Comprimido antiviral reduz risco de Covid-19 após exposição ao vírus pela primeira vez, apontam cientistas

Estudo publicado em uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo mostra que medicamento japonês diminuiu drasticamente infecções entre familiares de pacientes contaminados
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um comprimido antiviral pode representar um novo marco no combate à Covid-19. Pesquisadores anunciaram pela primeira vez que um medicamento administrado após a exposição ao coronavírus foi capaz de reduzir significativamente o risco de infecção em pessoas que tiveram contato direto com pacientes contaminados.

O antiviral ensitrelvir, desenvolvido pela farmacêutica japonesa Shionogi e comercializado no Japão com o nome Xocova, apresentou resultados considerados robustos em um estudo internacional publicado no prestigiado The New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou mais de 2 mil participantes entre junho de 2023 e setembro de 2024 e revelou uma redução expressiva nos casos de Covid-19 sintomática entre pessoas que conviviam com familiares infectados.

Segundo os dados do estudo, cerca de 9% dos participantes que receberam placebo desenvolveram Covid-19 sintomática. Já entre aqueles tratados com ensitrelvir, o índice caiu para aproximadamente 3%, indicando uma redução importante do risco de adoecimento após a exposição ao SARS-CoV-2.

Além de diminuir os casos sintomáticos, os pesquisadores observaram queda na transmissão viral. As infecções confirmadas com ou sem sintomas — atingiram 21,5% do grupo placebo, contra 14% entre os participantes que utilizaram o antiviral.

O medicamento atua bloqueando uma enzima essencial para a replicação do coronavírus, mecanismo semelhante ao utilizado por um dos componentes do antiviral Paxlovid. No entanto, diferentemente do tratamento da Pfizer, o ensitrelvir conseguiu demonstrar eficácia estatisticamente significativa na prevenção de infecções domiciliares.

O estudo ganhou repercussão internacional após análise publicada pela revista científica Nature, que destacou o potencial do medicamento como uma nova ferramenta de prevenção pós-exposição. Atualmente, o antiviral já foi aprovado no Japão para esse tipo de uso, enquanto autoridades regulatórias dos Estados Unidos e da Europa avaliam a adoção da terapia.

Para o virologista clínico Frederick Hayden, coautor do estudo, o tratamento pode beneficiar especialmente idosos, imunossuprimidos e moradores de instituições de longa permanência. Em entrevista à Nature, ele afirmou que utilizaria o medicamento caso tivesse contato próximo com alguém infectado.

Especialistas também avaliam que o antiviral pode ter impacto importante entre profissionais expostos frequentemente ao vírus, como trabalhadores da saúde. O infectologista David Boulware destacou que a exposição ocupacional continua sendo um fator relevante, sobretudo para pessoas que desejam evitar afastamentos por doença.

Já a infectologista Annie Antar acredita que o alcance do medicamento pode ser ainda mais amplo. Segundo ela, o antiviral pode interessar tanto a pessoas consideradas de alto risco quanto àquelas que continuam adotando cuidados rigorosos para evitar a infecção.

O avanço ocorre após anos de tentativas frustradas de desenvolver terapias eficazes para prevenção pós-exposição. Diversos tratamentos, incluindo anticorpos monoclonais, perderam efetividade diante do surgimento de variantes como a Ômicron.

Mesmo com a diminuição da percepção pública sobre a pandemia, especialistas alertam que o coronavírus continua circulando em larga escala. Dados recentes mostram que a Covid-19 ainda provoca milhares de hospitalizações e mortes anualmente em diversos países.

“Ainda não nos livramos desse vírus”, afirmou Hayden à Nature. “E agora, finalmente, existe um comprimido para ajudar a mantê-lo sob controle.”

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