Surto de sarampo explode nos Estados Unidos e já atinge recorde histórico após queda na vacinação

Levantamento da Universidade Johns Hopkins aponta 2.295 casos da doença em apenas seis meses, maior número em mais de três décadas; especialistas alertam que redução da cobertura vacinal ameaça a proteção coletiva e favorece novos surtos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Os Estados Unidos enfrentam, em 2026, o maior surto de sarampo das últimas décadas. Dados divulgados pela Universidade Johns Hopkins mostram que o país já contabiliza 2.295 casos da doença desde o início do ano, superando o total registrado durante todo o ano de 2025. O avanço da enfermidade está diretamente associado à queda da cobertura vacinal, cenário que preocupa autoridades de saúde e especialistas, que alertam para o risco de novas epidemias caso a imunização continue em declínio.

Casos atingem maior patamar em 35 anos

Em apenas seis meses, os Estados Unidos registraram 2.295 infecções por sarampo, ultrapassando os 2.289 casos contabilizados durante todo o ano passado. O vírus já foi identificado em 44 dos 50 estados norte-americanos, configurando o maior avanço da doença em aproximadamente 35 anos.

Segundo a Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, os números refletem principalmente grandes surtos registrados no início do ano em estados como Carolina do Sul e Utah, que impulsionaram a disseminação do vírus para outras regiões do país.

O epidemiologista William Moss, especialista em doenças infecciosas da Johns Hopkins, afirmou que o crescimento demonstra que os esforços para interromper a transmissão do vírus não foram suficientes.

Retorno de uma doença considerada eliminada

O cenário representa um retrocesso importante para a saúde pública americana. Em 2000, o sarampo havia sido oficialmente declarado eliminado dos Estados Unidos, já que não existia transmissão contínua da doença por mais de 12 meses.

Embora casos importados continuassem ocorrendo ocasionalmente, surtos localizados em 2014 e 2019 já haviam levantado preocupações sobre um possível retorno permanente da doença.

Agora, com a circulação sustentada do vírus em praticamente todo o território nacional, especialistas afirmam que os EUA vivem seu pior momento desde o início da década de 1990.

Queda da vacinação preocupa especialistas

A principal explicação para a atual epidemia é a redução da cobertura vacinal.

Dados da Universidade Johns Hopkins mostram que 95% dos casos registrados em 2026 ocorreram entre pessoas não vacinadas ou com situação vacinal desconhecida, reforçando a eficácia da imunização.

A instituição destaca que duas doses da vacina tríplice viral (MMR) oferecem aproximadamente 97% de proteção contra o sarampo, índice amplamente reconhecido por autoridades sanitárias internacionais.

Entretanto, a cobertura vacinal infantil caiu significativamente nos últimos anos. Enquanto em 2020 mais de 95% das crianças pequenas estavam imunizadas, atualmente esse índice está abaixo de 93%, percentual insuficiente para manter a chamada imunidade coletiva, considerada essencial para impedir a circulação do vírus.

Infecção cresce também entre adolescentes e adultos

Ao contrário da percepção de que o sarampo afeta apenas crianças pequenas, os dados mostram um perfil mais amplo dos pacientes.

Menores de cinco anos representam menos de 20% dos casos registrados em 2026.

Quase metade das infecções ocorreu entre pessoas de 5 a 17 anos, enquanto cerca de 30% dos casos foram registrados em adultos, evidenciando que a redução da vacinação ao longo dos anos afetou diferentes faixas etárias.

Desinformação alimentou queda da imunização

Especialistas apontam que a diminuição da confiança nas vacinas começou a ganhar força no início dos anos 2000.

Segundo a médica Anne Sénéquier, codiretora do Observatório da Saúde Global do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), um estudo publicado em 1998 — posteriormente retirado da revista científica The Lancet por fraude e graves falhas metodológicas — associava, de forma equivocada, a vacina tríplice viral ao autismo.

Embora desacreditado pela comunidade científica, o estudo contribuiu para impulsionar movimentos antivacina, especialmente com a expansão das redes sociais e da internet.

Diversas organizações científicas, incluindo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçam que não existe qualquer evidência científica que relacione vacinas ao desenvolvimento do autismo.

Pandemia ampliou desconfiança

A pandemia de Covid-19 também contribuiu para aumentar a resistência à vacinação em parte da população americana.

Pesquisas realizadas nos últimos anos apontaram crescimento no número de pais favoráveis à possibilidade de não vacinar seus filhos, especialmente entre determinados grupos políticos, ampliando o desafio das campanhas de imunização.

Especialistas afirmam que, paralelamente, o sucesso histórico das vacinas acabou reduzindo a percepção dos riscos do sarampo, levando parte da população a subestimar a gravidade da doença.

Mudanças na política de saúde geram debate

Desde o início do atual governo norte-americano, mudanças na estrutura da saúde pública também passaram a ser alvo de discussões.

Entre elas estão reestruturações em órgãos federais, alterações em comitês consultivos ligados à imunização e revisões em recomendações do calendário vacinal infantil.

As medidas geraram críticas de parte da comunidade científica, que teme impactos sobre a confiança da população nas campanhas de vacinação.

Doença pode causar complicações graves

O sarampo é uma doença altamente contagiosa causada por um vírus transmitido pelo ar. Entre os principais sintomas estão:

  • Febre alta;

  • Tosse;

  • Coriza;

  • Conjuntivite;

  • Manchas vermelhas pelo corpo.

Embora muitos pacientes se recuperem, a infecção pode provocar complicações graves, incluindo:

  • Pneumonia;

  • Encefalite (inflamação no cérebro);

  • Cegueira;

  • Internações prolongadas;

  • Morte.

Antes da introdução da vacina, na década de 1960, o sarampo provocava centenas de mortes infantis todos os anos apenas nos Estados Unidos e ainda hoje continua causando milhares de óbitos em diversos países.

Especialistas reforçam importância da vacinação

Para epidemiologistas e autoridades sanitárias, o atual surto reforça que o controle do sarampo depende da manutenção de altas taxas de vacinação.

A queda da cobertura vacinal reduz a proteção coletiva, facilita a circulação do vírus e aumenta o risco de surtos mesmo em países que haviam eliminado a transmissão da doença.

Organizações internacionais de saúde continuam recomendando a vacinação como a forma mais eficaz e segura de prevenir novos casos, proteger pessoas vulneráveis e evitar o retorno permanente de uma enfermidade considerada controlada durante décadas.

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