Com mais de 450 infecções confirmadas e 82 mortes registradas, autoridades apontam transmissão comunitária acelerada enquanto OMS e Africa CDC lançam plano bilionário para conter o surto
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A República Democrática do Congo enfrenta uma rápida escalada do surto de ebola após a confirmação de 71 novos casos em apenas um dia. O avanço da doença elevou para 452 o número total de infecções confirmadas e para 82 o total de mortes, intensificando a preocupação das autoridades sanitárias nacionais e de organismos internacionais diante do risco de expansão da epidemia na África Central.
De acordo com informações divulgadas pelo governo congolês nesta sexta-feira (5), os novos registros reforçam a evidência de que o vírus está sendo transmitido de forma contínua entre membros da comunidade. O cenário preocupa especialistas devido à velocidade de propagação da doença e à dificuldade de interromper as cadeias de contágio.
Em resposta ao agravamento da situação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (Africa CDC) anunciaram um plano conjunto de US$ 518 milhões para fortalecer as ações de combate ao surto entre os meses de junho e novembro deste ano.
Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, os recursos serão direcionados para áreas estratégicas, incluindo coordenação de emergências, vigilância epidemiológica, ampliação da capacidade laboratorial, controle de infecções, atendimento clínico e mobilização das comunidades afetadas.
O surto foi oficialmente declarado em 15 de maio, mas especialistas acreditam que a variante Bundibugyo do vírus já circulava silenciosamente na região nordeste do país antes de ser identificada pelas autoridades de saúde.
Ituri concentra a maioria dos casos
A província de Ituri permanece como o principal foco da epidemia. Dados do Africa CDC indicam que cerca de 90% das infecções confirmadas e mais de três quartos das mortes ocorreram na região. O vírus já alcançou outras duas províncias congolesas, ampliando a preocupação sobre sua disseminação.
O impacto também ultrapassou as fronteiras nacionais. Em Uganda, país vizinho, autoridades sanitárias confirmaram 16 casos relacionados ao surto, incluindo uma morte.
Especialistas observam que o atual episódio já superou os surtos anteriores associados à variante Bundibugyo registrados em 2007 e 2012, tornando-se o maior evento já documentado envolvendo essa cepa específica do ebola.
Ausência de vacina específica desafia resposta sanitária
Um dos principais obstáculos para conter a epidemia é a inexistência de uma vacina aprovada especificamente para a variante Bundibugyo. Autoridades de saúde analisam a possibilidade de utilização emergencial da vacina Ervebo, desenvolvida pela farmacêutica Merck e atualmente autorizada para proteção contra a variante Zaire do vírus.
Estudos preliminares apontam que o imunizante pode oferecer algum nível de proteção cruzada contra outras variantes, mas a decisão sobre seu uso dependerá das avaliações dos governos do Congo e de Uganda.
Enquanto isso, a Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi) informou que mantém um estoque de aproximadamente 2 mil doses de vacinas contra o ebola disponível no Congo para eventual utilização em estratégias emergenciais.
Financiamento insuficiente preocupa organizações internacionais
A resposta ao surto também enfrenta dificuldades financeiras. Representantes da OMS alertam que a redução de recursos destinados à saúde global vem afetando operações essenciais de combate à doença.
Dados do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) mostram que apenas 34% dos US$ 1,4 bilhão solicitados para ações humanitárias no Congo em 2026 foram efetivamente recebidos até o momento, criando desafios adicionais para o enfrentamento da crise.
Novas tecnologias buscam acelerar combate ao vírus
Diante da emergência sanitária, empresas e organizações de pesquisa ampliaram investimentos em soluções para controle da doença. A farmacêutica Moderna anunciou uma parceria com a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) para desenvolver uma vacina direcionada à variante Bundibugyo. O projeto poderá receber até US$ 50 milhões em investimentos nas etapas iniciais.
Paralelamente, a BioFire Defense, subsidiária da bioMérieux, informou a expansão da produção de testes capazes de identificar diferentes variantes do vírus ebola, incluindo a cepa atualmente responsável pelo surto no Congo.
Apesar do crescimento dos casos confirmados, a OMS informou que houve redução no número de notificações suspeitas monitoradas na região. Segundo a organização, centenas de ocorrências inicialmente investigadas foram descartadas após exames laboratoriais apontarem outras doenças ou quadros febris sem relação com o ebola.
As autoridades de saúde seguem monitorando a evolução do surto e reforçando medidas de vigilância para evitar que a doença se espalhe ainda mais pela África Central.
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