Pesquisa internacional com mais de mil crianças aponta que o transtorno pode se manifestar de formas diferentes no cérebro, o que pode transformar diagnósticos e terapias no futuro
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma nova pesquisa científica publicada em 2026 trouxe descobertas que podem mudar a forma como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é compreendido e tratado em todo o mundo. O estudo identificou três perfis cerebrais distintos relacionados ao transtorno, reforçando a ideia de que o TDAH não é uma condição única, mas um conjunto de manifestações diferentes no cérebro.
A pesquisa foi publicada na revista científica “JAMA Psychiatry”, uma das mais respeitadas da área da psiquiatria, e analisou exames de ressonância magnética cerebral de mais de mil crianças com e sem diagnóstico de TDAH.
Os resultados indicam que diferentes grupos de pacientes apresentam alterações em regiões específicas do cérebro, associadas a sintomas variados, como desatenção, impulsividade, hiperatividade e dificuldade de controle emocional.
Segundo os pesquisadores, a descoberta pode abrir caminho para tratamentos mais individualizados no futuro, aproximando a psiquiatria da chamada “medicina de precisão”, na qual cada paciente recebe intervenções direcionadas ao seu perfil biológico.
Pesquisa analisou o cérebro de mais de mil crianças
O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados a universidades da China, Estados Unidos e Austrália. No total, foram avaliadas imagens cerebrais de 446 crianças com TDAH e 708 sem o transtorno no grupo principal da pesquisa. Posteriormente, os resultados foram testados em outro grupo independente com mais de 500 crianças diagnosticadas com o transtorno.
Os cientistas utilizaram exames de ressonância magnética estrutural para observar diferenças anatômicas no cérebro. A partir dessas imagens, criaram modelos capazes de identificar padrões de desenvolvimento cerebral e agrupar as crianças conforme as semelhanças encontradas.
O ponto considerado mais relevante pelos pesquisadores é que os grupos foram identificados utilizando apenas informações cerebrais, sem considerar inicialmente sintomas clínicos ou comportamento.
Depois da análise, os padrões encontrados coincidiram diretamente com características comportamentais específicas dos pacientes.
Os três perfis cerebrais do TDAH
A pesquisa identificou três biotipos principais.
Perfil com maior desregulação emocional
O primeiro grupo apresentou alterações em áreas cerebrais relacionadas ao controle emocional, tomada de decisão e comportamento.
As crianças desse perfil demonstraram sintomas mais intensos de desatenção e hiperatividade, além de maior dificuldade para lidar com frustração, ansiedade, irritabilidade e emoções negativas.
Os pesquisadores observaram ainda maior tendência a sintomas associados a transtornos de humor, como ansiedade e depressão.
Especialistas destacam que esse perfil pode ajudar a explicar por que alguns pacientes respondem pouco aos tratamentos convencionais utilizados atualmente.
Perfil predominantemente hiperativo e impulsivo
O segundo grupo apresentou alterações em regiões cerebrais ligadas ao controle de impulsos.
Nesse perfil, a hiperatividade e a impulsividade foram os sintomas predominantes, enquanto a desatenção apareceu de forma menos intensa.
Os pesquisadores observaram que essas crianças apresentavam melhora emocional mais significativa ao longo do acompanhamento.
Perfil predominantemente desatento
Já o terceiro grupo apresentou alterações mais localizadas em áreas associadas à atenção sustentada e à memória de trabalho.
Nesse caso, a principal característica clínica foi a dificuldade de concentração, com níveis menores de hiperatividade e impulsividade.
Segundo os pesquisadores, esse perfil parece ter alterações cerebrais mais específicas e menos extensas, o que pode favorecer respostas mais direcionadas a determinados tipos de intervenção.
Descoberta pode mudar tratamentos no futuro
Atualmente, os tratamentos mais utilizados para TDAH atuam principalmente em substâncias químicas cerebrais relacionadas à atenção e ao autocontrole, como dopamina e noradrenalina.
No entanto, o novo estudo aponta que cada perfil cerebral identificado apresenta alterações em sistemas químicos diferentes do cérebro, incluindo serotonina, glutamato e acetilcolina.
Isso levanta a hipótese de que alguns pacientes possam responder melhor a tratamentos específicos, enquanto outros talvez necessitem de abordagens diferentes das utilizadas hoje.
Apesar do avanço, os próprios pesquisadores alertam que os resultados ainda exigem cautela.
O estudo não acompanhou as mesmas crianças durante muitos anos, o que significa que ainda não é possível afirmar se os perfis cerebrais permanecem iguais ao longo da vida ou se mudam com o desenvolvimento do cérebro.
Outro ponto destacado pelos especialistas é que exames de neuroimagem ainda possuem custo elevado e acesso limitado, o que dificulta a aplicação imediata dessas descobertas na rotina clínica.
Caminho para uma psiquiatria mais personalizada
Mesmo com as limitações, a pesquisa é considerada um passo importante para compreender melhor as diferenças biológicas entre pessoas diagnosticadas com TDAH.
Especialistas acreditam que, no futuro, o diagnóstico poderá deixar de ser baseado apenas em sintomas comportamentais observáveis e passar a considerar também características neurobiológicas individuais.
A expectativa é que novas pesquisas aprofundem os resultados e contribuam para tratamentos mais precisos, personalizados e eficazes para crianças, adolescentes e adultos com TDAH.
- Leia mais:
NR-1 entra em vigor e amplia proteção à saúde mental no trabalho
PF apura uso de recursos públicos em crimes eleitorais em Macapá
DHS adota medidas adicionais para reprimir pedidos de asilo fraudulentos nos Estados Unidos

Faça um comentário