OMS aponta avanço histórico no combate às doenças tropicais negligenciadas, mas alerta para risco de retrocessos

Apesar do avanço histórico no combate às doenças tropicais, OMS alerta para desafios no financiamento e na prevenção
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou um avanço histórico no combate às doenças tropicais negligenciadas (DTNs), um grupo de enfermidades que afeta principalmente populações em situação de vulnerabilidade social, especialmente em regiões com dificuldades de acesso à água potável, saneamento básico, serviços de saúde e condições adequadas de moradia.

De acordo com o mais recente relatório global da agência, divulgado em novembro de 2026, 63 países já conseguiram eliminar pelo menos uma doença tropical negligenciada como problema de saúde pública. O resultado representa um crescimento expressivo em relação aos 42 países registrados no final de 2020 e demonstra o impacto de décadas de campanhas de prevenção, diagnóstico, vacinação, distribuição de medicamentos e fortalecimento dos sistemas de saúde.

Outro indicador que evidencia a dimensão dos avanços é a redução do número de pessoas que necessitam de intervenções contra essas enfermidades. Atualmente, são aproximadamente 1,41 bilhão de pessoas nessa condição, uma diminuição de 36% em comparação com 2010 e de 19% em relação a 2020.

Para a OMS, os números representam uma transformação significativa na saúde pública mundial. Entretanto, a organização ressalta que os resultados ainda são desiguais e que a continuidade das conquistas depende de investimentos permanentes, cooperação internacional e ampliação do acesso aos serviços de saúde.

Doenças tropicais negligenciadas: um problema que atinge milhões de pessoas

As doenças tropicais negligenciadas compreendem um conjunto de enfermidades infecciosas e parasitárias que atingem principalmente comunidades pobres e populações historicamente marginalizadas.

Entre elas estão a doença de Chagas, hanseníase, leishmaniose, esquistossomose, filariose linfática, oncocercose, tracoma, doença do sono, dengue e outras enfermidades que podem provocar incapacidades permanentes, complicações graves e mortes.

Embora muitas dessas doenças sejam preveníveis e tratáveis, continuam representando um importante desafio para os sistemas de saúde. A transmissão está frequentemente relacionada a fatores ambientais, presença de vetores, condições precárias de habitação, ausência de saneamento e dificuldades de acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

Em diversas regiões, a população convive durante anos com essas enfermidades sem receber atendimento adequado. Por isso, a OMS considera fundamental combinar ações médicas com políticas públicas de saneamento, educação, controle ambiental e desenvolvimento social.

Redução histórica da doença do sono e recorde no combate à dracunculíase

Entre os resultados mais expressivos apresentados pelo relatório está a redução de aproximadamente 98% nos casos de tripanossomíase humana africana, conhecida como doença do sono, desde 1999.

A conquista está relacionada à ampliação da vigilância epidemiológica, ao diagnóstico precoce, ao tratamento dos pacientes e às estratégias de controle da mosca tsé-tsé, responsável pela transmissão do parasita.

Outro resultado histórico foi registrado no combate à dracunculíase, também conhecida como doença do verme-da-guiné. Em 2025, foram notificados apenas dez casos humanos, o menor número já registrado.

A redução demonstra a eficácia das estratégias de prevenção, especialmente aquelas relacionadas à oferta de água potável, educação sanitária e identificação de áreas de transmissão.

Esses resultados indicam que a eliminação de determinadas doenças é possível quando existe continuidade das políticas públicas, participação comunitária e colaboração entre governos e organismos internacionais.

OMS alerta para desigualdades e risco de retrocesso

Apesar dos avanços, a organização internacional chama atenção para um cenário preocupante: algumas doenças continuam apresentando crescimento, enquanto outras permanecem fora do ritmo necessário para alcançar as metas globais.

Um dos principais exemplos é a dengue, que registrou aproximadamente 15,1 milhões de casos em 2024, o maior número já documentado.

A expansão da doença está relacionada a diferentes fatores, incluindo mudanças climáticas, urbanização desordenada, deficiência de saneamento, armazenamento inadequado de água e disseminação do mosquito Aedes aegypti.

O relatório também aponta aumento das mortes associadas a doenças tropicais negligenciadas transmitidas por vetores e dificuldades para cumprir os objetivos de erradicação da bouba, enfermidade infecciosa que atinge principalmente crianças em comunidades vulneráveis.

Outro obstáculo importante é a insuficiência de recursos financeiros. Segundo o documento, o financiamento global destinado ao enfrentamento dessas enfermidades permanece aproximadamente 30% abaixo dos níveis anteriores à pandemia de Covid-19.

A concentração dos recursos em poucos financiadores também representa uma vulnerabilidade. Entre 2018 e 2024, um grupo restrito de doadores respondeu por até 80% dos recursos internacionais destinados a essas iniciativas.

Na avaliação da OMS, essa dependência compromete a sustentabilidade dos programas, principalmente em países com menor capacidade de financiamento e infraestrutura sanitária.

Novas tecnologias e medicamentos ampliam as possibilidades de tratamento

O desenvolvimento científico representa uma das principais oportunidades para acelerar a eliminação das doenças tropicais negligenciadas.

O relatório destaca a disponibilização de novas ferramentas preventivas e terapêuticas, incluindo medicamentos aprovados ou pré-qualificados pela OMS, que podem ampliar a capacidade de resposta dos sistemas de saúde.

Entre as novidades está o arpraziquantel pediátrico, desenvolvido para o tratamento da esquistossomose em crianças pequenas. A inovação representa um avanço importante, considerando que as formulações anteriores nem sempre eram adequadas para essa faixa etária.

Outra alternativa destacada é a miltefosina genérica, utilizada no tratamento da leishmaniose, que pode contribuir para ampliar a disponibilidade e o acesso ao medicamento.

O documento também destaca o desenvolvimento e a utilização de vacinas contra doenças transmitidas por mosquitos, incluindo dengue e chikungunya, além de novos medicamentos destinados ao enfrentamento da oncocercose e da doença do sono.

Entretanto, a existência de novas tecnologias não garante, por si só, a redução das doenças. É necessário assegurar produção, distribuição, financiamento, capacitação profissional e acesso gratuito ou economicamente viável aos tratamentos.

A OMS defende que essas intervenções sejam incorporadas de maneira permanente à atenção primária à saúde, permitindo diagnóstico e tratamento próximos das comunidades.

Brasil mantém papel estratégico na pesquisa e no enfrentamento das doenças tropicais

Na América Latina, o Brasil ocupa posição estratégica no enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas, tanto pela dimensão de seus desafios epidemiológicos quanto pela capacidade científica e tecnológica instalada no país.

O território brasileiro reúne condições ambientais, climáticas e socioeconômicas que favorecem a circulação de diferentes agentes infecciosos e a presença de vetores transmissores.

Entre os principais desafios estão a dengue, a doença de Chagas, a leishmaniose, a hanseníase, a esquistossomose e outras enfermidades que atingem principalmente populações com dificuldades de acesso aos serviços públicos de saúde.

O país também enfrenta ameaças relacionadas à chikungunya e à febre amarela, que exigem vigilância epidemiológica contínua, estratégias de vacinação e ações de controle de vetores.

A pesquisa científica brasileira desempenha papel importante na identificação de agentes infecciosos, desenvolvimento de métodos diagnósticos, avaliação de medicamentos e produção de conhecimento para orientar políticas públicas.

Instituições de pesquisa, universidades e serviços de saúde contribuem para ampliar a capacidade nacional de prevenção e controle dessas enfermidades.

No caso da dengue, a incorporação de novas tecnologias, incluindo vacinas e estratégias inovadoras de controle do Aedes aegypti, representa uma possibilidade de fortalecer as ações de prevenção.

Entretanto, a persistência de epidemias demonstra que o enfrentamento da doença exige medidas integradas. A vacinação precisa estar associada à eliminação de criadouros, ao monitoramento epidemiológico, à assistência adequada aos pacientes e à melhoria das condições de saneamento.

O desafio brasileiro é transformar sua capacidade científica em resultados concretos e permanentes, especialmente nas regiões onde a vulnerabilidade social e a deficiência de infraestrutura ampliam os riscos de transmissão.

Países africanos de língua portuguesa apresentam avanços importantes

O relatório também destaca a participação dos países de língua portuguesa nas iniciativas internacionais de combate às doenças tropicais negligenciadas.

Em Angola, as ações de enfrentamento incluem campanhas de administração em massa de medicamentos contra a filariose linfática, helmintíases transmitidas pelo solo e esquistossomose.

O país também mantém atividades de vigilância epidemiológica e controle de vetores em áreas historicamente afetadas pela doença do sono.

Essas iniciativas são fundamentais para reduzir a transmissão, identificar novos casos e impedir que regiões anteriormente controladas voltem a apresentar surtos.

Na Guiné-Bissau, um dos destaques é o combate ao tracoma, doença infecciosa que pode provocar lesões oculares e cegueira irreversível quando não tratada adequadamente.

O país apresenta progressos expressivos e está próximo dos critérios necessários para eliminar o tracoma como problema de saúde pública.

Também foram ampliadas as ações comunitárias de distribuição de medicamentos contra a filariose linfática e as helmintíases, especialmente em localidades rurais onde o acesso aos serviços de saúde é mais limitado.

Cabo Verde reforça vigilância para evitar a reintrodução de doenças

Cabo Verde avança nas estratégias de consolidação e verificação da eliminação de doenças transmitidas por vetores.

Entre as principais medidas estão o fortalecimento da vigilância epidemiológica, o monitoramento de áreas de risco e o controle nos portos e aeroportos.

A preocupação está relacionada à possibilidade de reintrodução de vetores transmissores, especialmente o mosquito Aedes aegypti, que pode favorecer a circulação de doenças como dengue e outras arboviroses.

A experiência cabo-verdiana demonstra que eliminar uma doença representa apenas uma etapa do processo. É necessário manter sistemas permanentes de vigilância para impedir o retorno da transmissão.

São Tomé e Príncipe aposta na saúde escolar e no saneamento

Em São Tomé e Príncipe, as iniciativas de enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas incluem intervenções integradas nas escolas, ampliação do saneamento básico e campanhas de administração de medicamentos contra parasitoses.

O controle das helmintíases e do tracoma depende de medidas que vão além do atendimento médico individual.

A educação sanitária, o acesso à água potável e a melhoria das condições de higiene são elementos fundamentais para interromper ciclos de transmissão.

A atuação nas escolas também permite alcançar crianças e famílias, ampliando o conhecimento sobre prevenção e os cuidados necessários para evitar reinfecções.

Timor-Leste fortalece ações de vigilância e resposta comunitária

No Sudeste Asiático, Timor-Leste mantém iniciativas voltadas à eliminação sustentada do tracoma e da filariose linfática.

O país também intensifica ações de vigilância e resposta comunitária diante de surtos de dengue e casos de escabiose.

A participação das comunidades é considerada essencial para identificar rapidamente situações de risco, facilitar o acesso aos serviços de saúde e ampliar a adesão às medidas preventivas.

A experiência do país reforça a importância de estratégias adaptadas à realidade local, especialmente em regiões onde a infraestrutura sanitária ainda apresenta limitações.

Portugal amplia cooperação técnica e científica com países lusófonos

O relatório também reconhece a importância de Portugal na cooperação internacional voltada ao enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas.

O país contribui por meio de iniciativas de capacitação profissional, pesquisa acadêmica, financiamento e fortalecimento de redes de vigilância epidemiológica.

A cooperação técnica com países africanos de língua portuguesa e Timor-Leste favorece a transferência de conhecimentos, o intercâmbio científico e a qualificação dos profissionais de saúde.

Essa articulação é particularmente relevante para países com menor capacidade de financiamento, que dependem de parcerias internacionais para ampliar a infraestrutura de diagnóstico, prevenção e tratamento.

A língua compartilhada também pode facilitar a formação de profissionais, a circulação de informações científicas e a implementação de protocolos de saúde pública.

Meta de 2030 exige mais investimentos e integração das políticas públicas

A OMS considera que os resultados alcançados demonstram a possibilidade de reduzir significativamente o impacto das doenças tropicais negligenciadas em escala global.

Entretanto, para cumprir os compromissos internacionais estabelecidos para 2030, será necessário acelerar as iniciativas nacionais e ampliar os investimentos.

Entre as prioridades estão o fortalecimento dos sistemas públicos de saúde, a ampliação da atenção primária, a melhoria do saneamento básico e a integração das ações de prevenção e tratamento.

A organização também destaca a necessidade de aperfeiçoar os sistemas de informação, com produção de dados mais abrangentes e desagregados por gênero, permitindo identificar desigualdades e direcionar os recursos para as populações que mais necessitam.

Outro ponto fundamental é ampliar a participação dos governos nacionais no financiamento das políticas de combate às doenças tropicais negligenciadas, reduzindo a dependência de doadores internacionais.

Combate às doenças negligenciadas também é uma questão de justiça social

O avanço registrado pela OMS representa uma conquista científica, sanitária e social. A redução da incidência de doenças, a ampliação dos tratamentos e a eliminação de enfermidades em dezenas de países demonstram que políticas públicas consistentes podem transformar realidades historicamente marcadas pela vulnerabilidade.

Entretanto, milhões de pessoas continuam expostas a doenças que poderiam ser prevenidas ou controladas por meio de medidas relativamente conhecidas, como vacinação, distribuição de medicamentos, saneamento, acesso à água potável e assistência médica.

O desafio agora é garantir que os resultados não sejam temporários e que as populações mais vulneráveis não fiquem excluídas dos benefícios das novas tecnologias.

Para os países lusófonos, a cooperação internacional, o intercâmbio científico e o fortalecimento dos sistemas nacionais de saúde representam oportunidades estratégicas.

No Brasil, em particular, a integração entre pesquisa, vigilância epidemiológica, vacinação e atenção primária será determinante para reduzir a transmissão e evitar novas epidemias.

A mensagem central do relatório é clara: o mundo já demonstrou que é possível avançar no combate às doenças tropicais negligenciadas, mas transformar conquistas históricas em resultados permanentes exige financiamento, compromisso político e acesso universal à saúde.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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