Combinação experimental força células da leucemia mieloide aguda a manter alta atividade enquanto reduz sua capacidade de produzir energia; resultados foram observados em células de pacientes e modelos animais
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma estratégia experimental desenvolvida por pesquisadores de diferentes instituições pode abrir uma nova frente de investigação contra a leucemia mieloide aguda (LMA), um tipo agressivo de câncer que afeta o sangue e a medula óssea. O método combina duas substâncias para criar uma espécie de “curto-circuito” metabólico: ao mesmo tempo em que as células cancerosas são estimuladas a permanecer em alta atividade, sua capacidade de produzir energia é comprometida. O resultado é um nível de estresse que pode levar as células malignas à morte. O estudo foi publicado na revista científica Molecular Cancer em maio de 2026.
A pesquisa avaliou a molécula experimental AcTor em combinação com o medicamento ixazomib (IXZ). Segundo os pesquisadores, a associação apresentou atividade contra diferentes linhagens de LMA, amostras primárias obtidas de pacientes e modelos experimentais em animais. Os resultados também chamaram atenção porque a combinação manteve sua ação em modelos de leucemia com mutações no gene TP53, alteração associada a formas mais agressivas da doença e a respostas menos favoráveis aos tratamentos convencionais.
Como funciona a estratégia
O mecanismo estudado envolve uma estrutura celular conhecida como mTOR, relacionada à regulação do crescimento, da produção de componentes celulares e do metabolismo. A equipe desenvolveu o AcTor para interferir em uma proteína chamada TSC2, aumentando a atividade da via mTORC1.
Isoladamente, essa alteração não representa a estratégia terapêutica proposta. O objetivo é combinar o AcTor com o ixazomib, um inibidor do proteassoma. Enquanto o primeiro mantém determinados programas metabólicos da célula em funcionamento, o segundo interfere na capacidade celular de lidar com proteínas e com o estresse provocado pelo tratamento.
Essa combinação provoca um desequilíbrio dentro da célula cancerosa. Os experimentos indicaram queda da capacidade respiratória das mitocôndrias, perda do potencial da membrana mitocondrial, aumento de espécies reativas de oxigênio e ativação de mecanismos associados à morte celular.
Em termos simplificados, a proposta é fazer a célula leucêmica continuar funcionando em um ritmo que ela não consegue sustentar. Ao mesmo tempo em que sua atividade metabólica é elevada, sua capacidade de manter a produção de energia e lidar com o estresse é comprometida. O processo pode culminar em uma espécie de colapso energético.
Resultado também atingiu células associadas a recaídas
Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa foi o efeito observado sobre as células-tronco leucêmicas. Essas células são particularmente importantes na evolução da LMA porque podem sustentar a doença e contribuir para o reaparecimento do câncer após uma resposta inicial ao tratamento.
Nos modelos avaliados pelos pesquisadores, a combinação AcTor e ixazomib reduziu a carga de leucemia e eliminou células-tronco leucêmicas. Os experimentos em animais também indicaram que a atividade da combinação foi mantida mesmo após a ocorrência de recaída nos modelos utilizados.
A pesquisa também encontrou resultados em modelos de LMA com alterações no TP53. O gene está relacionado à produção da proteína p53, importante para o controle do crescimento e da resposta celular a danos. Alterações nessa região podem estar associadas a formas mais difíceis de tratar da doença.
O estudo relata que a combinação experimental apresentou eficácia em modelos com TP53 mutado, incluindo um modelo derivado de paciente. Os pesquisadores afirmam que o efeito foi superior ao observado com o tratamento padrão utilizado como comparação naquele modelo experimental.
Possível biomarcador pode ajudar a acompanhar resposta
Além do efeito sobre as células cancerosas, os pesquisadores identificaram uma possível pista para acompanhar a resposta ao tratamento. Os experimentos mostraram aumento da liberação da proteína ADM2 após a utilização da combinação.
A ADM2 poderá ser investigada como um possível biomarcador, ou seja, uma característica mensurável que poderia indicar se o organismo está respondendo à estratégia. Essa possibilidade ainda precisa ser estudada e validada em pesquisas futuras antes que se saiba se terá utilidade clínica.
A identificação de um biomarcador poderia ser importante caso a abordagem avance para estudos em humanos, pois permitiria investigar se determinadas alterações observadas nos pacientes estão relacionadas à resposta ao tratamento.
Descoberta ainda não pode ser considerada tratamento
Apesar dos resultados considerados promissores pelos pesquisadores, existe uma diferença fundamental entre o estágio atual da pesquisa e a utilização em pacientes.
Até o momento, os resultados são pré-clínicos. Isso significa que a estratégia foi estudada em células e modelos animais, e ainda não demonstrou segurança e eficácia em ensaios clínicos com seres humanos. A própria equipe responsável pelo trabalho afirma que são necessários novos estudos antes de uma eventual avaliação clínica.
Portanto, o AcTor não deve ser apresentado como uma nova terapia disponível contra a leucemia. Antes de chegar a pacientes, uma estratégia experimental precisa passar por diferentes etapas de avaliação, incluindo estudos de segurança, dose, efeitos adversos e eficácia em seres humanos.
Uma mudança no alvo da pesquisa contra o câncer
O trabalho também representa uma abordagem diferente de estratégias que buscam combater o câncer principalmente provocando danos ao DNA das células malignas. Neste caso, os pesquisadores exploram uma vulnerabilidade relacionada ao metabolismo e à produção de energia das células cancerosas.
A lógica é aproveitar uma característica do próprio câncer — sua elevada demanda metabólica — para criar uma situação em que a célula seja incapaz de sustentar o nível de atividade exigido. A combinação estudada tenta transformar essa dependência metabólica em uma fraqueza.
O artigo científico destaca justamente a possibilidade de explorar o metabolismo das células cancerosas como alternativa a abordagens baseadas exclusivamente em danos ao DNA.
O que acontece agora
Os pesquisadores deverão aprofundar os estudos pré-clínicos para determinar se a combinação é suficientemente segura e eficaz para avançar para ensaios clínicos. Caso essa etapa seja alcançada, serão necessários novos testes em seres humanos antes de qualquer eventual aprovação para uso médico.
Por enquanto, a principal conclusão do estudo é que AcTor combinado ao ixazomib conseguiu provocar um colapso metabólico em modelos experimentais de leucemia mieloide aguda, incluindo modelos associados a características de maior resistência. O resultado abre uma linha de investigação, mas ainda não representa uma cura ou um tratamento disponível para pacientes.
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