Casos de exposição à raiva aumentam nos EUA e autoridades reforçam alerta sobre prevenção

CDC registrou aumento de atendimentos relacionados à possível exposição ao vírus e chama atenção para a necessidade de avaliação rápida após mordidas, arranhões ou contato com animais suspeitos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um novo alerta emitido pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) colocou a raiva novamente no radar das autoridades de saúde. O órgão informou, neste mês de setembro, que diferentes regiões do país registraram aumento nas exposições humanas a animais com raiva ou potencialmente infectados desde julho. O crescimento também foi acompanhado por maior utilização da profilaxia pós-exposição, tratamento indicado para impedir que a doença se desenvolva depois de uma possível exposição.

Entre julho e agosto deste ano, o CDC recebeu 17% mais consultas relacionadas à raiva do que no mesmo período de 2025. O órgão também recebeu relatos de pelo menos oito departamentos estaduais de saúde sobre aumento no uso da profilaxia pós-exposição, erros na administração do tratamento ou os dois fatores. Segundo a agência, alguns dos episódios envolveram exposições em massa, nas quais mais de uma pessoa teve contato com um animal que poderia estar infectado.

O alerta é especialmente importante porque a raiva é uma doença viral que afeta o sistema nervoso central e, depois do início dos sintomas, é considerada quase 100% fatal. A boa notícia é que a doença pode ser evitada quando a pessoa exposta recebe a avaliação e o tratamento preventivo adequados antes do aparecimento dos sintomas. Por isso, o CDC reforça que uma possível exposição não deve ser ignorada nem tratada apenas como um ferimento comum.

Mordidas e arranhões não são as únicas situações de risco

A transmissão da raiva ocorre principalmente quando uma pessoa entra em contato com saliva ou tecido nervoso de um animal infectado, especialmente por meio de mordidas e arranhões. O CDC também considera situações em que secreções de um animal potencialmente infectado entram em contato com feridas ou determinadas regiões do corpo. Por isso, a avaliação deve levar em consideração não apenas o tipo de contato, mas também qual era o animal, seu comportamento, a situação em que ocorreu o contato e a possibilidade de o animal estar infectado.

Nos Estados Unidos, animais silvestres são importantes transmissores da raiva. Entre os animais associados à doença estão morcegos e outros mamíferos que podem entrar em contato com pessoas ou animais domésticos. O CDC recomenda que a população não se aproxime de animais selvagens que pareçam doentes, feridos ou que estejam apresentando comportamentos incomuns. Um exemplo citado pelas autoridades é encontrar durante o dia animais que normalmente têm hábitos noturnos.

O que fazer imediatamente depois de uma mordida ou arranhão?

Uma das primeiras medidas recomendadas pelo CDC é lavar imediatamente e de forma cuidadosa a área atingida com água e sabão por cerca de 15 minutos. Quando disponível, uma solução de povidona-iodo pode ser utilizada para irrigar a ferida. A limpeza é uma etapa importante da prevenção porque ajuda a reduzir a quantidade de vírus presente no local da exposição e também diminui o risco de infecções bacterianas.

Depois da limpeza, a pessoa deve procurar atendimento médico ou orientação do departamento de saúde pública o mais rapidamente possível. A decisão sobre a necessidade de profilaxia pós-exposição não deve ser feita apenas pelo paciente. Profissionais de saúde e autoridades sanitárias avaliam o risco considerando o animal envolvido, as circunstâncias do contato, sinais apresentados pelo animal e a gravidade e localização do ferimento.

Se o animal responsável pela exposição for um animal de estimação, também é importante verificar se ele está com a vacinação contra a raiva atualizada. Quando for possível fazê-lo com segurança, as autoridades podem orientar sobre a contenção, observação ou testagem do animal. A população não deve tentar capturar um animal selvagem por conta própria.

Como funciona a profilaxia pós-exposição

A chamada PEP (profilaxia pós-exposição) é um conjunto de medidas utilizadas para impedir que a infecção se estabeleça depois de uma exposição considerada de risco. Para uma pessoa que nunca foi vacinada contra a raiva, o tratamento inclui cuidados com a ferida, imunoglobulina humana contra a raiva (HRIG) e uma série de doses da vacina.

De acordo com a orientação atual do CDC, pessoas que nunca receberam vacinação contra a raiva devem receber a vacina no primeiro atendimento e novamente nos dias 3, 7 e 14. A imunoglobulina é administrada apenas uma vez, no início do tratamento, e deve ser aplicada de maneira apropriada ao redor das feridas quando isso for possível. Para pessoas que já foram previamente vacinadas contra a raiva, o esquema é diferente: são indicadas duas doses da vacina, nos dias 0 e 3, e não se utiliza imunoglobulina.

Pessoas com comprometimento do sistema imunológico podem precisar de um esquema diferente, com uma quinta dose da vacina e acompanhamento laboratorial para verificar se houve resposta adequada à imunização. Por isso, o histórico médico e a vacinação anterior são informações fundamentais no momento do atendimento.

Tratamento incorreto também preocupa o CDC

O alerta nacional não está relacionado apenas ao aumento das exposições. O CDC também identificou erros na administração da profilaxia pós-exposição. Entre os problemas relatados estão a aplicação da vacina no local errado, a utilização inadequada da imunoglobulina, a administração de imunoglobulina para pessoas que já haviam sido vacinadas e erros na identificação do histórico de vacinação do paciente.

Um dos pontos destacados pelas autoridades é que a vacina contra a raiva não deve ser aplicada na região glútea. Para adultos, a aplicação é feita no músculo deltoide; em crianças pequenas, a região anterolateral da coxa também pode ser utilizada. O CDC também ressalta que a imunoglobulina e a primeira dose da vacina não devem ser colocadas na mesma seringa ou no mesmo local anatômico.

A preocupação com o uso correto do tratamento também tem relação com os custos. Segundo o CDC, um curso típico de profilaxia pós-exposição pode custar entre US$ 11 mil e US$ 14 mil por pessoa. A agência informa que atualmente não há escassez de vacina contra a raiva ou de imunoglobulina humana nos Estados Unidos, mas ressalta que o uso adequado evita tratamentos desnecessários, gastos e pressão sobre os estoques.

Consumo de vacinas e imunoglobulinas também aumentou

Os números registrados pelo CDC mostram que o movimento não se limita aos relatos de exposição. Dados semanais de farmácias, até 2 de setembro de 2026, indicaram aumento estimado de 33% na utilização das duas vacinas contra a raiva licenciadas nos Estados Unidos e de 76% no uso das duas imunoglobulinas licenciadas, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Todos os anos, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas nos Estados Unidos procuram atendimento médico após contato com animais e passam por avaliação relacionada à possibilidade de exposição à raiva. Desse total, cerca de 100 mil recebem profilaxia pós-exposição. O aumento registrado neste verão levou o CDC a reforçar a orientação para que médicos e autoridades locais façam avaliações individualizadas antes de indicar o tratamento.

Prevenção começa antes do contato com animais

Para a população, uma das principais recomendações é evitar contato com animais selvagens e manter cães e outros animais de estimação com a vacinação contra a raiva em dia. Também é importante evitar que os animais domésticos tenham contato com animais silvestres sempre que possível.

O alerta do CDC não significa que toda mordida ou arranhão resultará em raiva, nem que todas as pessoas expostas precisarão receber o tratamento completo. A necessidade de profilaxia depende de uma avaliação individual do risco. Em determinadas situações, por exemplo, quando o animal está disponível para observação por um período de 10 dias ou quando os testes indicam resultado negativo, a PEP pode não ser necessária, segundo as orientações do CDC.

O ponto central da orientação das autoridades é o tempo. Não é necessário esperar o aparecimento de sintomas para procurar ajuda. Ao contrário de muitas doenças, quando os sinais clínicos da raiva aparecem, as possibilidades de prevenção já são drasticamente reduzidas. Por isso, diante de uma mordida, arranhão ou outro contato que possa representar risco, a recomendação é lavar imediatamente a área e buscar orientação médica ou de saúde pública para que o caso seja avaliado.

Importante: esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. A indicação da profilaxia pós-exposição deve ser definida por profissionais de saúde e autoridades sanitárias de acordo com as circunstâncias específicas de cada exposição.

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