Ebola avança na República Democrática do Congo e supera 4,2 mil casos em surto de rápida expansão

Foto: REUTERS/Gradel Muyisa Mumbere
Mais de 1,9 mil pessoas já morreram, segundo dados divulgados pelas autoridades congolesas; OMS alerta que a transmissão está avançando mais rápido do que a capacidade de resposta em algumas áreas
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

A epidemia de ebola que atinge o leste da República Democrática do Congo (RDC) entrou em uma fase de agravamento, com mais de 4.200 casos confirmados e mais de 1.900 mortes, de acordo com os dados mais recentes citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelas autoridades locais. O avanço fez com que as equipes de saúde ampliassem as operações de vigilância, diagnóstico, tratamento e mobilização comunitária diante de uma transmissão que vem se mostrando excepcionalmente rápida.

O surto é provocado pelo vírus Bundibugyo, uma espécie de ebola identificada pela primeira vez em 2007 e considerada particularmente preocupante neste episódio porque, segundo a OMS, não existe atualmente vacina ou tratamento específico aprovado contra essa variante. O atendimento precoce e os cuidados de suporte continuam sendo fundamentais para aumentar as chances de recuperação.

Surto pode ter começado antes da declaração oficial

Um dos elementos mais preocupantes revelados durante a evolução da epidemia é que a circulação do vírus pode ter começado meses antes de o surto ser oficialmente reconhecido.

Segundo informações apresentadas pela OMS em agosto, análises genéticas indicaram que a transmissão começou ainda no início de 2026. Alguns dos primeiros pacientes teriam sido inicialmente diagnosticados com doenças como malária ou febre tifoide, o que retardou a identificação do ebola e permitiu que cadeias de transmissão se estabelecessem antes da mobilização completa das equipes de resposta.

A República Democrática do Congo declarou oficialmente o novo surto em 15 de maio de 2026, depois que exames realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica confirmaram a presença do vírus Bundibugyo em amostras coletadas na província de Ituri.

Na ocasião, a OMS informou que se tratava do 17º surto de ebola registrado na RDC desde 1976. Dois dias depois, em 17 de maio, o diretor-geral da organização classificou o episódio como uma emergência de saúde pública de importância internacional, conforme as regras do Regulamento Sanitário Internacional.

Ituri continua no centro da crise

A província de Ituri, no nordeste do país, permanece como um dos principais focos da epidemia. A transmissão também alcançou outras áreas, incluindo as províncias de Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé e Tshopo.

Em 15 de julho, a OMS registrava casos confirmados em 46 zonas de saúde distribuídas por cinco províncias, sendo 27 em Ituri, 11 em Kivu do Norte, uma em Kivu do Sul, quatro em Haut-Uélé e três em Tshopo. Naquele momento, 38 dessas zonas ainda apresentavam transmissão ativa recente.

A expansão territorial é particularmente preocupante porque dificulta o acompanhamento dos contatos e aumenta a possibilidade de que pessoas infectadas se desloquem para regiões onde as equipes ainda não conseguiram estabelecer uma estrutura adequada de vigilância.

A situação também ocorre em uma região marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e deficiência de infraestrutura. A OMS afirma que comunidades afetadas enfrentam dificuldades de acesso a alimentos, água potável, abrigo e serviços de saúde, enquanto incidentes de segurança podem limitar a entrada das equipes de resposta em determinadas localidades.

Diagnóstico tardio aumenta o desafio

O crescimento dos números não significa necessariamente que todas as mortes tenham ocorrido imediatamente antes da divulgação dos dados. A própria OMS ressalta que parte dos casos e óbitos registrados posteriormente pode corresponder a amostras e notificações que estavam pendentes de processamento, e não necessariamente a infecções adquiridas no mesmo período.

Ainda assim, o ritmo da epidemia é considerado alarmante.

No boletim de 15 de julho, a OMS registrava 2.124 casos confirmados e 828 mortes somente na RDC. Desde então, os números divulgados pelas autoridades congolesas cresceram para mais de 4.200 casos e mais de 1.900 mortes.

A diferença entre os balanços reforça um dos principais problemas enfrentados pelas equipes: identificar rapidamente pessoas infectadas e contabilizar corretamente a dimensão da transmissão em áreas de difícil acesso.

Grande parte da transmissão ocorre fora das cadeias conhecidas

Outro fator que dificulta o controle é o número de infecções que não conseguem ser imediatamente relacionadas a contatos já identificados.

Relatos recentes apontam que aproximadamente 60% a 70% dos novos casos estão sendo registrados fora das cadeias de contatos conhecidas, situação que dificulta a estratégia tradicional de rastreamento e isolamento de pessoas expostas.

O problema é especialmente grave em comunidades onde os serviços de saúde são limitados e onde pacientes podem permanecer em casa durante parte da evolução da doença.

A OMS vem reforçando a necessidade de que pessoas com sintomas procurem atendimento médico rapidamente, ao mesmo tempo em que equipes locais trabalham para identificar contatos, ampliar a testagem e orientar moradores sobre as formas de transmissão.

Infraestrutura e conflito complicam resposta

A epidemia acontece em uma região que já enfrenta uma grave crise humanitária.

A insegurança provocada por grupos armados dificulta a circulação de profissionais de saúde e a realização de atividades de vigilância. A existência de comunidades deslocadas, muitas vezes vivendo em condições de elevada concentração populacional, acrescenta outro obstáculo à prevenção.

A própria OMS descreve o cenário como complexo, citando a mobilidade da população, deslocamentos internos, limitações de acesso aos serviços básicos e incidentes de segurança envolvendo unidades de saúde e equipes de resposta.

Além disso, a resistência de parte da população e a circulação de informações falsas podem comprometer medidas como isolamento, acompanhamento de contatos e busca precoce por atendimento.

Resposta internacional é ampliada

Desde o início da epidemia, a OMS vem trabalhando com o governo da República Democrática do Congo e outros parceiros para ampliar a capacidade de resposta.

Entre as principais frentes estão a vigilância epidemiológica, rastreamento de contatos, diagnóstico laboratorial, atendimento clínico, prevenção e controle de infecções, distribuição de suprimentos e mobilização das comunidades.

Em junho, a OMS e o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), juntamente com parceiros, lançaram um plano continental de preparação e resposta ao ebola que previa a mobilização de US$ 518 milhões para apoiar países africanos na preparação, detecção e resposta à epidemia.

A estratégia internacional também considera o risco de propagação para países vizinhos. Uganda registrou casos ligados ao surto da RDC, embora a OMS tenha informado posteriormente que não havia novos casos no país desde 21 de junho e que as autoridades haviam iniciado o período de vigilância necessário para avaliar o encerramento do surto.

Caso em barco aumenta preocupação, mas não houve transmissão confirmada

A possibilidade de o vírus chegar à capital congolesa, Kinshasa, também provocou preocupação recentemente.

Mais de 200 passageiros de uma embarcação foram colocados em quarentena na região de Maluku, próximo à capital, depois que um passageiro que havia deixado o barco morreu com sintomas compatíveis com ebola. Exames realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica, entretanto, não identificaram casos de infecção pelo vírus Bundibugyo entre os passageiros examinados. A embarcação também foi submetida a procedimentos de descontaminação.

O episódio demonstra, ao mesmo tempo, a preocupação das autoridades com a possibilidade de deslocamento do vírus para outras regiões e a importância da vigilância epidemiológica para impedir que suspeitas isoladas evoluam para novos focos.

Por que o surto é diferente

O atual episódio apresenta características que aumentam a dificuldade da resposta.

O vírus responsável pertence à espécie Bundibugyo, para a qual não existe vacina ou terapia específica aprovada. Além disso, o surto ocorre em uma região com conflitos, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso, enquanto uma parcela significativa das infecções não está sendo vinculada rapidamente a contatos conhecidos.

A OMS, porém, avalia que o risco de disseminação global permanece baixo, em parte porque o ebola não é transmitido pelo ar como doenças respiratórias. A transmissão ocorre principalmente por contato com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou com materiais contaminados.

Isso não reduz a gravidade da situação para as comunidades diretamente afetadas. Para as autoridades sanitárias, o principal desafio continua sendo interromper as cadeias de transmissão antes que elas se espalhem para novas áreas.

Uma corrida contra o tempo

O avanço dos números transformou a epidemia em uma corrida contra o tempo para as autoridades congolesas e organizações internacionais.

A experiência acumulada em outros surtos mostra que a velocidade de identificação dos casos, o isolamento adequado, o atendimento clínico e a colaboração da população são determinantes para controlar a transmissão.

No caso atual, porém, esses esforços precisam ser realizados em um ambiente marcado por pobreza, deslocamentos, conflitos e dificuldades logísticas. A OMS afirma que o envolvimento das próprias comunidades será decisivo para que as medidas de controle funcionem.

Enquanto as equipes ampliam a vigilância e a assistência, o crescimento para mais de 4.200 casos confirmados e mais de 1.900 mortes evidencia a dimensão de uma das mais graves emergências de ebola registradas recentemente na África.

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