Primeiro caso da mosca-de-rosca do Novo Mundo no Texas desde 1966 mobiliza autoridades federais, provoca quarentena e reacende preocupações sobre impactos econômicos e sanitários
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O reaparecimento da mosca-de-rosca do Novo Mundo (New World Screwworm – NWS) em território americano, após seis décadas de erradicação, acendeu um sinal de alerta entre autoridades sanitárias, pecuaristas e especialistas em saúde animal. O caso foi confirmado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em um bezerro de apenas três semanas de idade, encontrado em La Pryor, no sul do Texas, marcando a primeira ocorrência da praga no estado desde 1966. A descoberta desencadeou medidas emergenciais de contenção e reforçou os temores de prejuízos bilionários para uma das maiores indústrias agropecuárias do mundo.
A mosca-de-rosca do Novo Mundo é considerada uma das pragas mais destrutivas para animais de sangue quente. Diferentemente das moscas comuns, suas larvas não se alimentam de matéria orgânica em decomposição. Elas invadem feridas abertas, mucosas e lesões recentes, consumindo tecido vivo do hospedeiro. Sem tratamento, a infestação pode levar à morte do animal.
Segundo o USDA, o caso foi identificado após veterinários detectarem larvas na região umbilical de um bezerro no Condado de Zavala. As amostras foram enviadas ao Laboratório Nacional de Serviços Veterinários, em Iowa, onde a presença do parasita foi confirmada. Imediatamente, equipes federais e estaduais iniciaram ações de resposta para evitar a propagação da praga.
Como a mosca ameaça os rebanhos
A infestação ocorre quando a fêmea deposita ovos em feridas ou aberturas naturais do corpo de animais. Após a eclosão, centenas de larvas penetram nos tecidos vivos, ampliando rapidamente as lesões e provocando dor intensa, infecções secundárias e, em casos graves, a morte do hospedeiro.
Bovinos são particularmente vulneráveis devido às práticas rotineiras de manejo, como marcação, descorna, castração, transporte e até pequenos arranhões causados durante o manejo diário. Ferimentos decorrentes do parto também representam uma porta de entrada para o parasita.
Embora casos em seres humanos sejam raros, eles podem ocorrer, principalmente em regiões onde o inseto está presente. As autoridades reforçam, entretanto, que a praga não contamina carne ou alimentos destinados ao consumo humano.
Caminho de volta aos Estados Unidos
Especialistas monitoravam a aproximação da mosca desde 2024, quando surtos começaram a ser registrados no sul do México após o rompimento das barreiras naturais e sanitárias que durante décadas mantiveram o parasita restrito à América Central. Desde então, milhares de casos foram confirmados em animais mexicanos.
A preocupação aumentou nos últimos meses à medida que a praga avançava em direção à fronteira americana. No final de maio, autoridades já haviam registrado casos em áreas mexicanas localizadas a poucas dezenas de quilômetros do Texas.
Texas decreta quarentena
Como resposta imediata, a Comissão de Saúde Animal do Texas estabeleceu uma zona de quarentena de aproximadamente 12 milhas (cerca de 19 quilômetros) ao redor da área afetada. A movimentação de animais de sangue quente passou a ser rigidamente controlada, exigindo inspeções antes de qualquer transporte.
Autoridades também intensificaram armadilhas de monitoramento, inspeções veterinárias e campanhas de conscientização voltadas a produtores rurais. A orientação é que qualquer ferida suspeita em animais seja imediatamente comunicada aos órgãos sanitários.
A arma que já derrotou a praga
Apesar da gravidade da situação, especialistas afirmam que os Estados Unidos possuem uma vantagem importante: a tecnologia que erradicou a mosca-de-rosca do país há mais de meio século.
O principal método utilizado é conhecido como Técnica do Inseto Estéril. Nele, milhões de moscas machos são criadas em laboratório, esterilizadas por radiação e liberadas na natureza. Como as fêmeas acasalam apenas uma vez durante a vida, os cruzamentos com machos estéreis impedem a produção de descendentes, levando ao colapso gradual da população da praga.
O USDA informou que já vinha liberando milhões de moscas estéreis no sul do Texas desde fevereiro deste ano. Além disso, o governo federal investe na ampliação da infraestrutura de combate ao parasita, incluindo uma nova instalação de produção de moscas estéreis em Edinburg, no Texas, e a modernização de um centro no México.
Impacto econômico preocupa produtores
O retorno da mosca-de-rosca ocorre em um momento delicado para o setor pecuário americano. O Texas lidera a produção de bovinos nos Estados Unidos e abriga uma indústria avaliada em bilhões de dólares.
Analistas alertam que uma disseminação descontrolada poderia provocar perdas econômicas significativas, afetando desde pequenos produtores até grandes operações pecuárias. O mercado futuro de gado já reagiu à notícia, refletindo a preocupação dos investidores com possíveis impactos na oferta de carne bovina.
Apesar disso, o USDA mantém uma postura cautelosamente otimista. A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, declarou que as equipes de resposta já estão mobilizadas e que o governo acredita ser possível conter rapidamente o foco identificado no Texas.
Vigilância será decisiva
Especialistas concordam que os próximos meses serão determinantes para evitar que a mosca volte a se estabelecer permanentemente nos Estados Unidos. A combinação de monitoramento intensivo, restrições ao transporte de animais e liberação em massa de insetos estéreis será fundamental para impedir uma nova expansão da praga.
Mais de 60 anos após sua erradicação histórica, a mosca-de-rosca do Novo Mundo volta a desafiar a pecuária americana, colocando à prova um dos programas de controle biológico mais bem-sucedidos da história da agricultura moderna.
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