Lentes de contato que estimulam o cérebro podem revolucionar tratamento da depressão, dizem cientistas

Tecnologia inédita desenvolvida por pesquisadores sul-coreanos apresentou resultados semelhantes aos de antidepressivos tradicionais em testes com camundongos e pode abrir caminho para terapias menos invasivas
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Yonsei desenvolveu uma lente de contato inteligente capaz de estimular regiões cerebrais associadas ao humor por meio de sinais elétricos extremamente leves transmitidos pela retina. Em testes realizados com camundongos, a tecnologia demonstrou potencial para reduzir sintomas relacionados à depressão, apresentando resultados comparáveis aos obtidos com o uso de fluoxetina, um dos antidepressivos mais utilizados no mundo.

O estudo foi publicado em maio de 2026 na revista científica Cell Reports Physical Science e representa um avanço promissor na busca por tratamentos menos invasivos para transtornos mentais. Segundo os pesquisadores, a inovação também poderá futuramente contribuir para terapias voltadas à ansiedade, dependência química e declínio cognitivo.

Como funcionam as lentes inteligentes

As lentes desenvolvidas pelos cientistas são transparentes, flexíveis e equipadas com microeletrodos capazes de emitir sinais elétricos suaves diretamente ao sistema visual. A estimulação ocorre através da retina, estrutura ocular conectada ao cérebro, permitindo alcançar áreas cerebrais ligadas à regulação emocional.

O método utilizado recebe o nome de “interferência temporal”, técnica que combina dois sinais elétricos de baixa intensidade. Individualmente, os estímulos são inofensivos, mas quando se encontram em um ponto específico, conseguem ativar circuitos neurais de maneira direcionada.

De acordo com o pesquisador Jang-Ung Park, líder do estudo, a ideia surgiu justamente da relação anatômica entre o olho e o cérebro.

“O olho é uma extensão natural do cérebro. Queríamos investigar se uma lente de contato poderia servir como uma porta de entrada não invasiva para estimular circuitos cerebrais responsáveis pelo humor”, explicou o cientista em comunicado divulgado pela universidade.

Park comparou o funcionamento da tecnologia ao cruzamento de dois feixes de luz. Segundo ele, os sinais elétricos permanecem fracos individualmente, mas tornam-se ativos apenas no ponto onde se encontram, permitindo uma estimulação cerebral mais precisa e segura.

Resultados animadores em testes laboratoriais

Para avaliar a eficácia do dispositivo, os pesquisadores dividiram os animais em quatro grupos distintos: camundongos saudáveis, camundongos com depressão induzida sem tratamento, camundongos tratados com as lentes inteligentes e camundongos tratados com fluoxetina.

Os animais utilizaram as lentes durante 30 minutos diários ao longo de três semanas. Após o período de testes, os cientistas observaram melhorias comportamentais significativas nos camundongos tratados com a nova tecnologia.

Além das alterações no comportamento, exames cerebrais revelaram restauração da comunicação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal, áreas fundamentais para memória, emoções e tomada de decisões, frequentemente afetadas em quadros depressivos.

Os pesquisadores também identificaram mudanças biológicas relevantes. Entre elas:

  • redução de 48% nos níveis de corticosterona, hormônio associado ao estresse em roedores;

  • aumento de 47% nos níveis de serotonina, neurotransmissor ligado à sensação de bem-estar;

  • diminuição de moléculas inflamatórias relacionadas à depressão.

Um sistema de inteligência artificial utilizado pela equipe também analisou os dados comportamentais e neurológicos dos animais. O modelo agrupou os camundongos tratados com as lentes junto aos animais saudáveis, indicando forte recuperação funcional.

“Ficamos impressionados ao observar melhorias simultâneas no comportamento, na atividade cerebral e nos biomarcadores biológicos, com resultados comparáveis aos obtidos com antidepressivos convencionais”, destacou Park.

Tecnologia ainda depende de testes em humanos

Apesar dos resultados considerados promissores, os cientistas ressaltam que o tratamento ainda está em fase experimental e não pode ser aplicado em humanos neste momento.

Os próximos passos incluem o desenvolvimento de uma versão totalmente sem fio das lentes, novos testes de segurança em animais maiores e estudos personalizados para definir intensidades ideais de estímulo elétrico para diferentes perfis de pacientes.

Especialistas apontam que, caso os resultados sejam confirmados em humanos, a tecnologia poderá representar uma alternativa menos invasiva aos tratamentos atuais, que incluem medicamentos, eletroconvulsoterapia e implantes cerebrais.

Potencial para tratar outras doenças neurológicas

Os pesquisadores acreditam que a plataforma poderá futuramente ser adaptada para outras condições além da depressão. Entre as possibilidades estudadas estão tratamentos para ansiedade, vícios, distúrbios neurodegenerativos e comprometimento cognitivo relacionado ao envelhecimento.

Até então, lentes de contato inteligentes vinham sendo utilizadas principalmente para monitoramento de doenças oculares e metabólicas, como medição da pressão intraocular e controle glicêmico. Esta é a primeira vez que a tecnologia é aplicada experimentalmente no tratamento de um transtorno cerebral.

Segundo os autores, o estudo reforça a crescente tendência da medicina de desenvolver terapias neurológicas mais precisas, personalizadas e menos agressivas ao organismo.

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