CDC investiga avanço da ciclosporíase em mais de 30 estados; autoridades apuram possível ligação com verduras folhosas, enquanto especialistas reforçam cuidados com alimentos frescos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Um surto de ciclosporíase, doença intestinal causada pelo parasita microscópico Cyclospora cayetanensis, mobiliza autoridades de saúde dos Estados Unidos após quase 7 mil casos confirmados ou sob investigação em todo o país. O maior número de infecções foi registrado no estado de Michigan, onde investigadores apontam alface e outras folhas verdes como possíveis fontes de contaminação. Embora ainda não exista um alimento oficialmente identificado como responsável pelo surto, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Food and Drug Administration (FDA) intensificam as investigações para rastrear a origem da infecção e evitar novos casos.
Casos crescem rapidamente e preocupam autoridades
Os Estados Unidos enfrentam um dos maiores surtos recentes de ciclosporíase. Segundo atualização divulgada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) em 14 de julho de 2026, 1.645 casos já foram oficialmente confirmados, enquanto outros 5.100 permanecem sob investigação, elevando o total para quase 7 mil ocorrências em todo o país.
Até o momento, 34 estados registraram pacientes com suspeita ou confirmação da doença. O CDC explica que existe uma diferença entre os números estaduais e o total nacional porque cada caso precisa passar por confirmação laboratorial antes de integrar as estatísticas federais.
Desde o início do surto, em maio, 141 pessoas precisaram ser hospitalizadas, embora nenhuma morte tenha sido registrada.
Michigan concentra a maior parte das ocorrências, com 3.309 casos confirmados, tornando-se o epicentro da investigação epidemiológica.
Verduras aparecem como principal suspeita
Após entrevistar mais de mil pacientes infectados, autoridades sanitárias de Michigan identificaram um padrão importante: muitos dos doentes relataram ter consumido alface ou outras folhas verdes utilizadas em saladas antes do aparecimento dos sintomas.
Apesar dessa associação, os investigadores ressaltam que não há confirmação de que um produto específico seja o responsável pelo surto.
Também não foi identificado um fornecedor, produtor rural, supermercado ou restaurante que possa ser apontado como origem comum da contaminação.
A diretora médica executiva do Departamento de Saúde de Michigan, Dra. Natasha Bagdasarian, afirmou que a hipótese mais provável é que a contaminação tenha ocorrido durante o cultivo ou processamento dos vegetais, antes da distribuição para diversos estabelecimentos.
Segundo ela, isso explicaria por que pessoas infectadas fizeram compras ou refeições em locais diferentes.
Taco Bell remove ingredientes por precaução
Embora nenhuma rede de restaurantes tenha sido oficialmente ligada ao surto, a Taco Bell informou que retirou temporariamente alguns ingredientes de unidades selecionadas como medida preventiva.
A empresa ressaltou, entretanto, que as autoridades de saúde não estabeleceram qualquer vínculo entre os casos e seus restaurantes.
A decisão foi apresentada como uma ação de precaução enquanto as investigações continuam.
O que é a ciclosporíase?
A ciclosporíase é uma infecção intestinal provocada pelo protozoário microscópico Cyclospora cayetanensis.
O parasita é transmitido principalmente pelo consumo de alimentos ou água contaminados por fezes humanas.
Frutas e verduras consumidas cruas representam um dos maiores riscos quando entram em contato com água contaminada durante a irrigação ou durante etapas do processamento e manipulação.
Historicamente, surtos da doença já foram associados a produtos como:
-
alface;
-
saladas embaladas;
-
framboesas;
-
coentro;
-
manjericão;
-
cebolinha;
-
ervilha-torta.
Sintomas podem durar semanas
Um dos fatores que dificulta o diagnóstico é que os sintomas normalmente aparecem entre dois dias e duas semanas após o consumo do alimento contaminado, sendo mais comum um período de aproximadamente uma semana.
Entre os principais sintomas estão:
-
diarreia intensa e aquosa;
-
cólicas abdominais;
-
náuseas;
-
perda de apetite;
-
fadiga extrema;
-
perda de peso;
-
dores musculares;
-
febre baixa.
Especialistas alertam que, sem tratamento adequado, a doença pode persistir durante várias semanas ou até meses, alternando períodos de melhora e recaída.
O tratamento costuma ser realizado com o antibiótico trimetoprima-sulfametoxazol (TMP-SMX), comercializado em alguns países como Bactrim, além da reposição de líquidos para evitar desidratação.
Lavar verduras nem sempre elimina o parasita
Uma característica que preocupa os especialistas é a resistência do parasita.
De acordo com o CDC, lavar verduras apenas com água ou utilizar vinagre e soluções comerciais para higienização pode não ser suficiente para remover completamente a Cyclospora.
Como o parasita pode aderir à superfície dos alimentos, recomenda-se:
-
lavar frutas e verduras em água corrente;
-
esfregar cuidadosamente alimentos de superfície firme;
-
remover folhas externas de vegetais quando possível;
-
manter boas práticas de higiene durante o preparo dos alimentos.
Ainda assim, essas medidas reduzem riscos, mas não garantem a eliminação total do parasita quando o alimento já está contaminado na origem.
FDA também participa das investigações
Além do CDC, a Food and Drug Administration (FDA) participa da investigação para rastrear possíveis cadeias de distribuição responsáveis pela disseminação dos alimentos contaminados.
Até a publicação desta reportagem, nenhum recall (recolhimento oficial de produtos) havia sido anunciado, justamente porque ainda não foi possível identificar uma origem comum para os casos.
As autoridades continuam coletando amostras, realizando entrevistas epidemiológicas e analisando cadeias de abastecimento para tentar interromper a transmissão.
Especialistas orientam atenção aos sintomas
Autoridades de saúde recomendam que pessoas que desenvolverem diarreia intensa por vários dias, especialmente após consumir verduras cruas, procurem atendimento médico.
O diagnóstico depende de exames laboratoriais específicos, uma vez que a Cyclospora cayetanensis não é identificada em exames convencionais de fezes.
O tratamento precoce reduz o tempo de doença e diminui o risco de complicações, principalmente em idosos, crianças pequenas e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
- Leia mais:
Espanha domina a França, vence por 2 a 0 e garante vaga na final da Copa do Mundo
Justiça dos EUA analisa ação que pode restabelecer emissão de vistos de imigração para brasileiros

Faça um comentário