Maior circulação de pessoas, animais e mercadorias acelera disseminação de enfermidades transfronteiriças e aumenta ameaça à saúde humana, ao comércio e aos meios de subsistência
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O aumento da circulação internacional de pessoas, animais e produtos, aliado às mudanças nos sistemas de produção agropecuária e às pressões ambientais, está impulsionando a rápida propagação de doenças animais transfronteiriças em diversas regiões do mundo. O alerta foi emitido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que destaca a crescente preocupação com enfermidades como a gripe aviária, a febre aftosa, a peste suína africana e outras ameaças zoonóticas emergentes, incluindo o hantavírus dos Andes, o vírus Nipah e o Ébola. Segundo a agência da ONU, o avanço dessas doenças representa riscos diretos à segurança alimentar global, ao comércio internacional, à estabilidade econômica e, em determinados casos, à própria saúde humana.
A FAO adverte que os países enfrentam uma pressão cada vez maior para fortalecer seus sistemas de prevenção, preparação e resposta diante da velocidade com que doenças e pragas atravessam fronteiras. O fenômeno tem sido agravado pelo crescimento do comércio global, pela intensificação dos deslocamentos humanos e pelo aumento das conexões entre os mercados agropecuários.
De acordo com a organização, os setores pecuários mundiais sustentam mais de 1 bilhão de meios de subsistência e movimentam trilhões de dólares em valor econômico anualmente. Além disso, aproximadamente 1,9 bilhão de pessoas dependem direta ou indiretamente da pecuária para sua sobrevivência, tornando a proteção da saúde animal uma questão estratégica para a economia e a segurança alimentar mundial.
A agência destaca que surtos de doenças animais transfronteiriças podem provocar prejuízos de bilhões de dólares todos os anos. Estimativas da FAO apontam que as perdas anuais no setor pecuário variam entre US$ 48 bilhões e US$ 330 bilhões, enquanto doenças relacionadas à aquicultura geram cerca de US$ 10 bilhões em prejuízos anuais.
Entre as enfermidades que mais preocupam os especialistas estão:
-
Gripe Aviária Altamente Patogênica (H5N1): continua se expandindo para novas regiões e espécies, incluindo mamíferos, aumentando as preocupações sobre possíveis transmissões para humanos;
-
Peste Suína Africana: desde 2007, já se espalhou para mais de 50 países na África, Europa, Ásia e Américas;
-
Febre Aftosa: permanece endêmica em diversas regiões e provocou novos surtos na Europa em 2025;
-
Vírus Nipah, Ébola e Hantavírus dos Andes: representam ameaças zoonóticas emergentes devido ao potencial de transmissão entre animais e seres humanos.
Para a FAO, os impactos dessas doenças vão muito além da saúde animal.
“O impacto dos surtos não se limita aos animais. Eles perturbam a produção agrícola, o comércio e o turismo, ameaçam os meios de subsistência, elevam os riscos à segurança alimentar e, em alguns casos, representam ameaças diretas à saúde humana”, afirmou Tiensin Thanawat, diretor-geral adjunto da FAO.
A agência ressalta que os fatores que impulsionam a disseminação dessas enfermidades estão se tornando cada vez mais complexos. Entre eles estão:
-
Aumento da movimentação internacional de animais, pessoas e produtos;
-
Transformações nos sistemas de produção agropecuária;
-
Mudanças climáticas e pressões ambientais;
-
Desigualdades na capacidade de vigilância sanitária e nos serviços veterinários entre os países;
-
Crescimento das interações entre seres humanos, animais domésticos e vida silvestre.
Especialistas em saúde pública também continuam preocupados com a disseminação da gripe aviária para mamíferos e o potencial de surgimento de novas zoonoses, cenário que reforça a importância da abordagem conhecida como Uma Só Saúde (One Health), que integra a saúde humana, animal e ambiental.
Diante desse quadro, a FAO defende investimentos urgentes em sistemas de vigilância, diagnóstico precoce, compartilhamento de informações e cooperação internacional.
“A experiência mostra, de forma consistente, que a prevenção e a preparação são mais eficazes e menos dispendiosas do que responder a um surto já instalado”, afirmou Beth Bechdol, diretora-geral adjunta da FAO.
Segundo a dirigente, fortalecer os sistemas de saúde animal é uma das estratégias mais eficientes para proteger os meios de subsistência, garantir a segurança alimentar, apoiar o comércio internacional e aumentar a resiliência dos sistemas agroalimentares.
Em um mundo cada vez mais interconectado, a FAO alerta que investir em prevenção deixou de ser apenas uma medida sanitária e passou a ser uma necessidade econômica e de segurança global. O avanço das doenças animais transfronteiriças evidencia que a saúde dos animais, dos seres humanos e dos ecossistemas está profundamente interligada e exige respostas coordenadas entre governos, organismos internacionais e setores produtivos.
- Leia mais:
Mbappé marca duas vezes e comanda vitória da França sobre Senegal
Irmã de ‘Sicário’ ameaçou divulgar documentos contra família Vorcaro, diz PF

Faça um comentário