Corrida contra o Ebola acelera com novos testes de vacinas na RD Congo

Ciência mobiliza plataformas de mRNA e vetores virais para enfrentar o surto de Bundibugyo, enquanto OMS e parceiros reforçam que vacinação ainda precisa caminhar ao lado de vigilância, rastreamento de contatos e participação das comunidades
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A corrida científica para encontrar uma vacina capaz de combater especificamente o vírus Ebola de Bundibugyo ganhou velocidade em meio ao agravamento do surto na República Democrática do Congo (RDC). Com 3.973 casos confirmados e pelo menos 1.801 mortes registrados até 4 de agosto, segundo dados divulgados pelas autoridades sanitárias, pesquisadores e instituições internacionais aceleraram o desenvolvimento e os testes de três candidatas experimentais. Em atualização posterior, o número total de casos já havia ultrapassado a marca de 4 mil, aumentando a pressão sobre os sistemas de saúde e sobre a resposta internacional.

O avanço ocorre em um momento particularmente delicado. Diferentemente do Ebola causado pela espécie Zaire, para o qual existe a vacina Ervebo, ainda não há uma vacina licenciada especificamente contra o vírus Bundibugyo. Por isso, cientistas trabalham para descobrir se plataformas já conhecidas, incluindo vetores virais e a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), podem oferecer uma resposta segura e eficaz contra essa variante do vírus.

Três candidatas entram na corrida

A estratégia internacional envolve três candidatas consideradas prioritárias pela comunidade científica: uma desenvolvida pela Universidade de Oxford, outra pela Moderna, utilizando tecnologia de mRNA, e uma terceira baseada na plataforma rVSV, desenvolvida pela IAVI.

A iniciativa recebeu apoio da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), que trabalha em parceria com governos, instituições de pesquisa, fabricantes e organizações internacionais para acelerar o desenvolvimento de vacinas contra ameaças epidêmicas.

A diversidade das plataformas é considerada estratégica. Em vez de apostar em uma única tecnologia, os pesquisadores avançam simultaneamente com abordagens diferentes, aumentando as possibilidades de encontrar uma vacina capaz de produzir uma resposta imunológica eficaz contra o Bundibugyo.

Oxford inicia primeiro teste em humanos

Um dos avanços mais importantes ocorreu em julho, quando a Universidade de Oxford iniciou o primeiro ensaio clínico em seres humanos de uma vacina especificamente desenvolvida contra o vírus Bundibugyo.

A candidata, denominada ChAdOx1 BDBV, utiliza um vetor viral não replicante baseado na plataforma ChAdOx1. A tecnologia já foi utilizada anteriormente no desenvolvimento da vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19.

O ensaio de Fase 1 foi planejado para avaliar principalmente a segurança da vacina e a resposta imunológica dos participantes. A primeira etapa envolve adultos saudáveis e representa apenas o começo do processo necessário para determinar se o imunizante poderá, no futuro, ser utilizado em larga escala.

Em 24 de julho, Oxford confirmou que o primeiro voluntário havia recebido a vacina, marcando um momento histórico no desenvolvimento de um imunizante específico contra o Bundibugyo.

A velocidade de produção também chama atenção. Segundo informações divulgadas pela universidade, o Serum Institute of India produziu centenas de milhares de doses da candidata em um curto período, permitindo que o programa mantenha capacidade de avançar rapidamente caso os resultados clínicos sejam positivos.

Tecnologia de mRNA também é testada

Outra frente da corrida científica utiliza a tecnologia de RNA mensageiro, a mesma plataforma que ganhou enorme projeção durante a pandemia de Covid-19.

A candidata desenvolvida pela Moderna está sendo avaliada em estudos iniciais para determinar se consegue estimular uma resposta imunológica contra o vírus Bundibugyo sem apresentar problemas de segurança que impeçam o prosseguimento das pesquisas.

O interesse pelo mRNA está relacionado à capacidade da plataforma de ser adaptada rapidamente para diferentes agentes infecciosos. Isso não significa, entretanto, que uma vacina experimental baseada nessa tecnologia possa ser utilizada imediatamente.

Antes de qualquer autorização, são necessários resultados consistentes de diferentes etapas de pesquisa, incluindo avaliações de segurança, resposta imunológica e, posteriormente, eficácia.

IAVI aposta em plataforma rVSV

A terceira candidata priorizada utiliza a plataforma rVSV, baseada em um vírus modificado utilizado como vetor para apresentar ao sistema imunológico proteínas específicas do agente infeccioso.

A tecnologia ganhou relevância no combate ao Ebola porque está relacionada à plataforma utilizada no desenvolvimento da Ervebo, vacina licenciada contra a doença provocada pelo Ebola vírus da espécie Zaire.

No caso do Bundibugyo, porém, os pesquisadores precisam demonstrar que a plataforma consegue produzir uma proteção específica contra essa espécie viral.

O objetivo dos estudos não é apenas verificar se o organismo produz anticorpos ou outras respostas imunológicas, mas descobrir se essas respostas poderão efetivamente impedir a doença.

E a Ervebo?

A existência da Ervebo é uma das questões mais importantes — e mais delicadas — da atual resposta ao surto.

A vacina é licenciada contra o Ebola vírus (Zaire), responsável por grandes epidemias anteriores na África. O atual surto, entretanto, é provocado pelo Bundibugyo ebolavirus, uma espécie diferente.

Isso significa que a Ervebo não pode ser apresentada como uma vacina já aprovada especificamente contra o vírus responsável pela atual epidemia.

Pesquisadores estudam, porém, se a vacina pode proporcionar algum grau de proteção cruzada. A possibilidade é importante porque, diante de uma emergência, mesmo uma proteção parcial poderia eventualmente ter utilidade para determinados grupos, desde que sua segurança e eficácia sejam avaliadas de maneira adequada.

A OMS tem acompanhado essa questão e defende que qualquer utilização da Ervebo contra o Bundibugyo seja respaldada por evidências científicas e conduzida dentro de protocolos apropriados.

A diferença entre os dois vírus é fundamental para compreender a atual corrida científica: o mundo já possui uma vacina contra uma espécie de Ebola, mas ainda precisa desenvolver uma proteção específica contra o Bundibugyo.

Surto ultrapassa 4 mil casos

Enquanto os pesquisadores trabalham nos laboratórios, a situação epidemiológica continua evoluindo rapidamente.

Os dados disponíveis até 4 de agosto apontavam 3.973 casos confirmados e pelo menos 1.801 mortes. Dois dias depois, as autoridades registravam mais de 4 mil casos, evidenciando a velocidade com que a epidemia continua avançando.

Os números são atualizados à medida que novas infecções são identificadas e investigações epidemiológicas são concluídas. Por isso, os dados precisam sempre ser acompanhados da respectiva data de referência.

A magnitude do surto transformou a epidemia em uma das principais emergências sanitárias do continente africano neste momento.

O problema também ultrapassa as fronteiras da RDC. A circulação de pessoas entre países da região aumentou a preocupação com a possibilidade de novos casos em territórios vizinhos, levando autoridades africanas a reforçarem a vigilância nas fronteiras e a coordenação regional.

Uganda também entra no radar

A possibilidade de disseminação internacional ganhou força após a identificação de um caso de Bundibugyo em Uganda relacionado ao surto na RDC.

O episódio levou o Africa CDC a defender uma coordenação mais intensa entre os países da região, especialmente em relação à vigilância epidemiológica, identificação de casos suspeitos, rastreamento de contatos e preparação dos serviços de saúde.

A experiência de epidemias anteriores de Ebola mostrou que a doença pode se espalhar rapidamente quando casos não são identificados e isolados em tempo oportuno.

Por isso, a resposta não depende exclusivamente de uma vacina.

Rastreamento de contatos continua sendo essencial

Enquanto as candidatas avançam nos ensaios clínicos, as autoridades de saúde mantêm medidas tradicionais de controle de epidemias.

Entre elas estão a identificação rápida de pessoas infectadas, rastreamento daqueles que tiveram contato com casos confirmados, acompanhamento de pessoas potencialmente expostas, diagnóstico laboratorial, tratamento adequado e prevenção da transmissão dentro das unidades de saúde.

A participação das comunidades também é considerada decisiva.

Em regiões afetadas por surtos anteriores de Ebola, a desconfiança em relação às autoridades e aos profissionais de saúde já dificultou campanhas de vacinação, identificação de contatos e isolamento de pacientes.

Por isso, organizações como a OMS e o Africa CDC defendem uma abordagem que envolva líderes comunitários, profissionais locais e população desde o início da resposta.

Ciência corre contra o relógio

O desenvolvimento das três candidatas demonstra como a ciência internacional mudou sua capacidade de reagir diante de ameaças infecciosas.

Tecnologias como mRNA e vetores virais permitem que pesquisadores desenvolvam protótipos e iniciem avaliações clínicas em períodos muito menores do que os observados décadas atrás.

Mas velocidade não significa abandonar os critérios científicos.

Uma vacina que chega à Fase 1 ainda está longe de estar pronta para distribuição. Os primeiros estudos precisam estabelecer se o produto é seguro e se provoca uma resposta imunológica adequada. Estudos posteriores precisam avaliar um número maior de pessoas e produzir evidências mais robustas sobre sua eficácia.

Somente depois dessas etapas, e das avaliações regulatórias correspondentes, uma vacina poderá eventualmente ser autorizada para uso amplo.

Uma corrida que vai além do surto atual

O esforço contra o Bundibugyo também tem uma dimensão que ultrapassa a atual epidemia.

Uma vacina eficaz poderia se transformar em uma ferramenta permanente para enfrentar futuros surtos provocados pelo mesmo vírus, reduzindo a dependência de medidas emergenciais e permitindo uma resposta mais rápida quando novos casos surgirem.

A estratégia adotada agora também poderá servir de modelo para futuras doenças infecciosas. A combinação entre plataformas tecnológicas diferentes, financiamento internacional, capacidade de fabricação e participação das instituições africanas pode diminuir o tempo necessário para transformar uma descoberta científica em uma ferramenta de saúde pública.

No entanto, essa transformação ainda depende dos resultados dos ensaios.

A batalha acontece em duas frentes

A atual crise na República Democrática do Congo resume um dos maiores desafios da saúde pública moderna: conter uma epidemia enquanto a ciência tenta desenvolver uma solução de longo prazo.

Nos hospitais e comunidades, profissionais de saúde trabalham para encontrar casos, tratar pacientes, rastrear contatos e interromper novas cadeias de transmissão.

Nos laboratórios, pesquisadores testam diferentes plataformas em busca de uma vacina específica contra o Bundibugyo.

A Ervebo pode ajudar a responder algumas perguntas científicas sobre proteção cruzada, mas ainda não substitui a necessidade de uma vacina especificamente desenvolvida e comprovada contra o vírus responsável pelo atual surto.

Enquanto os números continuam subindo, cada dia de pesquisa ganha importância.

A esperança está nos três programas de vacinação que avançam simultaneamente. A urgência, porém, permanece no terreno: conter a transmissão agora, enquanto a ciência trabalha para garantir uma proteção mais eficaz no futuro.

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