Pesquisa internacional identifica interação entre hormônios, genética e cérebro como chave para explicar náuseas na gravidez
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Um dos sintomas mais comuns da gestação, o enjoo, acaba de ganhar uma explicação mais completa e baseada em evidências. Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema identificou que fatores genéticos, hormonais e neurológicos atuam em conjunto para provocar as náuseas, especialmente nos casos mais graves, como a hiperêmese gravídica, redefinindo a compreensão médica sobre o problema.
Os enjoos durante a gravidez, frequentemente tratados como algo normal e inevitável, estão sendo reinterpretados pela ciência. Um amplo estudo internacional liderado pela Universidade do Sul da Califórnia trouxe novas evidências de que o problema tem bases biológicas complexas, e não apenas hormonais ou emocionais, como se acreditava no passado.
Publicado na revista científica Nature Genetics, o trabalho analisou dados de mais de 470 mil pessoas, incluindo 10.974 mulheres diagnosticadas com hiperêmese gravídica, condição que afeta cerca de 2% das gestantes e pode causar vômitos intensos, desidratação e desnutrição.
Hormônio GDF15: o principal gatilho
O estudo aponta como protagonista o gene GDF15, responsável pela produção de um hormônio que aumenta significativamente durante a gravidez.
Segundo os pesquisadores, o fator decisivo não é apenas a presença do hormônio, mas a forma como o organismo reage a ele.
A cientista Marlena Fejzo, responsável pela pesquisa, explica que mulheres com níveis mais baixos de GDF15 antes da gravidez tendem a sofrer mais quando o hormônio se eleva.
Isso ocorre porque o corpo interpreta o aumento como um estímulo aversivo, possivelmente um mecanismo evolutivo de proteção contra toxinas, levando à náusea e rejeição de alimentos.
Genética amplia o entendimento
Além do GDF15, os cientistas identificaram outros nove genes ligados à condição, incluindo:
- TCF7L2, associado ao metabolismo e ao diabetes
- FSHB, ligado à regulação hormonal
- SYN3 e SLITRK1, relacionados à função cerebral
Essas descobertas mostram que a hiperêmese gravídica envolve múltiplos sistemas do organismo, como:
- metabolismo
- controle do apetite
- sistema nervoso
- desenvolvimento da placenta
O papel do cérebro: enjoo também é aprendido
Um dos pontos mais inovadores do estudo é a hipótese de que o cérebro desempenha papel ativo no agravamento dos sintomas.
A chamada plasticidade neural, capacidade do cérebro de aprender e se adaptar, pode fazer com que a gestante associe cheiros, alimentos ou situações à sensação de enjoo.
Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres desenvolvem aversões intensas e duradouras durante a gravidez.
Impacto clínico e novos tratamentos
Atualmente, o tratamento da condição ainda é limitado. Medicamentos como a ondansetrona apresentam eficácia parcial.
Com as novas descobertas, surgem possibilidades mais promissoras, como:
- terapias personalizadas com base no perfil genético
- uso preventivo de medicamentos
- novos alvos para desenvolvimento de fármacos
Uma das estratégias em estudo envolve a metformina, que poderia aumentar previamente os níveis de GDF15 e reduzir a sensibilidade ao hormônio durante a gestação.
Menos estigma, mais ciência
Historicamente, a hiperêmese gravídica foi muitas vezes subestimada ou atribuída a fatores psicológicos. O novo estudo reforça que se trata de uma condição biológica, mensurável e complexa.
Ao demonstrar que os enjoos têm base genética e fisiológica clara, a pesquisa contribui para reduzir o estigma e ampliar o cuidado com a saúde materna.
Um novo caminho para a medicina
Os resultados indicam que o enjoo na gravidez não é apenas um efeito colateral simples, mas um fenômeno multifatorial que envolve a interação entre genes, hormônios e cérebro.
A partir desse novo entendimento, a ciência avança rumo a diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes, com impacto direto na qualidade de vida de milhões de gestantes em todo o mundo.
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