André Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por suspeitas de corrupção e tráfico de influência

Ministro do STF autorizou a abertura de inquérito após desdobramentos da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos indevidos de benefícios do INSS e levou a PF a apurar suspeitas envolvendo o filho do presidente Lula
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a instaurar um inquérito para investigar o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, por suspeitas de corrupção e tráfico de influência em negociações relacionadas ao mercado de cannabis medicinal junto ao Ministério da Saúde. A investigação corre sob sigilo e tem como origem elementos reunidos durante a Operação Sem Desconto, que apura um esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Lulinha passou a ser alvo de uma investigação própria após a Polícia Federal identificar indícios de sua relação com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. O pedido para abertura do inquérito foi distribuído ao gabinete de André Mendonça por prevenção no dia 29 de julho, em razão da conexão com investigações já em andamento na Corte.

Segundo a apuração da Polícia Federal, o relacionamento entre Lulinha, o lobista e a empresária Roberta Luchsinger estaria ligado a tratativas envolvendo projetos no setor de cannabis medicinal. As investigações apontam que, em agosto de 2025, Careca do INSS e Roberta Luchsinger estiveram no Ministério da Saúde, no mesmo dia e horário, em reunião com a Secretaria-Executiva da pasta, então comandada por Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger. Atualmente, Berger ocupa o cargo de chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal da Presidência da República.

Os investigadores também identificaram movimentações financeiras consideradas relevantes durante a apuração. Conforme o relatório policial, Roberta Luchsinger recebeu cerca de R$ 1,5 milhão em pagamentos efetuados pelo lobista. Em uma das transferências analisadas, Antonio Carlos Camilo Antunes teria informado a um interlocutor que o valor era destinado ao “filho do rapaz”, expressão que a Polícia Federal considera uma possível referência ao filho do presidente da República. O inquérito busca esclarecer o contexto e o destino desses recursos.

Outro conjunto de informações reunidas pela investigação envolve deslocamentos internacionais realizados pelos investigados. A Polícia Federal identificou que Lulinha e o Careca do INSS viajaram, em pelo menos três ocasiões, para Madri, na Espanha, e Lisboa, em Portugal, durante os mesmos períodos. Além disso, a investigação aponta que, em janeiro de 2025, Lulinha viajou com sua família para a Noruega e a Finlândia em uma viagem cujas despesas, segundo a PF, teriam sido custeadas por Roberta Luchsinger. O custo estimado da viagem, incluindo passagens em primeira classe e hospedagem em hotéis de alto padrão, foi calculado em aproximadamente R$ 300 mil por família.

A Polícia Federal também analisou registros de uma agência de viagens que recebeu mais de R$ 640 mil de uma empresa ligada a Roberta Luchsinger. De acordo com o relatório, essa agência aparece vinculada aos dados cadastrais utilizados por Lulinha em viagens internacionais. Um ex-funcionário de Antonio Carlos Camilo Antunes afirmou aos investigadores que o lobista arcava com despesas de Roberta e de Fábio Luís, enquanto os três discutiam um possível empreendimento voltado ao mercado de cannabis medicinal.

As investigações ainda apontam que o lobista realizou, em outubro de 2024, a entrega de uma encomenda em um apartamento alugado por Lulinha na cidade de São Paulo. O conteúdo da entrega não foi detalhado nos elementos divulgados até o momento.

Documentos obtidos pela Polícia Federal por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que Roberta Luchsinger esteve quatro vezes no Ministério da Saúde entre 2023 e 2024. Apenas uma dessas visitas consta na agenda oficial da pasta, ocasião em que ela foi identificada como diretora de Relações Institucionais e Governamentais da empresa DuoSystem.

Os registros também revelam que Antonio Carlos Camilo Antunes compareceu cinco vezes ao Ministério da Saúde. Em 2024, apresentou-se em três ocasiões como diretor de uma empresa de telemedicina. Em uma dessas visitas, estava acompanhado de Roberta Luchsinger. Já em 2025, realizou duas entradas no ministério identificado como presidente da World Cannabis, empresa especializada no setor de fitoterapia.

Além dos encontros e das movimentações financeiras, mensagens analisadas pela investigação indicam que o lobista mantinha uma relação de proximidade com Roberta Luchsinger, incluindo o envio de presentes pessoais. Segundo os autos, ambos optaram por não comentar o conteúdo das mensagens quando procurados.

A defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirmou ter recebido a abertura da investigação com surpresa. O advogado Marco Aurélio de Carvalho declarou que “É estranha a notícia sobre a instauração de um novo inquérito. A impressão que passa é de que a Polícia Federal está promovendo uma espécie de de fishing expedition, o que é muito grave. Recebemos, portanto, com estranheza, mas com tranquilidade”.

O defensor acrescentou que “Teremos a oportunidade, uma vez mais, de demonstrar que Fábio não tem relação direta ou indireta com qualquer tipo de irregularidade”.

A autorização concedida pelo ministro André Mendonça permite que a Polícia Federal aprofunde as diligências para verificar se houve favorecimento indevido, tráfico de influência ou qualquer outra prática criminosa relacionada às negociações envolvendo o setor de cannabis medicinal. A abertura do inquérito não representa conclusão sobre a existência de crime nem implica responsabilização dos investigados, cabendo à investigação reunir elementos para eventual apresentação de denúncia ou arquivamento do caso.

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