PF revela 74 ligações e 5h30 de conversas entre Jaques Wagner (PT) e ex-sócio do Banco Master

Relatórios da Polícia Federal divulgados pelo ministro André Mendonça, do STF, apontam que o senador trocou 74 ligações com ex-sócio do Banco Master, além de registrar encontros, viagens e suspeitas de articulação política envolvendo a instituição financeira
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

A Polícia Federal investiga se uma relação de proximidade entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e integrantes do antigo comando do Banco Master teria ultrapassado o campo pessoal e influenciado articulações políticas relacionadas aos interesses da instituição financeira. Relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) descrevem contatos frequentes, encontros privados, discussões sobre pautas legislativas e suspeitas de que vantagens econômicas possam ter sido oferecidas em troca de atuação parlamentar.

O caso faz parte da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas envolvendo negócios e movimentações financeiras relacionadas ao Banco Master. Durante uma das fases da operação, realizada em 18 de junho, Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão. As medidas foram autorizadas pelo STF no âmbito do inquérito conduzido pelo ministro André Mendonça.

Os documentos analisados pela Polícia Federal apontam uma relação próxima entre Wagner e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, conhecido como “Guga”. Segundo os investigadores, essa ligação teria aproximado o senador de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e criado um canal de diálogo sobre temas de interesse do banco.

A investigação, no entanto, ainda está em andamento. Os apontamentos feitos pela PF representam suspeitas levantadas pelos investigadores e dependem de análise judicial para eventual confirmação de responsabilidades.

Suspeita de influência política em temas ligados ao banco

Um dos principais pontos analisados pela Polícia Federal é a possibilidade de que Wagner tenha atuado politicamente em assuntos considerados estratégicos pelo Banco Master.

Entre os temas investigados está a chamada “Emenda Master”, relacionada à PEC 63/2023, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). A proposta previa ampliar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para até R$ 1 milhão por pessoa física.

Conforme os relatórios, mensagens encontradas no celular de Augusto Lima indicariam que Wagner acompanhava diretamente a discussão da medida. A PF afirma que Daniel Vorcaro enxergava o senador como um possível aliado político dentro do Congresso Nacional.

No documento, os investigadores registraram:

“O próprio VORCARO percebia o Senador como aliado político em operação de natureza essencialmente regulatória, sujeita a critérios técnicos do Banco Central, sugerindo que o alinhamento do parlamentar transcendia o mero acompanhamento legislativo e alcançava o plano das articulações políticas institucionais”, descreveu a PF.

Investigação aponta contatos frequentes e relação de confiança

A análise dos dados obtidos pela Polícia Federal revelou uma intensa comunicação entre Jaques Wagner e Augusto Lima. De acordo com os relatórios, os dois trocaram 74 ligações entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversas.

Para os investigadores, o volume de contatos reforçaria a existência de uma relação próxima entre o senador e o ex-executivo do banco.

Além das comunicações telefônicas, a PF identificou mensagens que, segundo a corporação, demonstrariam uma convivência pessoal entre as famílias. Os registros incluem encontros particulares, viagens e demonstrações de amizade.

Um dos episódios citados ocorreu em outubro de 2023, quando Wagner e sua esposa teriam participado de um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, imóvel então ligado a Augusto Lima. Conforme a investigação, o deslocamento teria sido feito em uma aeronave relacionada ao empresário.

Após a viagem, uma mensagem enviada pela esposa do senador à família de Augusto dizia: “A gente ama vcs”. Em resposta, Augusto Lima escreveu: “Amamos vocês!!”.

Segundo a PF, a troca de mensagens foi considerada um indicativo do grau de proximidade entre os dois grupos familiares.

Presentes, viagens e ingressos estão entre os itens analisados

Além dos contatos pessoais, os investigadores avaliaram possíveis benefícios recebidos pelo núcleo ligado ao senador.

Entre os elementos citados estão viagens em aeronaves, presentes, ingressos para eventos e uma negociação envolvendo um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões em Salvador.

No caso dos presentes, a PF encontrou uma lista chamada “Lembranças de Fim de Ano”, enviada pela secretária de Augusto Lima em dezembro de 2024. O documento reunia nomes de autoridades que receberiam presentes, incluindo Jaques Wagner, além de outros políticos como Bruno Reis, Rui Costa, Jerônimo Rodrigues, ACM Neto e Antônio de Rueda.

Após a relação de nomes, foram compartilhadas opções de vinhos com valores entre R$ 2.500 e R$ 5.300. A investigação afirma que imagens posteriores mostraram embalagens destinadas a pessoas identificadas como “Jaques” e “Tio Guiga”, nome associado pelos investigadores a Guilherme Sodré, pessoa próxima ao senador.

Outro episódio citado envolve ingressos para um show da cantora Taylor Swift. Segundo a PF, a aquisição teria sido feita pela empresa REAG Investimentos S.A., ao custo total de R$ 63.339, beneficiando familiares e pessoas próximas ao senador.

Apartamento em Salvador é um dos pontos centrais da apuração

A Polícia Federal também investiga a negociação de um imóvel localizado no empreendimento Poème Horto, em Salvador.

Segundo os relatórios, Wagner teria enviado a Augusto Lima informações sobre o apartamento, incluindo dados da unidade, contato relacionado à venda e valores do empreendimento.

Os investigadores afirmam que, posteriormente, operadores financeiros teriam participado da estruturação da compra por meio de fundos e empresas intermediárias.

A PF compara a operação com outro modelo investigado no caso envolvendo o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, apontando suspeitas de que o imóvel pudesse representar uma vantagem econômica indevida.

STF autorizou acesso a dados telefônicos, mas não houve interceptação

Durante a investigação, o ministro André Mendonça autorizou medidas para obtenção de dados relacionados ao telefone utilizado por Jaques Wagner.

A decisão permitiu acesso a registros como histórico de chamadas, mensagens sem conteúdo, identificação dos aparelhos, conexões de internet e informações das antenas utilizadas pela linha.

A medida não autorizou escuta telefônica nem acesso ao conteúdo das conversas privadas.

Ao justificar a decisão, Mendonça afirmou haver preocupação com risco de vazamento de informações. Segundo o ministro, um episódio ocorrido durante a fase de pedidos das medidas teria aumentado essa preocupação.

Reuniões no gabinete e possível encontro com Jorge Messias

Outro ponto analisado pela Polícia Federal envolve reuniões realizadas no gabinete do senador.

Segundo os investigadores, em abril de 2024, Wagner teria tentado organizar um encontro entre Augusto Lima e uma pessoa identificada como “Messias”, interpretada pela PF como uma possível referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias.

Em áudio analisado pela investigação, o senador teria mencionado que o gabinete seria um local “mais protegido e discreto” e sugerido uma logística diferenciada para entrada do visitante.

Messias negou ter participado da reunião.

“Nunca estive em reunião com o Senhor Lima no Gabinete do Senador Jaques Wagner no Senado”, afirmou.

Banco Master era acompanhado pelo senador, segundo relatórios

Os documentos também apontam que Augusto Lima enviava ao senador informações sobre movimentações internas do Banco Master.

Entre os assuntos compartilhados estavam mudanças na estrutura acionária, avaliações de crédito, negociações envolvendo o BRB e acontecimentos relacionados ao Congresso Nacional.

A PF afirmou existir um “padrão recorrente de envio de notícias relacionadas ao Banco Master”. Segundo os investigadores, Wagner respondia a algumas mensagens utilizando emojis de aprovação e agradecimento.

A investigação segue sob análise do Supremo Tribunal Federal. Até o momento, os relatórios da Polícia Federal apresentam suspeitas e elementos reunidos durante a apuração, que ainda precisam passar pelo devido processo de avaliação judicial.

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