Documento da Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca riscos de desmaios, quedas e uso excessivo de medicamentos, além de defender tratamentos individualizados para a população idosa
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) lançou a terceira edição da Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria, um documento que atualiza as recomendações para o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de doenças cardiovasculares em pessoas idosas. A publicação foi apresentada durante o 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia e reúne orientações científicas destinadas a auxiliar médicos na tomada de decisões clínicas.
Com mais de 170 páginas, a nova diretriz reforça uma mudança importante na abordagem da saúde cardiovascular na terceira idade: a idade cronológica, isoladamente, não deve determinar o tratamento de um paciente. As decisões precisam considerar as condições gerais de saúde, a capacidade funcional, o grau de fragilidade, a presença de outras doenças e a autonomia de cada pessoa.
A proposta é oferecer um atendimento mais individualizado, levando em conta que dois pacientes com a mesma idade podem apresentar condições físicas, cognitivas e clínicas completamente diferentes.
Entre os principais destaques da publicação estão um capítulo dedicado à síncope, popularmente conhecida como desmaio, e recomendações específicas para identificar e tratar a síndrome da fragilidade, condição que aumenta a vulnerabilidade dos idosos diante de problemas de saúde.
Síncope em idosos: desmaios podem esconder doenças cardiovasculares
Uma das principais novidades da diretriz é a inclusão de um capítulo exclusivo sobre síncope na população geriátrica. O tema merece atenção porque os desmaios podem ser confundidos com quedas comuns, episódios de tontura ou fraqueza, dificultando a identificação de problemas cardiovasculares potencialmente graves.
A síncope é caracterizada pela perda transitória da consciência, geralmente acompanhada de perda do tônus postural, provocada por uma redução temporária do fluxo sanguíneo cerebral.
Nos idosos, a investigação exige cuidados especiais, pois diferentes fatores podem estar envolvidos, como alterações do ritmo cardíaco, queda da pressão arterial, doenças cardiovasculares e efeitos adversos de medicamentos.
De acordo com os dados apresentados no material de divulgação da diretriz, aproximadamente 45% das quedas não acidentais entre idosos podem corresponder a episódios de síncope não reconhecidos.
Isso significa que uma queda aparentemente simples pode esconder um problema clínico que precisa ser investigado.
Diferentemente de pessoas mais jovens, os idosos podem apresentar menor capacidade de reação e proteção durante uma queda. Como consequência, o impacto pode provocar fraturas, especialmente do fêmur, traumatismos cranianos e outras complicações que comprometem a mobilidade e a independência.
A avaliação médica deve considerar o histórico do episódio, os medicamentos utilizados, a pressão arterial em diferentes posições e a realização de exames, como o eletrocardiograma. Dependendo dos resultados, podem ser necessários exames complementares para identificar alterações cardíacas.
Polifarmácia aumenta o risco de tonturas, quedas e desmaios
Outro ponto de atenção é a polifarmácia, situação caracterizada pelo uso simultâneo de vários medicamentos, frequentemente definida como a utilização de cinco ou mais fármacos.
Embora muitos idosos precisem de diferentes medicamentos para controlar doenças crônicas, a combinação de substâncias pode aumentar o risco de interações medicamentosas e efeitos adversos.
Alguns medicamentos utilizados no tratamento da hipertensão, doenças cardíacas e outras condições podem provocar redução excessiva da pressão arterial, tonturas, fraqueza e episódios de desmaio.
O problema pode se agravar quando o paciente utiliza medicamentos prescritos por diferentes especialistas sem uma revisão conjunta das indicações e dosagens.
Por isso, a nova diretriz reforça a importância da revisão periódica das prescrições. O cardiologista deve avaliar se todos os medicamentos continuam necessários, se existem interações prejudiciais e se as doses estão adequadas às condições clínicas do paciente.
A orientação não significa interromper tratamentos por conta própria ou simplesmente reduzir a quantidade de medicamentos. O objetivo é garantir que cada substância tenha indicação adequada e ofereça mais benefícios do que riscos.
Síndrome da fragilidade exige atenção especial
A fragilidade é outro tema central da atualização das recomendações da cardiogeriatria.
A síndrome é caracterizada pela redução das reservas fisiológicas do organismo, fazendo com que a pessoa tenha maior dificuldade para enfrentar situações de estresse físico, como infecções, cirurgias, internações, desidratação e alterações na medicação.
Um idoso com fragilidade pode apresentar uma recuperação mais lenta diante de problemas de saúde que seriam considerados simples em pessoas com maior reserva funcional.
A condição também aumenta o risco de quedas, hospitalizações, perda de autonomia e complicações durante tratamentos cardiovasculares.
Entretanto, a diretriz ressalta que a fragilidade não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento. Sua identificação precoce permite a adoção de medidas para melhorar a capacidade física e reduzir a vulnerabilidade.
Perda de força muscular pode ser um dos primeiros sinais
A sarcopenia, caracterizada pela perda progressiva de massa, força e desempenho muscular, está entre os principais indicadores associados à fragilidade.
O reconhecimento dos primeiros sinais é importante para que o paciente receba acompanhamento antes que as limitações comprometam significativamente sua independência.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- Fraqueza nas mãos: dificuldade para segurar objetos ou realizar um aperto de mão firme.
- Dificuldade para levantar: necessidade de apoio para sair de uma cadeira ou levantar da cama.
- Marcha lenta: redução da velocidade ao caminhar e dificuldade para percorrer pequenas distâncias.
- Cansaço frequente: sensação persistente de exaustão durante atividades habituais.
- Perda de capacidade funcional: dificuldade crescente para realizar tarefas domésticas e atividades do cotidiano.
Esses sinais não confirmam, isoladamente, a presença de fragilidade ou sarcopenia. A avaliação deve ser feita por profissionais de saúde, considerando o histórico clínico, a força muscular, a mobilidade, a alimentação e outras condições do paciente.
Exercícios de força e resistência ajudam a preservar a autonomia
A prática regular de atividades físicas adaptadas às condições individuais é uma das estratégias mais importantes para prevenir e combater a perda de capacidade funcional.
Os exercícios de resistência e fortalecimento muscular podem contribuir para recuperar força, melhorar o equilíbrio e facilitar atividades como caminhar, levantar e subir escadas.
A atividade física também beneficia a saúde cardiovascular, auxilia no controle da pressão arterial e pode melhorar a qualidade de vida.
Entretanto, o programa de exercícios precisa considerar as limitações e as doenças existentes. Pacientes com problemas cardíacos, histórico de quedas ou fragilidade importante devem passar por avaliação profissional antes de iniciar atividades mais intensas.
A alimentação adequada, especialmente o consumo suficiente de proteínas e nutrientes essenciais, também participa da preservação da massa muscular.
Avaliação Geriátrica Ampla é considerada fundamental
A nova diretriz destaca a importância da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), uma abordagem interdisciplinar destinada a identificar as diferentes necessidades de saúde da pessoa idosa.
O procedimento é considerado uma ferramenta fundamental para compreender a situação global do paciente, indo além dos exames cardiovasculares convencionais.
A avaliação contempla diferentes dimensões:
- Clínica: identificação de doenças crônicas, condições cardiovasculares e outros problemas de saúde.
- Funcional: análise da capacidade de realizar atividades básicas e instrumentais do cotidiano.
- Cognitiva: investigação de alterações de memória, atenção e capacidade de compreensão.
- Nutricional: identificação de desnutrição, perda de peso e risco de sarcopenia.
- Psicológica: avaliação de sintomas de depressão, ansiedade e outras alterações emocionais.
- Social: identificação da rede de apoio familiar, condições de moradia e acesso aos serviços de saúde.
A proposta é reunir informações que permitam construir um plano terapêutico adequado à realidade de cada paciente.
A atuação conjunta de cardiologistas, geriatras, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais pode melhorar os resultados do acompanhamento.
Tratamentos cardiovasculares precisam considerar as condições individuais
A idade avançada não deve ser utilizada como justificativa isolada para deixar de oferecer tratamentos que possam beneficiar o paciente.
A diretriz recomenda avaliar cuidadosamente os riscos e benefícios de cada intervenção, considerando a expectativa de vida, as doenças associadas, a fragilidade e as preferências individuais.
Essa abordagem é particularmente importante em pacientes com doenças cardiovasculares que necessitam de procedimentos mais complexos.
Na avaliação de problemas nas válvulas cardíacas, por exemplo, a escolha entre cirurgia convencional e procedimentos menos invasivos deve considerar as condições clínicas, a anatomia, o risco cirúrgico e a possibilidade de recuperação.
A diretriz também aborda a insuficiência cardíaca, as arritmias, a fibrilação atrial, a doença arterial coronariana e outras condições frequentes no envelhecimento.
O objetivo é evitar tanto tratamentos excessivamente agressivos quanto a exclusão de intervenções potencialmente benéficas apenas em razão da idade.
Hipertensão, colesterol e prevenção cardiovascular na terceira idade
O controle dos fatores de risco cardiovascular continua sendo essencial durante o envelhecimento.
A hipertensão arterial, o colesterol elevado, o diabetes, o sedentarismo e o tabagismo estão entre os fatores que aumentam a possibilidade de infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.
Entretanto, o tratamento precisa considerar as particularidades da população idosa.
Na hipertensão, por exemplo, o controle da pressão arterial deve ser acompanhado da avaliação de sintomas como tontura, fraqueza e hipotensão postural, situação em que a pressão cai quando a pessoa se levanta.
Já no controle do colesterol, a definição das metas terapêuticas deve levar em conta o risco cardiovascular, o histórico de eventos anteriores, a tolerabilidade dos medicamentos e as condições gerais de saúde.
A diretriz também reforça a importância de avaliar a presença de aterosclerose e outros indicadores de risco para orientar as decisões preventivas.
Envelhecimento saudável depende de acompanhamento contínuo
A atualização da Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria representa um avanço na forma de compreender e tratar as doenças cardiovasculares entre pessoas idosas.
Ao colocar a fragilidade, a funcionalidade, a cognição e a autonomia no centro das decisões clínicas, a SBC reforça que o envelhecimento precisa ser acompanhado de maneira integral.
A prevenção de quedas, a revisão dos medicamentos, a prática de exercícios físicos, a alimentação equilibrada e o acompanhamento médico regular são medidas importantes para preservar a saúde e a independência.
Mais do que prolongar a expectativa de vida, o desafio da cardiogeriatria é garantir que as pessoas envelheçam com qualidade, segurança e autonomia.
A principal mensagem da nova diretriz é que o tratamento cardiovascular deve considerar não apenas a idade do paciente, mas principalmente suas condições de saúde, suas necessidades e sua capacidade de manter uma vida independente.
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