OMS enfrenta pressão global após surtos de hantavírus e ebola em meio à crise financeira e saída de países

Foto: FABRICE COFFRINI / AFP
Assembleia Mundial da Saúde em Genebra debate futuro da organização enquanto especialistas alertam para riscos nas respostas a emergências sanitárias globais
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou nesta segunda-feira (18), em Genebra, sua 79ª Assembleia Mundial da Saúde sob forte pressão internacional diante de novos surtos de doenças infecciosas, dificuldades financeiras e incertezas provocadas pelas saídas anunciadas dos Estados Unidos e da Argentina da entidade.

O encontro anual reúne representantes dos países-membros da OMS até o próximo sábado (23) e ocorre em um momento considerado decisivo para o futuro da governança sanitária global. Embora o raro surto de hantavírus registrado recentemente em um cruzeiro internacional não esteja oficialmente na pauta, diplomatas e especialistas afirmam que o tema deve dominar parte importante das discussões, ao lado do novo avanço do ebola na República Democrática do Congo.

Durante a abertura da assembleia, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a entidade conseguiu estabilizar parcialmente sua situação financeira após um dos períodos mais delicados desde a pandemia de Covid-19.

“Agora estamos estáveis e avançando”, declarou Tedros no final de abril, ao comentar os esforços para garantir recursos suficientes para os próximos dois anos.

Apesar do discurso otimista, diplomatas e analistas internacionais demonstram preocupação com os impactos da crise financeira na capacidade de resposta da OMS diante de emergências sanitárias globais. A organização sofreu forte abalo após o anúncio da retirada dos Estados Unidos historicamente seu principal financiador  e os cortes orçamentários que levaram à redução de programas e equipes.

Segundo Surie Moon, codiretora do Centro de Saúde Global do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, a OMS conseguiu mobilizar grande parte dos recursos necessários para manter suas operações no curto prazo, mas o cenário ainda é considerado frágil.

Ela destacou que o recente episódio envolvendo hantavírus reforça a importância de uma organização internacional forte e financeiramente previsível para coordenar respostas rápidas a surtos epidemiológicos.

O hantavírus ganhou repercussão mundial após casos registrados a bordo do navio MV Hondius, que atracou em Roterdã, na Holanda. Paralelamente, o novo surto de ebola na República Democrática do Congo reacendeu alertas internacionais sobre a vulnerabilidade dos sistemas globais de vigilância em saúde.

Nos bastidores da assembleia, fontes diplomáticas afirmam que a OMS poderá utilizar os recentes surtos como argumento para tentar convencer Estados Unidos e Argentina a reconsiderarem sua saída da organização.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, notificou formalmente a retirada do país da OMS em janeiro de 2025, no início de seu segundo mandato. A Argentina aderiu posteriormente à iniciativa americana. Entretanto, a constituição da OMS não prevê formalmente um mecanismo de retirada, o que mantém incertezas jurídicas e diplomáticas sobre o processo.

Washington ainda possui pendências financeiras com a organização referentes aos anos de 2024 e 2025. Segundo informações apresentadas durante a assembleia, os Estados Unidos devem aproximadamente 260 milhões de dólares à entidade, valor equivalente a cerca de R$ 1,3 bilhão.

Além da crise financeira, a assembleia também será marcada pelo início informal da corrida para a escolha do próximo diretor-geral da OMS, cuja eleição ocorrerá em 2027. Até o momento, nenhum candidato oficial foi apresentado, mas anúncios são esperados ao longo da semana.

Outro ponto sensível envolve debates sobre reformas na chamada “arquitetura da saúde global”, estrutura que reúne organismos internacionais, governos e instituições multilaterais que atuam em emergências sanitárias. Especialistas defendem maior integração entre essas entidades para evitar falhas de coordenação observadas durante a pandemia de Covid-19.

A ministra da Saúde do Canadá, Marjorie Michel, afirmou que a atual crise também pode representar uma oportunidade para a OMS revisar suas estratégias e redefinir prioridades junto aos países-membros.

Questões consideradas politicamente delicadas também prometem gerar tensão nas sessões da assembleia, incluindo resoluções relacionadas à Ucrânia, territórios palestinos e Irã, além de discussões sobre financiamento de programas ligados ao clima e aos direitos de saúde sexual e reprodutiva.

Segundo Thiru Balasubramaniam, representante da ONG Knowledge Ecology International, alguns programas já começaram a sofrer redução de atividades devido às restrições orçamentárias.

A preocupação entre especialistas é que cortes contínuos no financiamento internacional comprometam a capacidade da OMS de responder rapidamente a futuras pandemias, surtos regionais e crises sanitárias de grande escala.

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