avaliou principalmente a dor autorrelatada. Esse método é fundamental porque a dor não pode ser medida exclusivamente por um exame objetivo, mas as respostas também podem variar conforme a interpretação das perguntas e as condições em que os dados foram coletados.
Além disso, grande parte das fontes utilizadas era transversal. Isso significa que os padrões observados em diferentes idades não devem ser interpretados automaticamente como mudanças acompanhadas ao longo da vida de uma mesma pessoa.
O estudo também não demonstra que um único fator biológico, hormonal ou social seja responsável pelas diferenças encontradas. São necessárias novas investigações para compreender os mecanismos envolvidos e avaliar como esses resultados podem orientar estratégias de prevenção e cuidado.
Essas limitações não anulam a relevância da pesquisa. Elas ajudam a delimitar o que os resultados demonstram: diferenças consistentes na prevalência de dor relatada, observadas em uma amostra internacional de milhões de pessoas.
Reconhecer a dor é parte fundamental do cuidado
A maior prevalência de dor relatada por mulheres, observada nas 11 regiões corporais analisadas, reforça a importância de compreender as diferenças entre os grupos populacionais sem recorrer a generalizações.
A ciência continua investigando como mecanismos biológicos, condições de saúde e fatores sociais se relacionam com a experiência dolorosa. Estudos amplos como esse oferecem uma base para novas perguntas e podem contribuir para melhorar a vigilância em saúde e a investigação de condições dolorosas.
Para quem convive com dor frequente ou persistente, procurar avaliação profissional é importante, especialmente quando os sintomas são novos, estão piorando ou interferem nas atividades diárias.
O avanço das pesquisas ajuda a ampliar o conhecimento sobre a dor e reforça uma mensagem essencial: toda queixa dolorosa merece ser ouvida, investigada e avaliada com seriedade, independentemente do sexo de quem a sente.
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