Comida contaminada mata 1,5 milhão de pessoas por ano no mundo e coloca crianças entre as principais vítimas

Relatório revela que 866 milhões adoecem anualmente por alimentos inseguros; substâncias químicas são responsáveis por quase três quartos das mortes
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A comida que deveria promover saúde e nutrição está se transformando em uma das maiores ameaças silenciosas à saúde pública mundial. Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que cerca de 866 milhões de pessoas adoecem todos os anos devido ao consumo de alimentos contaminados, enquanto aproximadamente 1,5 milhão morrem em consequência dessas doenças.

Os dados, divulgados às vésperas do Dia Mundial da Segurança Alimentar, celebrado em 7 de junho, mostram que a crise vai muito além de surtos ocasionais de intoxicação alimentar. O problema envolve contaminação biológica, química e ambiental, afetando principalmente crianças pequenas e populações vulneráveis nos países de baixa e média renda.

Segundo a OMS, o impacto humano e econômico da insegurança alimentar é devastador, gerando custos bilionários para sistemas de saúde, perdas de produtividade e comprometimento do desenvolvimento infantil em diversas regiões do planeta.

Crianças sofrem impacto desproporcional

O relatório aponta que crianças com menos de cinco anos apresentam risco três vezes maior de adoecer em decorrência do consumo de alimentos inseguros.

Além das infecções gastrointestinais e doenças diarreicas agudas, que continuam sendo uma das principais causas de mortalidade infantil em muitos países, os especialistas alertam para consequências de longo prazo relacionadas à exposição a contaminantes químicos presentes nos alimentos.

Entre os maiores riscos estão o chumbo e o metilmercúrio, substâncias capazes de comprometer o desenvolvimento cerebral ainda nos primeiros anos de vida.

De acordo com a OMS, a exposição contínua a esses contaminantes pode provocar danos neurológicos permanentes, dificuldades de aprendizagem, déficits cognitivos e prejuízos ao desenvolvimento intelectual, efeitos que acompanham a criança por toda a vida.

“O impacto não se limita à doença imediata. Estamos falando de consequências que afetam o potencial educacional, social e econômico de gerações inteiras”, destaca o relatório.

Produtos químicos matam mais do que bactérias e vírus

Embora bactérias, vírus, fungos e parasitas sejam responsáveis pela maior parte dos casos de doenças transmitidas por alimentos, os contaminantes químicos são os maiores responsáveis pelas mortes.

Segundo a análise da OMS, 73% de todos os óbitos associados à insegurança alimentar estão relacionados à exposição a substâncias químicas presentes na cadeia alimentar.

O arsênio inorgânico lidera a lista dos compostos mais perigosos, sendo responsável por 42% das mortes relacionadas à contaminação química.

Encontrado naturalmente em alguns solos e águas subterrâneas, o arsênio pode se acumular em alimentos como arroz, cereais e vegetais cultivados em áreas contaminadas. A exposição prolongada está associada ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares e problemas metabólicos.

Já o chumbo responde por aproximadamente 31% das mortes relacionadas a contaminantes químicos. O metal pesado pode entrar na cadeia alimentar por meio da poluição industrial, resíduos ambientais e contaminação de solos e águas utilizados na produção agrícola.

Especialistas alertam que, uma vez presentes no ambiente, esses elementos são extremamente difíceis de eliminar.

Mudanças climáticas agravam a crise

A OMS destaca que a mudança climática está acelerando os riscos relacionados à segurança alimentar.

O aumento das temperaturas favorece a proliferação de bactérias, fungos e toxinas em alimentos, além de alterar padrões agrícolas e aumentar a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento.

Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, enchentes e tempestades, também comprometem sistemas de saneamento e armazenamento, elevando os riscos de contaminação.

A autora principal do estudo, a especialista técnica da OMS Yuki Minato, afirma que as mudanças climáticas estão criando condições cada vez mais favoráveis para a disseminação de doenças transmitidas por alimentos.

Segundo ela, os efeitos já são percebidos em diversas regiões do mundo, especialmente em países que enfrentam limitações estruturais nos sistemas de vigilância sanitária.

Resistência antimicrobiana preocupa especialistas

Outro fator que agrava o cenário global é o crescimento da resistência antimicrobiana.

A OMS alerta que infecções alimentares consideradas simples há alguns anos estão se tornando mais difíceis de tratar devido à redução da eficácia dos antibióticos.

Isso significa que doenças anteriormente controladas podem evoluir para quadros mais graves, prolongando internações e aumentando o risco de complicações e mortes.

Para especialistas, a resistência antimicrobiana representa uma ameaça crescente que exige respostas coordenadas entre os setores de saúde humana, medicina veterinária, agricultura e meio ambiente.

África e Sudeste Asiático concentram maior carga da doença

A distribuição dos impactos da insegurança alimentar também revela profundas desigualdades globais.

África e Sudeste Asiático concentram aproximadamente 75% de todas as doenças relacionadas ao consumo de alimentos contaminados e cerca de 60% das mortes registradas mundialmente.

Nessas regiões, fatores como falta de saneamento básico, acesso limitado à água potável, sistemas de fiscalização insuficientes e infraestrutura precária de armazenamento aumentam significativamente os riscos.

A OMS ressalta que a segurança alimentar não deve ser tratada apenas como uma questão de saúde pública, mas também como um desafio de desenvolvimento econômico e justiça social.

Solução exige ação integrada dos governos

Diante do cenário, a OMS defende uma abordagem conhecida como “Saúde Única” (One Health), que integra ações nos setores de saúde humana, animal, vegetal e ambiental.

A recomendação é que governos eliminem barreiras entre ministérios e órgãos responsáveis por agricultura, meio ambiente, vigilância sanitária e saúde pública.

Entre as medidas prioritárias estão:

  • Fortalecimento dos sistemas de inspeção sanitária;
  • Controle rigoroso de poluentes industriais;
  • Monitoramento da qualidade da água utilizada na agricultura;
  • Ampliação do saneamento básico;
  • Investimentos em rastreabilidade alimentar;
  • Educação para produtores e consumidores;
  • Vigilância epidemiológica integrada.

“Atrasar ações significa perder vidas que poderiam ser protegidas”, alertou Yuki Minato durante a apresentação do estudo.

Nova plataforma ajudará países a identificar riscos

Como parte das ações para enfrentar o problema, a OMS anunciou o desenvolvimento de uma nova plataforma digital interativa que permitirá aos governos acessar informações detalhadas sobre riscos alimentares em seus territórios.

A ferramenta deverá auxiliar na identificação de áreas prioritárias para investimentos em vigilância sanitária, saneamento, controle ambiental e segurança dos alimentos.

A expectativa é transformar dados epidemiológicos em políticas públicas mais eficientes e direcionadas às necessidades específicas de cada país.

Dia Mundial da Segurança Alimentar reforça urgência do tema

O lançamento do relatório ocorre em um momento simbólico. Em 7 de junho, a comunidade internacional celebra o Dia Mundial da Segurança Alimentar com o tema: “Do fardo às soluções – comida segura em todos os lugares”.

A campanha busca conscientizar governos, produtores, empresas e consumidores sobre a importância de garantir alimentos seguros ao longo de toda a cadeia produtiva.

Para a OMS, investir em segurança alimentar não é apenas uma questão de prevenção de doenças, mas uma estratégia fundamental para proteger vidas, reduzir desigualdades e fortalecer sistemas alimentares mais sustentáveis para as futuras gerações.

  • Leia mais:

Parasita devorador de tecidos reaparece nos EUA após 60 anos e coloca indústria pecuária em alerta máximo

EUA analisam ampliar presença nuclear na Europa para reforçar segurança da Otan

Marcha para Jesus fortalece ligação de Flávio com o eleitorado evangélico

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*